12/10/2015 Número de leitores: 624

Olhos abertos no escuro

Eduardo Sabino Ver Perfil

O romance “A luz difícil”, de Tomás González (Bertrand Brasil, 2013), desenvolve-se ao redor de um único e doloroso conflito. O narrador apresenta a questão que preencherá o livro logo na primeira página, de modo econômico e impactante: 

Dormi quase quatro horas seguidas, sem sonhar, até que às sete me despertou a fisgada de angústia no ventre pela morte do meu filho Jacobo, que havíamos programado para as sete da noite (...)

Toda a tensão do livro vem do assombro de uma morte programada. Um fim ainda não consumado, mas planejado em detalhes, e em família.

David é um pintor colombiano de carreira internacional consolidada. Mora com os três filhos e a esposa em Nova Iorque. Um deles, Jacobo, sofreu um acidente de carro que o deixou paraplégico. Apesar de ter feito todos os tratamentos possíveis, jamais conseguiu se livrar das dores no corpo. O livro tem início no momento em que Jacobo, em companhia de um irmão, está a caminho de uma cidade próxima onde, juridicamente, a eutanásia é permitida. A narrativa explora essa suspensão no tempo, o intervalo entre o momento em que o filho decide se matar até o cumprimento ou a desistência do ato. A dúvida em relação ao desfecho gera interesse na leitura, mas está longe de invocar o suspense das narrativas investigativas. No romance de González, o foco está mais na trajetória, no prolongamento de uma experiência.

Desde o início, acompanhamos as variações físicas, artísticas e psicológicas de David durante a difícil espera. A instabilidade de sentimentos bate e volta por dois polos: um racional, em que a decisão de Jacobo é vista como a coisa certa a ser feita, a alternativa possível para apaziguá-lo; e outro sentimental, afetivo, em que David sonha com a desistência do filho a fim de evitar as próprias dores.

No centro de tudo está a morte. Ela domina o olhar de David, inclusive fisicamente. O pintor sofre de uma doença nos olhos que, gradualmente, o levará a um estado de semicegueira. Embora o tempo verbal escolhido seja sempre o passado, há dois períodos distintos: o tempo da longa espera da família pelo ato de Jacobo e os detalhes vividos por David na noite fatídica, e um tempo mais próximo do presente, em que o pintor, quase cego, vive sozinho em companhia da governanta.

A doença de David permite uma rima de sentido com o conflito principal. O filho a caminho da morte se assemelha às imagens aquosas e disformes vistas pelo pintor. Uma interpretação possível: diante da morte, as pessoas não são mais, aos olhos dos vivos, objetos perfeitamente nítidos. Pelo contrário, vão perdendo as formas: viram corpos aquosos,  manchas, vultos e, por fim, escuridão. 

O trabalho artístico do pintor aparece em cena como ferramenta de combate a essa perda iminente. O que ele tenta reter pela pintura é a luz de um momento tenebroso, uma luz quase aniquilada pela escuridão da morte.

A espuma havia ficado boa desde o princípio, eu não tinha voltado a tocá-la, mas o contraste com a água tinha aumentado e a fazia reluzir agora com mais intensidade. Sempre trabalhei minhas coisas com afinco, com certa veemência (apesar disso, não faltou o crítico para chamar minhas obras de frias), mas essa do ferry eu estava fazendo como se a vida de todos nós dependesse dela. Era uma luta contra o aniquilamento, na qual, para vencer o caos, era preciso plasmá-lo como que agarrando um diabo pela garganta e esmagando-o contra o tapume.  

A narrativa em primeira pessoa dá a todas as coisas a coloração do estado de espírito do narrador: uma verdadeira casa em chamas, a identidade a um passo de se dissolver.  Já com seus olhos debilitados, David encontra a representação perfeita desse instante no som de uma rara chuva de granizo:

Aqui em La Mesa o céu acaba de desabar. Caiu uma granizada enorme, e, como nossa casa é antiga, mas na parte de trás tem teto de zinco, o estrondo é magnífico (...) É a primeira vez que me acontece, em dezesseis anos. É o próprio estrondo da luz. Difícil viver algo mais bonito. É a destruição do eu, a dissolução do indivíduo. O ar cheira à água e a poeira, e a gente não é ninguém. Não se escuta nem para escrever. 

A luz de Tomás González está nessas junções de cenário e estado interior, nas reflexões de David sobre a dor e a morte, numa linguagem clara, concisa, com uma leveza que não perde de vista a densidade do tema. Uma leitura que, no final das contas, ilumina bastante.

Eduardo Sabino