02/10/2015 Número de leitores: 347

Gelina, a maritaca infeliz!

Nãna Damino Ver Perfil

Gelina era uma maritaca gorda, de penas verdes desbotadas, bico ligeiramente torto para a direita, olhos vesgos e patas tortas.

Morava no galho de uma árvore velha e seca, com pouquíssimas folhas para proteger do frio e da chuva. Não tinha amigos, parentes e outros bichos para conversar. Ninguém gostava do seu jeito e todos procuravam manter distância.

Gelina fazia tudo o que tinha vontade e divertia-se muito quando percebia que atrapalhava a vida dos outros animais.

Todos os dias, o dono da casa onde ficava a árvore em que morava, colocava em um pedestal, alpiste, girassol, água e quirela para todos os pássaros que moravam e que voavam por ali.

Gelina acordava cedo esperando o abastecimento do pedestal. Rapidamente ia até lá, comia tudo o que queria, depois batia suas asas nas vasilhas para derrubar o que sobrou. Não queria deixar nada para os outros animais, queria tudo só para ela.

Vez ou outra pousava sob a casa do João de Barro e lá fazia suas fezes. Divertia-se muito ao ver a cara de nojo de dona Maria de Barro.

Muitas coisas ela aprontava. Arrancava as comidas carregadas pelas formigas, derrubava os ovos dos ninhos dos pássaros, berrava forte e alto para que o dono da casa não pudesse ouvir seu rádio, bicava as flores e os frutos que estavam amadurecendo no pé, e ria, ria muito de tudo isso.

Um dia caiu uma forte chuva e Gelina não conseguia abrigo, pois a árvore em que morava estava cada vez mais velha e seca. Não conseguia suportar o vento e o frio e pensou em procurar outro abrigo para poder se proteger.

Pensou em pedir ao Sr. João de Barro, mas certamente ele não ajudaria, pois frequentemente sujava sua casa. Teve a idéia de pedir aconchego à dona sabiá, mas há poucos dias havia derrubado seus ovos do ninho e dona sabiá não parava de chorar de tanta tristeza.

Decidiu então abrigar-se na varanda da casa, mas logo que chegou lá o dono a espantou furioso.

– Sai pra lá, sua maritaca barulhenta!!!!!

Toda molhada e com tremedeira, pensou que seria seu fim. Quando estava voltando para seu velho galho, a rainha do formigueiro a chamou.

– Venha Gelina, fique aqui conosco. Temos água, comida e uma terra quente para te aquecer.

Gelina não acreditou. Depois de tudo o que fez às formigas, elas ainda ofereciam abrigo.

Gelina não tinha muito o que escolher. Entrou no formigueiro, meio desconfiada, comeu, bebeu e se aqueceu.

No dia seguinte, ao acordar, o sol brilhava no céu e a chuva já havia acabado.

Quando ia sair do formigueiro, uma pequena formiguinha lhe disse:

- Tchau Gelina, espero que seja feliz!

Olhando-a nos olhos, Gelina pensou em tudo o que havia feito na vida e naquilo em que sua vida se transformou. Era só, não tinha amigos e nem felicidade.

De cabeça baixa, ombros caídos, se despediu da pequena formiga dizendo:

- Adeus pequenina, tenha certeza que a partir de hoje serei feliz!

A formiguinha não respondeu, mas fez uma cara de quem não acreditou nada no que Gelina disse.

Após a despedida Gelina voltou para seu galho. Durante todo o dia não comeu, não bebeu nem fez nada daquilo que estava acostumada a fazer. Ficou todo tempo no galho, pensando no que lhe aconteceu na noite anterior e no que a formiguinha havia dito.

No dia seguinte, Gelina acordou cedo, como sempre fazia. Viu que o dono da casa já havia abastecido o pedestal. Voou até onde os outros pássaros dormiam, chamando todos e convidando para o banquete matinal. Com seu bico torto, pegou delicadamente algumas comidas e levou até o formigueiro, agradecendo a acolhida.

Para a dona sabiá, sabia que nada poderia fazer para aliviar sua tristeza, então, colheu uma bela flor e deixou sobre o ninho como gesto de desculpas.

Daquele dia em diante, Gelina nunca mais incomodou o dono da casa, que passou a gostar tanto da maritaca que lhe fez uma bela casa de madeira em sua varanda.

Um dia, voou sobre uma poça d’água e quando pousou para um banho, percebeu o quanto havia mudado. Toda sua feiúra havia desaparecido, suas penas estavam verdes e brilhantes, seu bico já não parecia tão torto, seu corpo estava belo e esguio, suas patas fortalecidas e seus olhos vesgos estavam sendo corrigidos graças aos óculos que ganhou do senhor João de Barro.

Olhou mais ao fundo de sua imagem na poça d’água e viu seus novos amigos sorrindo para ela.

Gelina aprendeu a lição: egoísmo e maldade não são parceiros da felicidade!

Nãna Damino