02/10/2015 Número de leitores: 847

Rosa Negra

Nãna Damino Ver Perfil

Ela passa, ele olha! Linda, olhar brilhante e muito sedutora.

Paulo era um renomado Pneumologista da década de 40 e Rebeca, uma jovem religiosa que desejava tornar-se freira. Homem de meia idade, nada atraente e com deficiência em uma das pernas, sabia que a jovem jamais o olharia como ele a via.

Paulo chegava cedo ao consultório e atendia os necessitados até as nove, depois, sua agenda era repleta de artistas e políticos, mas nada disso o fazia feliz.

Chegava tarde em casa e Dadá, sua empregada há 20 anos, servia seus pratos preferidos com carinho. Depois, Paulo sentava na cadeira de balanço e chupava uma deliciosa bala de café até cochilar.

Paulo saiu atrasado e sem tomar café. Roupa desalinhada e barba sem fazer pioravam ainda mais sua aparência.

Terminou os atendimentos gratuitos e resolveu sair para comer algo, mas, uma leve tontura o derrubou, desmaiando no jardim da clínica.

Rebeca voltava da igreja e ao ver o homem no chão, abriu o portão e tentou reanimá-lo. Não tinha forças para carregá-lo, mas sua fé lhe fortaleceu, conseguindo arrastá-lo para dentro e reanimá-lo.

Paulo acordou, mas a moça nunca imaginou que o ele desse um salto desajeitado quando a viu por ali. Envergonhado, temia a rejeição.

— Já parece bem. Preciso ir, fique com Deus.

— Não vá. Como se chama?

— Rebeca senhor.

— Obrigado pelo socorro. Como posso agradecer?

— Não é necessário. Sua recuperação é a recompensa da fé.

— Gostaria de retribuir o gesto. Almoce comigo?

Rebeca negou o convite, pois não saberia se comportar na casa de um rico.

— Vá Rebeca, por favor, sou muito só. 

Sem jeito, a moça aceitou o convite, ajudando o médico pela calçada enquanto caminhava com sua bengala.

Durante o almoço cada um contou sua história de vida, mas com os olhares entrelaçados.

Ao terminar, Rebeca partiu enquanto ele acenava do portão. Meses se passaram e eles não se viram mais. Paulo não desistia e sempre a esperava passar na frente do consultório, porém, estava certo de não a ter agradado, conformando-se com a solidão.

Mais um dia se passou e quando Paulo chegou em casa, alguém bateu à porta em desespero. Um homem simples e chorando clamava por ajuda do médico.

— O que houve?                                                                                                                 

— Preciso de sua ajuda. Por caridade, vá até minha casa.

Algo impulsionou Paulo a acompanhar o pobre homem.

— Doutor, desculpe, não posso pagar a consulta.

— Não estou aqui pelo dinheiro, mas pelo doente. Onde está?

—Naquele cômodo.

Paulo não entendia porque seu coração batia forte, então, abriu logo a porta e que surpresa, lá estava Rebeca deitada na cama, linda, abatida, porém ainda sedutora.

Rapidamente prestou socorro e diagnosticou a Pneumonia. Medicou a moça prometendo visitá-la diariamente.

Paulo não faltou à visita nenhum dia, pois seu coração falava mais alto do que a profissão. Rebeca retribuía-lhe os olhares, sinalizando seu afeto por ele. Dali nasceu um amor puro, verdadeiro e inacreditável.

Rebeca recuperou-se e Paulo sem hesitar, pediu a mão da moça em casamento que aceitou com lágrimas nos olhos. Paulo sentia-se vivo e cheio de esperanças para uma vida nova, muito diferente da habitual solidão.

Após o casamento, Paulo parecia remoçado e suas pernas pareciam leves e seguras.

Dois anos se passaram e a casa era iluminada pelo amor do casal. A única coisa que incomodava Rebeca era o fato de Paulo ser ateu, mas a moça não desistia de ensinar-lhe sobre a existência de uma força maior, porém, Paulo repetia sempre a mesma frase.

— Querida, se acredita que existe um Deus segue-o, mas saiba que para mim ele não existe. Se existisse, não me faria um aleijado.

Numa noite fria, Paulo acordou com a tosse de Rebeca.

— Você está bem?

— Não consigo parar de tossir. Deve ser por causa da garoa que tomei na volta da igreja.

Paulo a examinou e ela estava sem febre, porém, medicou-a por precaução e a avaliaria melhor pela manhã na clínica, caso não melhorasse.

Após três dias Rebeca começou com a febre e Paulo já tinha um diagnóstico prévio, mas preferiu aguardar a reação dos melhores medicamentos da época. Estava desesperado, porém confiava em sua experiência.

Após catorze dias de medicamento, Paulo teve certeza que a Tuberculose avançava e Rebeca não reagia como esperado.

Aos vinte e sete dias Rebeca faleceu e levou consigo todo o brilho e a esperança que mantinham Paulo feliz. Abatido, barba sem fazer, proferiu duras e poucas palavras durante o enterro.

— Saiba que te amarei para sempre, mas jamais vou conseguir acreditar neste seu “Deus” que não me permitiu curá-la.

Dadá o amparava na volta para casa, mas nada o consolava, desacreditado de si mesmo.

Meses se passaram e Paulo não saiu de casa. Muitas pessoas batiam em sua porta, mas Dadá informava que ele não clinicaria mais. Deprimido e sem se alimentar direito, poucas vezes saia do quarto. Dadá cuidava dele com todo carinho na tentativa de fazê-lo reagir.

O dia estava frio, mas ensolarado. Paulo resolveu sair da cama e sentar-se na cadeira de balanço de onde muitas vezes admirou Rebeca. Lembrava do ritual de todas as noites quando Rebeca segurava seu rosto com as mãos, beijando-o sempre na mesma ordem: testa, nariz e lábios, dizendo sorrindo:

— NOITE BOA!

— Boa noite querida – disse Paulo como se ela estivesse ali.

De repente Dadá bateu na porta pedindo licença.

— Doutor não tem muita comida em casa e preciso de dinheiro para as compras.

Paulo olhou irritado por ela ter interrompido suas melhores lembranças.

— Preciso pegar no cofre.

— Desculpe. Quer ajuda?

— Perdeu o juízo? Nem Rebeca tinha o segredo do meu cofre. Saia e feche a porta.

Foi até o cofre checando se Dadá não o espiava. Ajustou o segredo e pegou o suficiente para as compras.

— Tome Dadá. Para o pouco que vou viver não preciso de muita comida.

Ao chegar das compras Dadá encontrou Paulo sentado na cozinha.

— O senhor por aqui! Louvado seja Deus!

—Não louve a nada nem a ninguém. Vim para ver o que comprou.

— Mas o Senhor nunca fez isso!

Paulo não respondeu e começou a tirar as compras da sacola.

— Frutas, para que frutas?

—Sei que o Senhor gosta!

— O que eu gosto já se foi! – Gritou irritado e saiu da cozinha.

— Dadá ajoelhou-se e rezou baixinho pedindo ajuda.

— Pai, o que faço? Não me deixe vê-lo sofrer, pois também sofro.

 De longe Paulo gritou:

— Pare de rezar para essa “COISA”.

A noite chegou e Dadá avisou que não visitaria seus parentes na folga daquele fim de semana para lhe fazer companhia.

— Quem disse que preciso de companhia? Vá e fique por lá para sempre!

— Mas Doutor!

— Já disse. Saia!

Dadá não sabia o que fazer e resolveu ficar, com medo que o médico cometesse alguma besteira. Deixou a comida pronta como fazia em suas folgas, mas ficaria quieta em seu quartinho, pelo menos estaria por perto.

Paulo foi dormir sem jantar, estava irritado e revoltado. Sentia seu corpo trêmulo, mas não se importava consigo. Trancou a porta com raiva e adormeceu.

Às três e quinze da manhã, Paulo acorda com um barulho.

— TOC, TOC, TOC!

Parecia alguém batendo na porta do quarto. Pensou em Dadá e ficou quieto, mas logo adormeceu.

Quatro e quinze da manhã! Paulo escutou o barulho novamente e agora mais perto dele. Sentou rápido, acendeu o abajur, olhou, mas não viu nada. Colocou a bengala sobre a cama caso precisasse de proteção. Fraco, tudo parecia confuso, mas uma coisa tinha certeza, a porta do quarto estava trancada, então deitou e dormiu novamente.

Cinco e quinze da manhã, Paulo saltou assustado. O barulho voltava e desta vez a batida era mais forte. Empunhou a bengala, olhando para todos os cantos na procura de alguém. O coração batia forte e o corpo estava suado.

— Quem está aí? Dadá?

Paulo não conseguia raciocinar. Ficou calado tentando ouvir mais alguma coisa. Vigilante, os minutos pareciam horas e de repente, algo brilhante lhe chamou a atenção para o criado mudo. Assustado, virou rápido, acendeu o abajur e dirigiu as mãos até o móvel.

— Um bilhete? Não estava aqui quando vim dormir.

Desconfiado, colocou os óculos, abriu o bilhete e começou a ler.

“A Paz esteja com você Paulo. Deus te ama muito e eu também. Você precisa de força para trilhar seu caminho com resignação. Só assim cumprirá a missão que lhe foi confiada.

A vida traz provas que nos resultam em amadurecimento, mas jamais podemos sucumbir.

A fé nos mobiliza para tudo o que queremos ser e ter. Acredite, Deus está sempre ao seu lado, principalmente nos momentos mais difíceis. Reaja, pois tua jornada ainda não terminou.

Na próxima noite de lua nova, colocarei em seu cofre, uma rosa negra, com orvalho. Esta será minha prova para que lute pela vida e pelo seu destino.

Fique em paz. ”

Lágrimas caiam pelo rosto enquanto Paulo pensava em quem teria escrito aquilo. Confuso, dividia-se entre a emoção e a incredulidade.

Levantou, destrancou a porta e saiu do quarto. Bilhete no bolso, pensamento em movimento, coração a pulsar forte. Assim foi seu dia a dia até a chegada da Lua Nova.

Janela aberta, olhos voltados para o céu e lá estava ela. Linda, brilhante e sedutora. Olhava-a sem piscar, enquanto andava pela sala.

Intrigado sabia que não conseguiria dormir e sua ansiedade resolveu acabar com a brincadeira, afinal, uma rosa negra e com orvalho! Era pura gozação.

Lá foi ele para o cofre. Girou, ajustou o segredo nos números, colocou a chave, respirou fundo e destravou a porta. Com medo, abriu-a lentamente e quando fixou o olhar na prateleira, perdeu o controle, caindo de joelhos ao chão, gritando alto:

— DEUS! DEUS! O que você quer de mim?

Paulo não se conformava. Ao fundo do cofre, lá estava ela, linda, brilhante e sedutora. A rosa negra. Amarrado ao caule havia um pequeno cartão.

“Sinta-se beijado na testa, nariz e lábios. NOITE BOA! ”

Paulo chorou como criança, abraçando delicadamente a rosa negra deitado ao chão. Sem que percebesse, lá estava ela, a fiel Dadá, que saiu do esconderijo em desespero, quando ouviu os gritos do patrão.

Logo ao percebê-la, sorriu e ordenou.

— Dadá, amanhã bem cedo, limpe meu consultório, arrume minha maleta e prepare meu jaleco que tenho pacientes para atender. Ah! E quando terminar volte para casa e prepare uma deliciosa feijoada!

Nãna Damino