16/10/2015 Número de leitores: 321

Recados para a Segunda Inquilina

Lisa Alves Ver Perfil

“Tudo que se pode ver não sou eu” – O Eu Dividido - R.D. Laing

 

Meu coração é derivado da gênese milenar de um buraco negro. Depois da primeira explosão surge a matéria escura e permaneço palpável entre quarks e fragmentos de cristais. Até depois do fim da última substância química sou misturada com a eliminação e torno-me a anti da antimatéria.

 

Não decifro o mundo como se ele fosse uma questão exposta em um jogo de desafios. Tudo o que assimilo são impressões  registros de um grão de areia no Saara, a areia de sua boca cursando minha língua, o sal do seu corpo invadindo os meus poros. 

 

Amanhã abafo a razão e faço tudo ao contrário – até o meu Sim vestirá trajes de Nãos e você compreenderá que a guerra nunca esteve lá fora, a guerra comia e bebia ao seu lado, a guerra comia suas partes íntimas e depois acendia um K2 para aliviar sua retaguarda. 

 

Hoje fumo e amanhã invento campanhas contra o tabaco. Incoerência? Pensa isso por não notar a matiz escura nos pulmões, por não tratar o enfisema e nunca ter purificado os lenços sujos de sangue. Eu vi pessoas morrerem depois de uma vida de amor e o medo era o mesmo dos desgraçados. Todos nós morreremos sozinhos – a entrada e a saída são sempre solitárias, só o caminho é uma questão de escolha (Será?). 

 

Ontem você lia Brecht e hoje não consegue separar o ansiolítico da anfetamina. E eu odeio tudo o que nasce de você, tudo o que brota da sua mente, todas as suas velhas manias. Contudo não consigo me livrar de sua figura, de suas novas rugas e dos fios brancos apresentados todos os dias no espelho. 

 

O que faremos depois desse Nada? Vou resumir nossa biografia em um cartão postal personalizado: nossa foto com cinco anos de idade depois do resgate. Sei que depois daquele acidente nos tornamos ambiexistentes – capazes de transitar entre o Céu e o Inferno, entre o Tudo e o Nada. 

 

Carrego você aqui dentro, em todas as pequenas coincidências, no cisco de minha unha e não sei se lanço para fora ou mastigo a sua existência para que mais uma vez duas coisas se tornem outra coisa ou simplesmente sejam eliminadas no período de fusão. 

 

 

Obs. Quando despertar não esqueça o saco de pães aberto e deposite água para os gatos, da última vez que você permaneceu topei com a casa toda aberta e o gato mais novo doente e desidratado. Posso até partilhar o meu corpo com você, mas tenha a dignidade de zelar da casa na minha ausência.

 

 

 
Lisa Alves