15/10/2015 Número de leitores: 1630

Vivendo e aprendendo

A. Zarfeg Ver Perfil

Educação inevitável, inevitável educação. Assim, de frente pra trás ou de trás pra frente, como convém às coisas boas da vida.

 

Se o camarada não vai atrás dela, pois ela vem no rastro do cabra. Não tem escapatória. Sabe aquela história segundo a qual, se Maomé não vai à montanha, a montanha vai a Maomé? Com a educação é tal e qual.

 

O peão no eito, no lombo do burro brabo, tirando leite de onça pintada, fugindo das abelhas ou fazendo cara de quem comeu e não gostou? Acabou de se matricular na escola da vida...

 

Qual escola da vida, qual nada. Nós sonhávamos mesmo era com a outra escola, a citadina, situada na praça da Igreja em Bertim de Açúcar. Da qual, antecipadamente, estimávamos os colegas, a professora Lindaura e o diretor João Pessoa com sua palmatória inseparável! Nos acomodar nos bancos duros seria a experiência mais confortante do mundo! Um colo de mãe!

 

Essa expectativa dava àquele primeiro dia letivo um sabor especial. Aliás, o almoço tinha sido antecipado em uma hora de relógio (recém-adquirido a preço de ouro), para evitar atraso no compromisso escolar. Antes bastava sintonizar o rádio ou dar uma espiada no sol. Sinal dos novos tempos: nossa mãe agora não tirava os olhos do relógio de parede...

 

Ainda recomendou atenção, respeito e, em primeiro lugar, a proteção divina.

 

E rumamos pra cidade que distava não menos que três quilômetros de nossa casa. Aprendizes do beabá, tínhamos uma bela caminhada pela frente. Nos unimos à primeira leva de meninos e, em seguida, mais calouros se juntariam a nós. Éramos uma vintena de estudantes.

 

A cavalo, João Vaqueiro se encarregara de nos proteger de eventuais ameaças na estrada, como vaca parida, cachorro doido ou o monstro do analfabetismo, que seguro morreu de velho e estudar era a melhor coisa da vida!

 

Eu vou ali, eu volto já, vou tirar maracujá!

 

Qual fruta, somente a aridez da estrada de chão a sumir de vista! Já nas proximidades do comércio, pegamos um atalho que representava um lucro duns duzentos metros. A vereda nos conduziu por uma várzea belíssima cuja uniformidade era quebrada por uns limoeiros convidativos. Não resistimos aos galegos, que chupávamos como se fossem tanjas.

 

Faltou uma pitada de sal!

 

Que cara é essa, rapaz?

 

Fui ali e voltei mais cedo, o limão estava azedo!

 

Aquele momento de descontração foi quebrado por Vaqueiro que, com um agudo, exigiu o reinício da jornada. O mestre na arte de aboiar gado seguia concentrado, passo a passo, como uma sílaba tônica.

 

Lá! apontou a cidadezinha pra nós.

 

Chegamos, capetada!

 

Não vejo a hora de arrumar uma namorada!

 

Guardei um bitelo pro recreio.

 

Qual seria a opinião do aboiador sobre educação, processo ensino-aprendizagem, livros e outros temas chatos da civilização ocidental? Impossível saber. Mas, logo logo, aprenderíamos que estudar é que nem chupar limão. Deixa a gente de cara amarrada, mas faz um bem danado. 

 

 

A. Zarfeg