16/10/2015 Número de leitores: 732

Poemas e Canções (2012)

Vivian de Moraes Ver Perfil

 Vivian de Moraes

 

Poemas e Canções

 

1ª edição

Rio de Janeiro

Edição da autora

2012

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Ficha Catalográfica

(Preparada pela bibliotecária Célia Regina Longobardo)

 

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Bragagnolo, Vivian Aurora de Moraes. Poemas e canções/ Vivian de Moraes.

Rio de Janeiro: Singular Gráfica e EditoraLtda., 2012.

ISBN978-85-912742-0-8

 

  1. Poesiabrasileira.I.Título.

 CDD869.915

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Capa:" ÀDeriva", óleo sobre tela de ÉrikaFinatti.

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 Ao meu pai, Oscar, pelo incentivo incansável

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Agradecimentos

 

A Érika Finati pela capa

A Mazzon Gil pela diagramação

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Prefácio

“Poemas e Canções”é a reunião de muitos dos poemas que publiquei em meu blog“Vivatchka”, entre 2008 e 2010.

Lançado conjuntamente com“Sonetos Sombrios”, tais poemas demonstram que, naqueles anos em que tive pesadelos e ideações sinistras, também tive meus vislumbres de alegria e motivação.

Naturalmente, o leitor encontrará aqui também poemas desesperados,como“Cinco Pesadelos por Noite”, mas estes serão exceções.

Com a publicação conjunta de “Sonetos Sombrios” e “Poemas e Canções” fecho um ciclo, após o qual houve um interregno de suspensão de publicações, somente retomadas neste ano (2012) no blog “Vivian de Moraes”.

 

 

Feliz Ano Novo

Sinto-me eufórica esta noite

Não vou dormir

Vou escrever até o amanhecer

E quando raiar o dia

Vou andar de bicicleta

Colherflores num terreno baldio

Colocar na minha cestinha

E tirar umas fotos do meu novo cabelo

Também vou me lembrar dos meus amigos

Com excitação inigualável

Pensando o quanto estou próxima deles

Mesmo que estejam do outro lado do mundo

Amanhã cedo vou ligar a internet

Vou mandar presentes virtuais para quem amo

Vou deixar beijos de saudade e tentar explicar para meus amigos americanos

O que é ter saudade

Vou também ver o riso de uma criança

E as lágrimas de uma mãe que não ama seu filho

E vou dar a ela uma nova esperança desejando-lhe um bom dia

Vou fazer ginástica, vou estudar francês

Vou desenhar gatos espreguiçando-se

E vou manter um riso meio nervoso, mas divertido

Tudo isso, e mais um pouco, vou fazer como treino

Para o ano que está chegando

O ano que eu quero para mim e desejo para você

 

Minha linda bicicleta azul

Minha bicicleta tem cestinha

Minha bicicleta é azul

Todos morrem deinveja

Pois comela vou para o sul

 

Pois com ela vou para o norte

Carregando lindas rosas

Minha bicicleta tem meu jeito

Um jeitinho todo prosa

 

Sou criança na minha bicicleta

Nela eu mesma fico azul

Como um deus indiano

De jeito tão incomum

 

Nela carrego meus sonhos

Nela tenho meus desejos

Quando pedalo, a nada me oponho

Sigo nela todo ensejo

 

Traço nela tantos caminhos

Que perco os dentinhos da frente

Como uma menina de cinco anos

Apenas um pingode gente

 

Cor

Gostaria que o mundo fosse dourado

A carroça do carroceiro, dourada

Seu cavalo, dourado

Seus sapatos gastos, dourados

A forragem da sua cavalgadura, dourada

O seu pão meio duro, dourado

A sua mulher, toda dourada

Com cabelos dourados

Com unhas douradas

E dentes dourados

Gostaria de ver meninos muitos todos dourados

Gente preta, dourada

Japoneses, dourados

Italianos, dourados

Loiros que não fossem só loiros, mas dourados

Como gotas de chuva douradas

E como o sol,que já é dourado

 

Ainda assim

Hoje a noite está calma

Não tenho nada a dizer

Porque não sinto medo

Terror

Ou vontade.

 

Hoje a noite está cheia

De luz, de estrelas,

Mas em mim

Nada parece ser.

 

Cinco pesadelos por noite

Imaginação tonta

Morte pronta

Parecem reais

Quedas letais

Crimes meus, alheios,

Lugares feios,

Culpas, dores,

Horrores

Ameaças, palavrões

Prisões

Carne podre, ossadas

Rezas apressadas

 

O homem do amor valente

Eu amo um homem valente

De coração despojado

Que corajoso e galante

Com doçura foi moldado

 

Eu amo um homem ardente

Que tem o coração dourado

Que me quer tão de repente

Quando o vejo apaixonado

 

Eu amo um homem presente

E dele me ponho ao lado

E é quando ele se sente

Perfeito, por mim amado

 

Soneto do amor maduro

Acredito em seu amor, meu querido

Sei de sua atenção, de seu cuidado

Desde que juntos, jamais quis ter ido

Onde não fosse você e você ficado

 

O seu olhar me lembra o adolescente

Que me seduziu, já com mais de trinta

Os olhos brilhavam como se a gente

Vivesse o paraíso onde se sinta

 

Jovem sempre nesse enlace e amor

E o amor permaneça, que a arte total da entrega

Sensualidade, carinho, fé cega

 

E como um dia em tranças lhe dei flor

Espero de você, e assim preciso

Da paixão primitiva, um novo riso

 

Leito

Voluptuoso amor, que me enlouquece

Nos beijos desejosos, nas mãos ávidas

Um bom amante meu leito enriquece

Sou toda para ele carnes cálidas

 

Se me beija, se me toca e me liga

Os poros da pele a saliva e os dedos

Desesperado, seu amor me intriga

Não paro, desfruto e não tenho medos

 

Muito antes da profusão de fluidos

As pupilas se abrem para o amante,

Se no ritual o silêncio é antes,

 

Já alcançam a noite nossos gemidos

Para que juntas nossas peles cantem

Que hoje o dia é mais insano que ontem

 

Meu soneto de separação

Vai doer ver você comsua mala

E sair para não voltar mais

Vou sentir uma sensação anômala

De que sou uma estranha, ademais

 

Que fim levou nossa grande paixão

Que agora já não resiste à manhã

Com um humor de raiva e compaixão

E que não vai durar até amanhã

 

Foi sua a opção de me deixar

Embora o pedido fosse meu

Sei que nunca mais você vai voltar

 

Mas não aguentei tanto desamor

De quem nunca me reconheceu

Não olhe para trás,façaesse favor

 

Velório na parede

No quadro, o gato rima com o urubu

Minha gata preta está morrendo

Como uma amizade envenenada

Deus me perdoe

Não posso evitar a morte dos entes queridos e das relações estonteadas

E agora preciso dormir, mas velo

Corpos inertes prestes a fenecer

Nada como o esquecimento

Mas o quadro não sai da parede

Eu tenho sede de vida

Mas o quadro está morto

 

Carnaval

Hoje é o dia da rara felicidade

Ouço um samba alegre e displicente

E meu coração se acelera com a chegada do carnaval

Nada de drogas, puro samba me acelera

Me embriaga

Nada pode me fazer mal nesta época do ano

Eu tenho dedos para dedilhar um violão

E canto um samba de enredo e outro

Mas quando o carnaval chegar

Meus olhos vão se encher da perspectiva da melancólica

Quarta-feira decinzas

Cínica como todas as quartas-feiras do ano

Com suas cinzas de falsa humildade e restos de confete e lança-perfume

 

Recado de despedida

Estou tão triste por nós duas

Ando perdida pelas ruas

Porquenão gosto mais de você

Eu a amava tanto,  e agora tão distante

Estou de a eleger como minha melhor companhia

Que quero chorar um luto por nós, mas não antes

Que você pinte no meu corpo todas as suas alegrias

E suas mágoas, e suas fantasias

Adeus, amiga, não nos ampararemos mais

Por nós duas já fiz tudo de que era capaz

Adeus, repito, não me procure

Não faça mais nada que nos torture

 

Angústia

Preciso abrir bem os olhos

Para toda a beleza deste mundo

Mas basta mantê-los fechados

Para ver as coisas feias e as injustiças dos homens

Com os olhos abertos

Não posso dormir e descansar

Tenho que dormir com olhos fechados

E por isso ser atormentada pelos pesadelos

Quero manter os olhos abertos

Para toda a beleza deste mundo

Mas nãoconsigo

 

Prisioneiro

Quero cumprir minha pena na Sibéria

Lá faz frio e é escuro como eu gosto

Quando chegar lá na penitenciária deles

O rei dos prisioneiros vai me dispensar dos trabalhos forçados

Para ouvir minhas histórias,

Histórias de brasileiro

Eu vou contar para ele sobre a criminalidade no Brasil

Voufalar sobre os traficantes e os políticos

Ele vai rir, achar muita graça

Porque os traficantes comandam suas quadrilhas nas prisões

E os políticos nunca sãopresos

Ele vai perguntaro que foi que eu fiz

E eu vou dizer

„Roubei um copo de cachaça‟

 

Individualismo

Um dia achei  que mudaria o mundo recrutando ou sendo recrutada

Mas o homem é sozinho

Até recrutar um indivíduo para o sexo constitui às vezes uma série de complicados rituais

Que muitas vezes não dão certo

Em tempos de globalização, qualquer tipo de coletivismo é ridículo

Acho que a gente nem devia se reunir para beber pinga no bar ou dançar

Vá cada qual para sua casa poluir de álcool cada um o seu próprio ambiente e rebolar sozinho

Quanto ao sexo a solução é masturbar-se

Vivamos sozinhos, em apartamentos apertados

Émuito chique ter seu próprio espaço

Não tenhamos filhos nem cônjuges nem cachorros

Muito menos correligionários

Não há nada a melhorar a dois ou a três ou a quatro ou a cem quando estar sozinho é a melhorpedida

“Não suportaria o coletivismo e a grandeza da China”, disse uma amiga

Que fez as malas, me abraçou e depois deme visitar voltou para o seuquarto-e-sala em São Paulo

 

Dançar mais ou menos

Às vezes sou suave ao toque como espuma de banho

E levemente olorosa como uma pétala

Por que ninguém acha graça em mim?

Talvez eu devesse vestir-me ou dançar mais de acordo com a moda

Ou cantar em inglês com muito estilo

Tertatuagens e piercings

Ou sermais séria, ter uma pasta sob o braço e uma obra sociológica sob o travesseiro

Sou desajeitada e pareço nunca ser boa demais para os outros

Embora saiba fazer rir e também petrificar de dor

Mas eu sou o máximo para mim

Gosto do que sou e do que tenho

Da motoca velha, da gata vira-lata

Dos parcos conhecimentos

E principalmente por dançar mais ou menos, conhecer inglês mais oumenos

E saber fazer rir ou petrificar de dor

 

Cotidiano

Viajo em sapatilhas de ponta voando nas costas de um filhote de gato alado

Sou pequena como uma fada e desprotegida como uma adolescente apaixonada

Mas quando tive meu primeiro amor já tinha largado o balé

E meu gato havia morrido

A vidaé assim, as pessoas querem voar, dançar, apaixonar-se e eventualmente salvar o mundo

E conseguem manter a mesa de trabalho em ordem e a pia limpa

Com a consciência em constante vertigem, como se não houvesse ninguém ali

 

Vergonha

Eu amei tanto que passei vexame

Fiz você de palhaço quando gritei minha paixão

Você ficou envergonhado, e eu, louca de tesão

Nem me lembro, agora

Nem sei, fazendo um exame

Por que fui embora

E te deixei na contramão

 

Euforia

Hoje estou emêxtase

Queria repartir minha alegria

Queria que meus amigos soubessem que estou passando outra noite emclaro

Num surto desenfreado de euforia

Que gostaria de beber a noite inteira numa festa

E caminhar pela manhã num campo de trigo a milhares de quilômetros

Gostaria que eles notassem meus olhos pintados

E minha roupa extravagante

Uma sensualidade quase vulgar

Um jeito qualquer de falar rápido e sem pensar

Uma extroversão sem explicação aparente

Tudo isso, é claro, diante de sua grande admiração

Queria jogar sinuca e beber coca-cola

Falar de sonhos – porque ainda os tenho, embora já os esqueça quase todos os dias

Adoraria quebrar taças cheias de vinho

E gritar: -“Viva a amizade”–num acesso compulsivo de dança e riso

 

Tenho

Tenho trinta e cinco anos

Mas com jeito de dezoito

Tenho uns modos muito insanos

Tenho um jeito muito afoito

 

Tenho também esperança

Em dias de mais ventura

Quem espera não se cansa

E quem quer se aventura

 

Sou mais rica que os demais

Porque tenho meus amigos

Pouco já me satisfaz

Tudo já tenho comigo

 

Canção

Hoje fiz uma canção

Para lembrar meu amor

Pus nela meu coração

A aqueci com meu calor

 

Hoje fiz uma canção

Que é alegre e tem estilo

Para pegar sua mão

E ouvi-la como a um grilo

 

Hoje fiz uma canção

Que fala da noite bela

Compus com muita emoção

Uma rima bem singela

 

Hoje fiz uma canção

Que vai agradarvocê

Fiz pensando num cartão

Que você vai receber

 

Hoje fiz uma canção

Que é bonita de doer

É a minha doação

É o meu não me esconder

 

Hoje fiz uma canção

Para dizer que o amo

Para não ter decepção

Porque é você que eu chamo

 

Acordar

Anoite está calada

Mas em algum lugar tem um casal fazendo sexo

E um assalto sendo cometido

Não somos mais comedidos

Já não há nada com nexo

A noite está quieta

Mas lá fora há barulho, um barulho que não ouço

Eu me encolho na cama, com medo

Mantenho a minha dieta de emoções fortes

Preciso acordar cedo

 

Cegueira

Hoje o dia raiou lindo

Mas acordei ao meio-dia

Hoje é noite de lua cheia

E eu não vi pela janela

Ultimamente tenho sido meia

Não tenhosido mais ela

 

Elegância

Algumas coisas nunca saem de moda

Como bajular o chefe

E fazer falsas promessas na cama

Até o suicídio é moda

Mas estou preferindo as tendências da vida alegre e sincera

Dizer“bom dia” ao motorista

Ser amável com meus filhos

E cultivar a inteligência

 

Véu

Quero me enrolar num véu

Onde qualquer um que me veja possa ler apenas meus contornos

Sendo assim muito sensual e misteriosa

E sobretudo escondendo minhas fraquezas

Quero deixar esse véu cair

Quando cair atarde

E o escuro não permita que ninguém me veja

Mas você, ah, você

Sempre me enxerga

 

Tentação

Às vezes ando por uma calçada obstruída por uma velha de muletas

Tenho a tentação de chutá-las

E de rir vendo a sua humilhação

Mas vivo a raiva surda de vê-la ocupar a calçada espaçosa e lentamente

Me jogo na frente dos carros para ultrapassá-la

Não sou boa pessoa

Chutaria o cão-guia de um cego se pudesse

Só para vero cego chorar

Chora um homem cego?

Gosto de sers arcástica com pessoas burras

Especialmente as que se consideram muito dotadas

Como eu mesma

E adoro humilhar estagiários

Não gosto das boas maneiras

Nem da cortesia

Não gosto de viver bem com ninguém

Soualguéma quemse denomina um filho-da-puta

 

Flerte

Passo batom para beijar o copo de vodka

Escovo meus dentes para que sua brancura seduza os comprimidos que ingiro

Passo gilete nas virilhas para torná-las mais atrativas com suas cicatrizes

Dirijo com os cabelos soltos para que cubram meus olhos

E eu não veja a direção e sinta a velocidade da luz

Aspiro o perfume vertiginoso da cocaína

Flerto enfim com a elegância maltratada da morte

Cuja simples ideia me seduz e consola num frêmito mórbido

 

Neofarisaísmo

A caganeira e as pústulas matam 20 milhões de africanos aidéticos

Que jazem em sepulcros caiados

Por falta de uma borracha no pênis

E porque, sendo sábado,

Não é lícito que sejam salvos

 

A mulher da imaginação que sou

 

Meu sangue secou

Agora sou feita de água

Água de colônia nas veias

Pele de veludo superbranca e lisa como a de um bebê

Cabelos cor-de-laranja longos até o chão

Véu dourado em volta dos olhos

Roupas de época, de qualquer época

Lingerie sensual contornando minhas formas

Caminho em volta dos mortais com hálito de alecrim e hortelã recém-colhidos

Tenho todos os discos e filmes do mundo

Distribuo sorrisos perfeitos e sinceros

Tenho um amor tão grande que nem sei como repartir

Minhas unhas estão sempre impecáveis

E minhas mãos pintadas de henna

Pés tão pequenos e delicados como os de uma criança

Descalços e flutuando a dois centímetros do chão

Para dar passos inocentes na minha caminhada

De pegadas azul e verde cor do mar

 

Inventário

Tenho um gato que rola e faz outras gracinhas

Uma tevê de LCD onde vejonovelas sem-graça e filmes que fazem chorar

Tenho amigos que duram uma eternidade e outros que estou esquecendo

Tenho um computador pessoal para escrever poesia

Tenho um bloco de folhas para escrevercartas

Tenho os selos do apocalipse

Tenho uma filmadora para os momentos menos relevantes da minhavida

Aqueles que, afinal, acabam sendo dos mais importantes na velhice

Tenho também uma velhice precoce que ganhei com uma doença

Tenho uma doença

E tenho também uma cura dentro de mim feita de todas as coisas que tenho

Tenho um irmão que é ocara mais engraçado que conheço

Não tenho chefe no momento

O que quer dizer que também não tenho trabalho

Mas tenho um pouco de dinheiro

E um copo de coca-cola

E tenho uma coca-cola para beber na piscininha de lona que também tenho

Mas não tenho originalidade nos dias nublados

 

Originalidade

 Minha cidade é tão pequena

Que mal cabem as pessoas criativas

Fico me perguntando onde estão

Não me refiro aos artistas, aos amalucados

Aos adolescentes rebeldes

Mas às pessoas realmente originais

Pensando bem, acho que é o mundo todo que ficou pequeno

 

A louca alegria dos exaltados e deprimidos

É madrugada, não durmo

Pessoas como eu não necessitam sono

Ouço a mais badalada e drogada cantora no fone de ouvido

Para não acordar meu marido

Que está agora num sono morno

E vai me encontrar com leves olheiras pela manhã

A insônia é a falta da fome de sonhos

Porque os estou vivendo na vida real

Minhas coisas loucas, minhas culpas e exultações

Não sei onde ponho

Nesse mundo, que é legal

Todo o mundo gosta de viver

Até o deprimido em suacama

Quando está com a bexiga apertada mas semforça para se levantar

Todo o mundo ama

Todo o mundo quer comemorar

Quer dançar ou cometer suicídio

Mas se revelar aos seus à sua maneira

 

Água do prazer

Lançar-me à água

Nada mais sensual

Você sabe que eu estou te convidando

Mova-se comigo no líquido transparente

Deixe minhas pernas enlaçarem as suas

Deixe minha pélvis roçar as suas coxas

Seja o meu salva-vidas dentro e fora do mar

Carregue-me nos seus poderosos pensamentos

Até o chuveiro quente de depois e até a cama de repouso

 

Sol entre nuvens

 Meus sentidos estão abertos

O escancaro dos olhos o sorriso dos lábios

Por quê?

Poucas coisas sãotão belas

Que me façam apagar o cigarro

Que me façam parar para pensar

Que me façam esquecer meu café preto pela manhã

Que me façam ser mais viva ouvindo música alta como o topo deste morro.

Você está em tudo

Na minha alma vermelha nas coisas que admiro no deus do tempo nublado

Você está na minha frente

Intelecto atenção sensibilidade desejo tranquilidade

Para ser admirado.

Você escreve para mim as coisas mais ininteligíveis

Para eu me sentir feliz lembrando que não preciso sujar o dedo de tinta para ser cidadã

 

 

Sou alfabetizada, sei ler, sei amar

Para eu me sentir mulher

Melhor entre a angústiae a liberdade.

Letra de forma enigmática e displicente na madeira cheirosa que virou papel

Você dá um sentido especial às árvores ao azul celeste ao verde

E às manhãs e às noites

E às tardes

As madrugadas existem para você ser feliz

Mas você pode ser feliz o tempo todo, mesmo dormindo

E tendo pesadelos

Mesmo na dúvida e no cansaço

Vivendo o inconsciente, nas coisas escuras, no lodo e no mofo

O mundo existe por você, as coisas fora de lugar são a sua covardia

Mas toda a esperança que existe neste mundo é asua ousadia.

Eu sei

Quando estou feliz o mundo está rindo com você

E nos divertimos.

 

Voo

 Hoje voo evitando os fios de alta tensão

Mas colhendo as copas das árvores

Nem tão alto que o sol possa tostar minha brancura

Nem tão baixo que os prosaicos obstinados possam me ver

Os homens pouco olham para cima

Eu os vejo

Estãofelizes tomando sorvete em meio à crise econômica

Ou ao fim de seu casamento

Vejo o homem pobre revirando o lixo

Mas isso não me dói mais tanto

Porque sei que se ele olhar para mim, em pleno voo

Também desejará flutuar

Voo seguindo as vias automotivas e até respeito os faróis vermelhos

Rindo da impaciência dos motoristas apressados

Vejo meninos andarem de bicicleta

E sinto a chuva fina começar a molhar somente as minhas costas

Com os seios secos, mas de mamilos arrepiados

Pela emoção de estar acima das vicissitudes da vida no asfalto

 

Caderno

Leio meu nom eno computador

Em letra de forma, tal qual a sua

Manuscrita, meu nome ganha ardor

Desde que sua mão esteja nua

 

Não digite o meu nome, só escreva

Em paredes, cadernos Moleskine

Chão, paredes, cédulas, terra, seiva

Escreva com as mãos, não discrimine

 

Meu nome na sua caligrafia

Ele guarda um amor antigo e longe

Recorrente de uma montanha fria

 

Meu nome na sua mão são seus dedos

Tocando violão para surdos monges

Com Deus nas nuvens rindo dos meus medos

 

Verbal

Ora, meu bem, se você me ama

Deve me dizer!

Decerto sinto seu amor

Quando as catedrais góticas das suas mãos

Sustentam a volúpia sólida dos meus seios,

Quando seus olhos me vasculham e acariciam

E, quando, sobre mim, seu riso embala o meu desejo.

Mas porque quero o amor cristalizado

Quero-o dito.

E como fica lindo em seus lábios e dentes

O que insinua nos gestos de homem apaixonado!

 

Riso

Ah, seus dentes!

Quanta mordida

Na minha razão

 

Pincel

Sua voz na minha noite

Anota as coisas do mundo

Em notas de desejo forte

 

Mandíbula

Quando mastigo

Tenho ácido lático nas mandíbulas

Mas você!

Ah, por você, quando rio

Minha cara fica mole

Da sua chegada

 

Conquista

Você é um homem difícil

E seu mistério tece todo dia um novo fio de delícia, curiosidade ou confiança

Que se enrola no meu jeito

Se não me mexo é porque não preciso contorná-lo para

Tecer

Também as teias

Que seduzem suas fibras de herói

 

Alaranjar

Quero estarnos seus braços

Só isso

Desmaiar como mulher de cinema

Deixar você me proteger

Permitir que seus dedos desliguem

O indelicado interruptor das trevas do mundo

Ouvir você sussurrar:

“Minha florzinha de laranjeira”

Cheirando o silêncio

Da só nossa nova luz

 

A prata celestial da sua esbelta presença

Porque você me abraçou conduzindo minha respiração para o silêncio

E minha alegria tornou-se menos euforia e mais verdade,

Até o sol, hoje, deixou de irradiar sua ira dourada

E, prateado, sorriu entre nuvens de algodão compacto dos seus olhos

Onde vejo o verde que é viver na terra e a salvo

Das ilusões do azul do mar que já nem lembro

 

Amor virtual

 

Você teclando sozinho

E rindo

Como se fosse

Stevie Wonder ao piano

Só me roçando pelos dedos

Se divertindo

Fazendo pose

Para a sua placa-mãe

Mas com um puta medo

De não sair são

E ano a ano

Alimentando

Essa ridícula paixão

Você insiste

Em que eu ame

A quem não existe

 

Pesadelos

Quando tenho pesadelos

Salto súbito em pavor

Dessa corrente de elos

Desperto em grito de dor

Em bravatas, ameaças

Desperto de meus amigos

Tento afastar a desgraça

Nutro o ódio, se consigo

 

Outras vezes, como agora

Desperta, peço ao Senhor

Jesus naquela hora

Seja a alma o meu penhor

Peço piedade em conta

Deterço e ainda imploro

Seu perdão em grande monta

E para dormir bem, oro.

 

Impressionável

O pesadelo condenou-me ao medo

E à vigília

Fico acordada até que seja cedo

 

Soneto de uma filha

Seu dom é o apoio que me compraz

Chegada bela da aurora do inverno

O derradeiro filho agora faz

Ser pai por sua vez – amigo eterno

 

Maisnobre ascendência eu escolheria

Mesmo no seu modo que me inquieta

Por demais contido?Acaso eu teria

Melhor exemplo para ser correta?

 

Estranha amizade, de honesta e morna:

De pai para filha de pouco dizer

Porém preciosa em seu bem-querer

 

Minha timidez vencida contorna

Meu medo; a distância míngua, o amor arde

Amo meu pai antes de sua tarde

 

Vivian de Moraes