09/10/2015 Número de leitores: 1687

O domesticador de silêncios

A. Zarfeg Ver Perfil

Uns preferem escutar o silêncio, outros quebrá-lo. Poucos – como Ricardo Flaitt – se candidatam a domesticador de silêncios.

 

Ricardo converte silêncios desde o tempo em que “caramujo não jazia pra música” e “a vida se tocava por aboios de cigarras”. Aliás, o poeta também se apresenta como “convertidor” de silêncios, tendo convertido recentemente dois “em ária”.

 

Para nossa alegria, contudo, Ricardo Flaitt é mais que domesticador e convertidor de silêncios. Ele é poeta no sentido mais solene da palavra, pois traz consigo as mãos cheias de calos e a boca repleta de canções. De sorte que, a um só tempo, experimenta linguagens e aponta caminhos.

 

Porque o poeta – o bom poeta, meninos e meninas – é senhor do seu tempo e espaço. Seu tempo é politizado e sua morada, a linguagem.

 

E Ricardo Flaitt poetiza e vaticina como ninguém. Ele brinca com as palavras experimental, lúdica e inventivamente, como poucos da nossa tradição poética – João Cabral e Manoel de Barros, por exemplo – ousaram fazer.

 

Ao ler O Domesticador de Silêncios – que recebi autografado via postal, pelo que sou muito grato a RF –, fui levado a evocar também a prosa mineira e universal de Guimarães Rosa. Porque os bons – os muito bons – são universais. Encantando sertões ou domesticando silêncios.

 

Desconfio que, para se tornar domesticador ou convertidor de silêncios, Ricardo tenha feito um intensivão de sindicalismo de humanidades. Anos a fio falando/escutando as massas. Séculos auscultando camaradagens.

 

Deu no que deu: um exímio domesticador de silêncios, um poeta sensível aos ecos da linguagem e antenado com os ais dos seus semelhantes.

 

Enfim, Ricardo Flaitt é um artista completo capaz de maravilhas como esta:

 

“Eu imitava os olhos de Duchamp

Fazendo rodas de bicicletas sobre bancos nos pensamentos

 

Meus olhos armavam alçapões pras coisas

E deixavam dicionários pra arvoramentos de sementes.

Eu forjava punhados de terra com engrenagens

E roubava o céu das palavras de Lorca

Pra dar noção de espaço e tempo às moscas e trenas.

E moscas e trenas trocaram centímetros e distâncias

Por infinitâncias no céu dendemim.”

 

 

A. Zarfeg