17/10/2015 Número de leitores: 759

"As sete cores do carneiro"

Vivian de Moraes Ver Perfil

Vivian de Moraes

 AS SETE CORES DO CARNEIRO

 

Copyright   2015 by Vivian de Moraes

 

Digitação e revisão

Vivian de Moraes

 

Capa

Enviada pela autora

 

Ficha Catalográfica elaborada por

Fátima Aparecida Zampiero Ramos

 

Bragagnolo, Vivian Aurora de Moraes

  

As Sete Cores do Carneiro, São Vicente, Costelas Felinas, 2015

ISBN 978-85-912742-3-9

 Conto brasileiro

 (CDD) 869.935

 (CUTTER) B813

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Impresso em papel reciclado (consciência ecológica)

 

Ed. Costelas Felinas

Encadernação e impressão

Cláudia Brino & Vieira Vivo

 Caixa Postal 156 – Centro –

São Vicente – SP – CEP 11.310-971

(13) 98139-1967

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Vivian de Moraes

 

AS SETE CORES DO CARNEIRO

 

 

 

 O duplo

 

Ele saiu para ir à padaria. Primeira à direita, primeira à esquerda. Bem perto. O problema é que, quando entrou à direita, viu um homem descendo a mesma rua que ele até então subia e se apressando. Em poucos minutos, o passo do estranho acompanhavam os seus, cada qual em uma calçada. O homem na calçada de cima, ele, na debaixo.

Sentiu vergonha. Saíra de casa com a camisa de mangas curtas aberta até o umbigo e de chinelos. A camisa era listrada. De soslaio, ele observava o homem. Ele também estava de chinelos e com uma camisa listrada desabotoada até o umbigo. Um alívio! Não era o único molambento a andar na quadra.

De repente, deu-se conta que aquele homem era bem mais velho que ele, quando passou sob um poste. Foi o tempo de ver a fisionomia do velho, encontrar algo familiar nele e a lâmpada se apagar sobre seus cabelos brancos.

Aquele homem devia ter uns setenta anos. Ele tinha apenas trinta, mas os problemas já começavam a aparecer. Pré-diabetes, colesterol alto, pressão não muito confiável. Como ele bebia e fumava à vontade e, além disso, ingerisse toda sorte de doces e gorduras, ele tinha a impressão de que não viveria muito.

Lembrou-se da sua barriga. Já era uma senhora barriga de cerveja, não havia dúvida. Olhou mais uma vez para o velho, de quem, por um momento, se esquecera. O velho também tinha uma barriga de cerveja. Lembrou-se do rosto que observou sob a luz da lâmpada de vapor de sódio. Era alguém familiar, a quem certamente deveria se dirigir, mas, ai! Abordar um estranho ou semi-conhecido de algum lugar sem saber-lhe o nome era muito constrangedor.

Mais constrangedor foi perceber que o velho secundava todos os seus gestos. Passara a mão pelo cabelo, o velho também. Dera uma cuspida no chão e o velho fez o mesmo, de lá do seu lado. Tudo isso simultaneamente, como se houvesse sido coreografado e longamente ensaiado. Fora as pernas. Percebeu que o velho pisava mais firme com o pé esquerdo, como ele, e que, mantendo a marcha, os dois, usavam a perna direita ao mesmo tempo, e depois a esquerda. Um balé macabro. Mas eis que o nosso heroi chegou à esquina onde deveria virar à esquerda. Não poderia evitar atravessar a rua e se aproximar do velho. Parou um instante na “sua” esquina. Pôs uma mão na cintura, depois acendeu o cigarro, e o velho fazia tudo isso exatamente ao mesmo tempo.

Logo que acendeu seu cigarro, observando o velho acender o seu e também encarando-o, armou-se de coragem.

O senhor está me seguindo?

Seguindo de onde. Só andei uma quadra próximo a você.

O que você quer de mim afinal? Está me imitando? Ou é alguma bicha velha?

O velho não respondeu imediatamente. Depois: Vou à padaria comprar seis pães e um maço de Dallas. O jovem ficou estupefato. Era exatamente o que ele iria comprar. Aterrorizado, sentiu vontade de sair correndo. Preferiu um Foda-se, virou as costas e foi embora.

 

*

 

Quarenta anos depois, ele ainda morava no bairro. Nunca mais pensara no velho, que nunca mais encontrou. Seus cabelos, totalmente encanecidos, iam mal com a roupa que vestia. Era sovina e guardava sempre as roupas que “ainda davam para usar”.

Depois de casado, foi morar com a mulher na quadra de cima. Um dia, ela pediu que ele fosse à padaria, para trazer uns pães e cigarros. Ele estava com uma camisa de ficar em casa, aberta até o umbigo, pois já quase nem tinha botões. Chinetos. Virou a esquina, foi caminhando firme e passou pelo poste. Ao passar, o poste desligou. Teve um calafrio. Lembrou-se daquela longínqua noite. Via, agora, perfeitamente o rosto do velho que o “imitava” em tudo. Ele sabia que “imitar” não era a palavra correta. O velho agia simultaneamente a ele. E o rosto, que lhe fora tão familiar 40 anos antes, agora era idêntico ao que via no espelho todas as manhãs.

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O e-mail do funcionário de repartição

Chegou, passou a mão na guarda do paletó para, discretamente, sacudir a caspa, colocou-o pendurado na cadeira, tossiu e sentou-se.

Todo dia era assim. Seguia uma rotina dura, em que qualquer imprevisto era considerado uma ameaça à sua tranqüilidade.

No serviço, não tinha muito o que mudar. Eram sempre as mesmas coisas para fazer. Mas as chamadas inovações tecnológicas irritavam-no um pouco, porque às vezes tinha que aprender coisas novas para continuar trabalhando.

É claro que, na repartição, a tecnologia chegava tarde, quando não havia mais jeito de protelar. Usou máquina de escrever até 93. Mas quando instalaram internet e uma rede interna de mensagens nos computadores, o funcionário irritou-se. O ritmo do escritório mudou. Por outro lado, havia a vantagem de poder trabalhar sentado na cadeira o dia inteiro: quaisquer comunicações na repartição passaram a ser feitas por e-mail.

O funcionário precisou adaptar-se às novas tecnologias. Não era nada difícil, mas um incômodo... mas, graças a Deus, dali a poucos dias uma nova rotina se estabeleceria.

Um mês depois, o funcionário mal era notado na repartição. Chegava, passava a mão na guarda do paletó para, discretamente, sacudir a caspa, colocava-o pendurado na cadeira, tossia e sentava-se, trabalhava sem falar com ninguém e ia embora. É claro que cumprimentava os outros, era um homem cortês. Mas suprimira de seu cotidiano a convivência do cafezinho, um ou outro comentário que fazia à força do companheirismo à pessoa com quem tinha que tratar, e até perdeu grandes oportunidades de falar mal do diretor, o que outrora fazia com grande distinção.

O mundo do escritório tornou-se distante. Lera em qualquer lugar que numa tal nova ordem as pessoas trabalhariam em casa. Ele bem que poderia fazer isso, de certa forma, se os documentos fossem arquivados na rede.

O único contato que tinha com os colegas era pelos e-mails que mandava e recebia. Havia correspondências eletrônicas que iam para todos os funcionários. Eram de dois tipos. 1) profissionais: “Comunico os senhores colegas que no dia 27 teremos reunião” etc. 2) correntes: “Agradeço Santo Expedito” etc.

Ele percebia que os colegas também trocavam correspondência mais íntima, informal, para combinar o chopp, convidar para uma festa. Mas mensagens assim nunca haviam chegado até ele.

Um dia acordou cheio de catarro na garganta. Um café quente e bem doce bem acalmaria o mal-estar, mas certamente o cigarro de depois causaria incômodo tão grande quanto ficar sem fumar.

De mau-humor, levantou-se, banhou-se, preparou o café, tomou-o e fumou, enquanto abria a porta da rua para ir à repartição.

Chegou, passou a mão na guarda do paletó para, discretamente, sacudir a caspa, colocou-o pendurado na cadeira, tossiu e sentou-se.

Como de costume, abriu sua caixa de entrada de e-mails para verificar compromissos. Era um funcionário muito organizado. Uma reunião para as três, e mais um daqueles e-mails de corrente, que se manda para todo cristo que tiver um endereço eletrônico no escritório: “Se você está em dificuldades, seje ela financeira, doença ou qualquer” etc.

Mal leu, deletou. “Seje”, pensou. “Era só o que me faltava”.

A frase mal escrita dirigida a muitas pessoas, as comunicações técnicas e o isolamento a que havia sido relegado o consternou.

Clicou em “nova mensagem” e escreveu: “Fui para o diabo”!. Enviar para: companhia@... Enviou. Transtornado, nem levou seu paletó. Fazia um desgraçado calor.

Tomou o cuidado de tirar o telefone da tomada. Deitou e quase dormiu. Na verdade, estava muito agitado.

Depois de um breve cochilo, acordou, sobres-saltado. Já eram duas horas! Precisava almoçar e comprar um computador, providenciar internet e outras bobagens. Para isso, precisaria passar pelo banco, tirar um talão de cheques e solicitar algum crédito. O fato foi que, às oito da noite, já havia feito quase tudo a que se propusera.

Sentia um nó na garganta, que rolava fazendo cócegas. Bebia muita água. Ainda era cedo, podia haver alguém fazendo hora extra na repartição. Não podia, ainda, concluir o procedimento que era o motivo de ter ido ao diabo durante o expediente.

 

Saiu e alugou uns filmes de violência. Assistia a alguns pedaços, rebobinava a fita, até que se decidiu por algum. Isso consumiu longo tempo porque, para cada trecho de filme a que assistia, ele, depois de rebobinar a fita, colocava o filme na caixa correspondente, e esta, em ordem alfabética entre outras fitas. Assistiu inteirinho a um deles, de cujo nome mal se lembraria no dia seguinte.

Quando chegou a uma da manhã, lembrou-se de que àquela hora já não haveria nenhum infeliz lá no escritório, e de que era o momento de botar em prática o seu plano. Escrever um e-mail que todos receberiam ao mesmo tempo, às oito da manhã, quando abria a repartição. Lembrou-se de que às vezes o diretor chegava um pouco mais cedo. Logo ele. “Foda-se”. Escreveu:

Bom dia, colegas.

Escrevo porque estou certo de que, em todos estes anos de labuta contínua e conjunta com os senhores, jamais houve de sua parte o merecido respeito para com a minha pessoa.

Sou homem sério, nunca fui rude com qualquer colega, nunca extrapolei com brincadeiras de mau gosto e nunca vos atormentei com meus problemas pessoais.
Por outro lado, sempre fui prestativo com aqueles entre os senhores que um dia houveram precisado dos préstimos profissionais da minha pessoa.
Por isso, venho por meio deste enviar aos senhores e, as senhoritas que me perdoem mas a vocês também, uma mensagem importante para a nossa convivência.
Entro e saio da nossa querida repartição há 26 anos e nunca tive uma palavra de carinho para comigo. Nenhum sinal de companheirismo.

Sei que sou um homem feio e, por causa dos muitos pêlos que trago no rosto e nos braços (até nas mãos) tenho horrendo aspecto. Sei que, por isso, as senhoritas não gostam de me cumprimentar. E eu sei que tenho caspa. Por isso não me casei, não por causa das minhas manias.

A verdade é que eu também vos odeio a todos. E se querem saber, vão todos os senhores pra puta que os pariu.

Este é o meu “bom dia” para os senhores, já que um cumprimento formal e respeitoso não é suficiente para lhes ganhar a estima. Seu bando de animais de teta.
Com meu protesto de etc etc etc,

...

No dia seguinte, chegou um pouco atrasado. Excitado com sua atitude, que muito certamente lhe valeria o emprego, não havia conseguido dormir cedo, o que só fez quase às seis e meia da manhã, e perdeu o horário.

Logo ao entrar, o porteiro mal o olhou. Mas a mocinha que fica na mesa logo adiante o cumprimentou meio rindo e soltou risinhos às suas costas, enquanto o apontava para uma amiga.

Entrando na administração, todos fingiram que não o haviam visto, exceto um funcionário mais brincalhão que o alcançou, batendo-lhe nas costas e dizendo:

— Ê, colega! Ninguém sabia que o senhor era um piadista!

Uma outra, com pena, levou-lhe um café.

Aí ficou perplexo porque, em toda a sua vida, ninguém lhe havia levado um café senão por mera formalidade. Dessa vez, essa mulher, a dona Terezinha, levou, porque quis. Tremendo, tentou pegar a xícara, em que esbarrou, derrubando o líquido. Confuso, pediu desculpas e seguiu para sua salinha. Havia percebido que ela ficara com pena dele.

Estava atordoado. Mas o grande golpe daquele dia ele teve quando viu o paletó que estava ali desde o dia anterior. Sentiu que sua disposição estava ex-tinta. Nunca, em 26 anos, ao chegar, deixou de tirar o paletó e passar a mão na guarda deste para, discretamente, sacudir a caspa, e só então colocá-lo pendurado na cadeira, tossir e sentar-se.

Ainda em pé, ligou o computador e abriu a caixa de entrada. Cerca de 30 pessoas já haviam respondido à sua mensagem, e mais correspondências estavam chegando. Enfim, alguém lhe dava atenção. Eram piadas, conselhos, a maioria impropérios. Mas ele não soube de tudo o que causara, porque não abriu toda a correspondência.

Foi direto à mensagem do diretor. “Está despedido. Passe no RH”.

Em 18 dias conseguiu outro emprego, muito parecido, com salário inferior, ao qual se adaptou bem. Afinal, era quieto e muito organizado.

O paletó, jogou-o ao lixo; comprou outro, que usou com mais parcimônia.

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 A fome e o nojo

 

As bananas, verdes acima da cabeça do soldado, repartiam com ele o olhar do general.

Aquele homem, balofo, que ria indecifravelmente, olhando fixo para ele, não inspirava mais do que desespero no soldado. Não sentia cheiro de bananas.

Roberto, era assim que se chamava, tinha fome, enquanto o general arrotava de um jeito em que um caldo azedo subia pela garganta. Era hora da janta no quartel.

O general jantava antes que os soldados. Na verdade, os oficiais jantavam depois, mais à vontade, consumindo mais tempo em se entupir e contar histórias.

O general tinha compulsão por comida. Roberto tinha fome mesmo. Naquele dia, o general o buscou na fila da janta e mandou que o acompanhasse.

Roberto foi, contrariado. O cara tinha umas cismas; então resolveu, naquela hora... Entrou na sala do general, que apontou uma cadeira. O lugar parecia mais amplo, e também mais limpo do que de costume.

O general tinha mandado fazer uma faxina, fuçado armários, juntado umas tralhas, jogado muita coisa fora, e a sala ficou grande, porque ele imaginou assim, uma cadeira na sala grande. A mesa dele, de general, ele colocou num canto, e ele e a mesa ficaram pequenininhos, uma coisica no canto da sala.

"Sente-se", falou. Roberto estranhou o jeito de ele falar. Embora não identificasse o que havia de diferente no texto do general, era o modo não coloquial de dizer o imperativo, ao contrário de um "sentaí".

Havia uma rede de um pano velho, uma lona, o verde meio desbotado, uma rede pendurada acima da cadeira. Roberto não quis olhar para cima.

— Tá com fome?

Roberto disse "sim, senhor" e abaixou os olhos. O general esfregou as mãos, rindo, e pegou uma penca de bananas. Com muito esforço, levou até Roberto. Ao constatar que não conseguiria erguer a penca até a lona irritou-se, voltou para o canto da sala, deixou as bananas na mesa e catou a cadeira.

Estava Roberto sentado e já a penca pairava sobre a cabeça.

— Você não vai comer "bandejão" hoje. Só vai comer banana. Só quando ficar madura.

Acomodou-se na cadeira e começou a arrotar a comida compulsivamente. Aquela comida que não cabia no estômago, que azedava e que, comida, doía, e que ele não parava de comer.

Passaram-se algumas horas e Roberto não recebia a permissão de sair da cadeira. O general levantou-se e disse: "Vou dormir. Fica aí".

Depois disso, nenhuma regra foi mencionada. Roberto se levantava apenas para ir ao banheiro, voltava e olhava para as bananas.

Eram esquisitas, pareciam cera. Roberto queria parar de olhar, achava humilhante olhar, mas tinha fome; ao mesmo tempo, não eram bananas de comer, eram de ver.

O general contemplava.

Os dias se seguiam. Roberto sofreu alguns desmaios com o tempo. Então o general injetava um líquido nele, e o soldado se recuperava. Com olheiras, os braços roxos das picadas e uma dor incontrolável no estômago, Roberto passava os dias e as noites.

 

*

 

O general sentia-se pior a cada dia. Cada dia comia mais, tinha mais dor de estômago e queimação de comida mal digerida, mas não conseguia parar de comer.

O nervosismo de Roberto o irritava muito. Na verdade, ver o soldado reduzido a um esqueleto e sem comida até lhe dava prazer, mas o insistente mastigar dos dedos era insuportável.

Roberto começou tirando cutícula. Aos poucos, foi comendo mais as bordas dos dedos. Então partiu para as unhas. Agora, passava os dias com os dedos sangrando. Para aliviar, chupava o sangue, atividade que entremeava de novas mordidas e mais vazão de sangue.

Lembrava a mulher e o menino. O general estava ficando com nojo. Roberto já não olhava para as bananas. Curiosamente, o general foi quem passou a contar o tempo que corria em volta da penca. Ele queria que Roberto se levantasse da cadeira, que visse o cacho de bananas, que elas estivessem madurinhas, e que as comesse. E que fosse embora.

Mas as bananas continuavam verdes e, por impressão do general, até mais escuras do que antes.

Roberto fitava o general com fixação, enquanto comia de sua própria carne. O general, que não parava de arrotar e vomitar o caldo azedo, pelo menos parou de comer na presença de Roberto. Tinha nojo. Em compensação, comia muito mais às refeições. Sentia falta de ar, dores insuportáveis no estômago, o peito chiava e às vezes parecia que até a visão lhe faltava. Depois de um dos não raros momentos em que se viu instantaneamente cego, fixou seu olhar em Roberto. O soldado estava rindo. Era um riso ignóbil, cruel, sarcástico. Roberto continuava roendo os dedos, mas sem a compulsão do começo. Apenas do jeito com que uma puta faz suas caretas, aquelas com as quais julga que vai excitar o freguês. Como que oferecendo os dedos, o sangue e a palidez do rosto.

De tanto induzi-lo ao nojo, mostrando suas olheiras com marcas de sangue e provocando crises contínuas de vômito no general, Roberto o matou.

Na verdade, o general não agüentou mais sua compulsão alimentar, e entupiu-se de seu último alimento: pílulas para dormir que começou a tomar para tirar a cara aureolada de bananas verdes de Roberto da sua cabeça gordurosa de general.

O fato é que a digestão foi lenta; ele demorou para morrer. Mas estrebuchou ali na frente do soldado, que assistia à cena ora rindo, nunca mostrando os dentes (para os quais reservava os dedos), ora paralisado de terror.

Quando, enfim, morreu, um caldo gástrico pendia da boca do general.

Calmo, Roberto pegou a penca de bananas verdes, que não amadureceriam nunca, e enfiou uma por uma na goela do general.

Enquanto fazia isso, esbarrou em uma banana, a última. Uma fruta que não estava mais verde. Dizer que estava madura seria uma bobagem. Já estava completamente podre. Certamente estivera madura já há dias.

Ao abrir um pedaço da cortina e ficar cego da manhã, Roberto acreditou que aquela banana estava madura desde o primeiro dia em que ficou exposto à gula do general, oculta pela lona e pela performance do militar. Esmagou-a entre os dedos, tingindo-a de sangue, sentindo seu cheiro e rindo pela vingança bem-sucedida.

Quando começou a relaxar os dedos melados, um soldado entrou e disparou em Roberto, cujo cadáver não jazeria sobre o corpo do general. Afinal, Roberto era um comunista.

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As sete cores do carneiro

 

Seu Márcio não era apegado às coisas, o que vivia provocando a irritação da mulher dele, dona Gilsa. “Não jogue isso fora”, ela dizia, vendo-o desfazer-se de uma enciclopédia antiga. Assim, a casa de seu Márcio e dona Gilsa parecia uma casa de adolescentes, de recém-casados, sem cartas, sem caixas, sem fotos.

Mas naquele dia, longe de casa, houve uma foto. Na verdade, um monóculo de lambe-lambe. Quando Marcinho, com nove anos, viu na cidadezinha em que passou sua infância no interior da Bahia um carneiro todo colorido, ensandeceu. Ele nunca vira um carneiro, que naquelas bandas não tinha criação, só gato e cachorro e uns passarinhos. Mas passou o fotógrafo, todo pimpão, pela pracinha com coreto puxando o carneiro, que tinha pelo menos as sete cores do arco-íris, divulgando o preço para tirar um retrato de criança em cima do bicho.

Marcinho nunca tinha visto nada daquilo e, para dizer a verdade, era uma criança meio apática, que não se interessava por muita coisa. Por isso, ver assim, de repente, um bicho gordo e peludo e mais colorido que a caixa de lápis de cor que ganhara da madrinha mudou a vida dele. Ele começou a gritar “eu primeiro, eu primeiro”, disputando com as outras crianças da pracinha o direito de subir no carneiro antes de qualquer outro. Marcinho só não entendia que o objetivo não era ficar que nem tonto em cima do bicho que ele já sabia chamar-se carneiro, mas que o retratista ia pôr a imagem da montaria num bloquinho de plástico para olhar contra a luz e ver ali, para sempre, aquele momento. E quando entendeu isso, ficou mais eufórico, começou a empurrar a patota, a agarrar o pelo do carneiro, a brigar com o retratista, a reivindicar uma atuação mais positiva da mãe.

Mas a mãe estava triste, pois não tinha dinheiro senão para um quilo de feijão, que ia ser a janta daquele dia e as refeições dos próximos. Não tinha dinheiro para pagar o retratista. Em meio à fúria de Marcinho, tentava com jeito puxar o menino de lado e fazê-lo ver que seu desejo não era possível. Demorou, demorou muito, mas o menino entendeu. Então foi chorando da venda a casa e molhou com suas lágrimas o feijão que lhe custara o primeiro sonho de sua vida.

Os anos se passaram, e Márcio sempre guardou aquele ressentimento. Já morando no interior de São Paulo, toda vez que alguém surgia com um monóculo daquele para mostrar fotos de carneirinho ele sequer se dava ao trabalho de olhar. Ninguém ligava para a desfeita, Márcio era mesmo um tanto mal-educado e seco nas atitudes. E quando ficou velho, seu Márcio merecia o respeito e a paciência de todos os amigos e parentes da mulher, que lhe freqüentavam a casa.

Um dia dona Gilsa cismou que queria ir a Barretos, à famosa festa do peão. Evidentemente o marido achou aquilo um descalabro, mas como a comadre ia numa excursão, ela também fez questão de ir, e daquela vez insistiu. Ora, seu Márcio não tinha a menor intenção de ir a festa alguma. Mas aquele coração ressequido tinha um segredo: era ciumento que doía. Então, como não conseguiu impedir a teimosia da mulher em ir à festa, foi junto na excursão.

Seu Márcio já contava 72 anos. Usava sempre chapéu e um paletó gasto. E daquele jeito velho e distímico percorria a área da festa, sem pousar por mais que dois segundos os olhos em qualquer dos milhões de atrativos que encantam gente do Brasil e do Exterior todos os anos. A velha Gilsa tentava chamar a atenção dele, mas intimamente se dizia: “Que velho cansativo! Antes tivesse me deixado vir sozinha com a comadre”. Mas logo a irritação se dissipava no gosto de um doce diferente ou na visão do figurino de um peão de rodeio mais bem apessoado.

E foi enquanto dona Gilsa meditava sobre a beleza e o talento daqueles jovens que ouviu um murmúrio do marido, uma coisa dita para dentro. Perguntou o que era e ele respondeu: “Nada”. E sugeriu: “Vai com a comadre naquela barraca ali, comprar umas botas para você”, já cedendo o dinheiro. É claro que dona Gilsa estranhou a generosidade do marido, mas não perdeu a oportunidade.

Enquanto as duas iam às compras, seu Márcio se aproximou de um retratista que tinha um carneirinho multicolorido. Ele perguntou o preço. “Cinco reais”.

“Cinco reais”, pensou com ironia. E pensou que tudo daria para ter nove anos de novo, e tirar uma foto que carregaria num monóculo por toda a vida.

Temendo ser ridículo, mas cheio de coragem, pediu ao retratista que fizesse uma foto sua no carneiro. O fotógrafo não disfarçou o sorriso, mas dinheiro era dinheiro, apenas ele que tomasse cuidado para não causar peso no animal.

A foto foi feita e colocada no monóculo. O retratista se despediu, ainda rindo. O monóculo queimava nas mãos de seu Márcio, que temia ver a foto, avaliar-se ridículo, ser pego por alguém naquele ato praticamente ilícito. Mas tomou coragem, e levou o monóculo ao olho esquerdo. Fechou o direito, e então viu: um velho que já tinha conquistado a sua hora, sobre um carneiro que pregava a juventude eterna em múltiplas cores.

Dona Gilsa, muito intuitiva, usou aquele retrato para ilustrar a lápide do marido. Sabia que aquela foto significara muito para ele, já que havia morrido no meio da festa de peão de boiadeiro de Barretos segurando o monóculo como a coisa mais preciosa do mundo. De qualquer forma, não haveria outro retrato para gravar no túmulo.

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Um indivíduo em Populópolis

 

Populópolis estava vazia, porque dentro era o seu quarto. Cortinas xadrezes fechadas, risos sem concordância ideológica com a realidade.

Populópolis era mesmo um campus de faculdade; no sábado de manhã, o céu era azul. Uma imagem de São Francisco, meio lunática, sempre olhava o céu; mas ela, não, contemplava sempre o chão cheio de bosta e restos de papel de sorvete e caroços de mangas chupados, depois lavados pela chuva, rolados e meio amassados de borracha de carro, rodeados de catarros cuspidos pelos homens.

Os dias eram de outono, mas pareciam quentes que nem o inferno se o próprio capeta peidasse, e claro, cheiravam pior do que a enxofre.

Assim entediada pelo espaço de Populópolis, apanhou o celular e ligou, e não havia ninguém para responder a suas questões filosóficas, prosaicas ou teológicas. Voltou a se deitar no escuro e não pode dormir; antes, ouviu o cemitério, o hospício, o asilo, o abrigo de menores e a penintenciária gritarem pelos séculos dos séculos.

Então dormiu. Ao lado da cama, Mrs. Dellaway já não respirava, mas escarnecia.

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Mãe morta

 

Uma moça muito comum um dia achou nos pertences de um feiticeiro amigo seu dois objetos. O primeiro era um saquinho de veludo cheio de um talco perfumado. O segundo era uma frasco de vidro, com formato incomum, cheio de ervas secas. A moça ficou encantada com os suvenires de bruxaria. Guardou-os para si com o consentimento do feiticeiro, que não explicou a ela o segredo de como deveriam ser utilizados os objetos.

Algum tempo depois, a moça resolveu assistir a “La Dolce Vitta”. Num momento da história em que havia uma festa, viu uma mulher usando um vestido branco deslumbrante. Ela decretou que, casando-se, usaria o mesmo vestido.

Naquela noite sonhou com um estrangeiro. Ele era poeta e tinha mãos longas. De alguma forma, sabia que o poeta existia, e o queria para seu marido.

Um dia, conheceu-o na ópera. Correu até ele e entregou-lhe um mapa, indicando-lhe uma gruta na zona rural de uma cidade de montanhas.Disse-lhe que fosse lá em três dias, porque teria uma revelação a fazer-lhe.

Mandou fazer o vestido do filme e foi à gruta. Levou os objetos do feiticeiro. O vidro com as ervas usou como castiçal; banhou-se com o talco e vestiu a roupa de casamento. Adivinhou que o talco lhe daria coragem, especialmente se segurasse o saquinho de veludo vazio. Pediria o estrangeiro em casamento.

O rapaz era curioso e quis ir ver o que a moça tinha a lhe dizer. No entanto, confundiu as datas e só foi à gruta após dez dias.

A moça passava todos aqueles dias sem comer ou dormir. A vela se consumiu em doze horas. Mesmo assim, ela não sentiu medo.

Quando o moço chegou, ficou chocado ao encontrar a moça tão doente, e antes que perguntasse qualquer coisa, ela explicou que o chamara ali apenas por um motivo – dar a vela que já se extingüira.

Então o estrangeiro a levou ao hospital, ela se curou, e ambos nunca voltaram a se ver. Ela percebeu que era tolice toda aquela história. O rapaz, no entanto, sempre voltava à gruta para escrever, já que era um poeta.

O jovem teve uma esposa, filhos, um comércio e dois ou três amigos. Viveu muitos anos e esqueceu a poesia em antigos cadernos. A moça apaixonou-se por uma amiga e matou a mãe, que era contra o relacionamento homoafetivo.

Como castigo, a sociedade resolveu que ela deveria ser enterrada viva, junto com o cadáver da mãe. Então, ela novamente vestiu o traje de noiva, abraçou-se à mãe morta e foi enterrada. A amante foi até a gruta, junto com um rapaz, matou-o e suicidou-se a seguir. O jovem, desconhecendo os fatos desta história, deixou-se enganar. Mas assustou-se ao encontrar, na gruta, o saquinho de veludo e o frasco de vidro que dera a uma jovem havia alguns meses; a mesma jovem que, soubera, naquele momento estaria sendo enterrada com a mãe por tê-la assassinado.

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A assessora de imprensa e o Maestro

 

Nunca vira uma orquestra sinfônica ou, melhor dizendo, nunca testemunhara um homem regendo uma orquestra. Ao lado de um repórter cansado, eu via, então, aquele homem calvo, 34 anos, físico bem feito, subindo, todo de preto, vestindo camiseta, dar alguns pulinhos no pequeno quadrado que lhe havia sido reservado. Eu conhecia toda a sua vida em pinceladas breves de uma biografia que me mandaram, mas desconhecia qual era sua forma de conduzir uma orquestra, mesmo porque sabia pouco de música e não entendia como um maestro podia ser diferente do outro.

Os músicos estavam a postos, alguns já a rigor, outros de camiseta, algumas mulheres usando vestidos de preto cintilante, com longas saias... eram violoncelistas, e tinham muito charme. Um dos violinistas, com jeito aéreo, tinha cabelos revoltos, como os de Beethoven. Os violinistas eram os mais compulsivos: nos tempos livres, caminhavam entre as cadeiras tocando o tempo todo, e multiplicavam-se. O repórter confessou que sempre quisera tocar violino.

O ensaio começaria naquele momento. O homem de preto parou de dar seus pulinhos, abriu os braços em terceira alta (isso é em balé)... silêncio absoluto. Ali começou a surgir algo maravilhoso. Era Don Juan, de Strauss. Era a música. Então, o homem de preto começou a crescer, e os músicos tornaram-se apenas peças nas partituras.

Não foi ali, no entanto, que senti o violento arrebatamento do espetáculo, o que aconteceu no concerto. Os músicos, todos posicionados para a entrada de R.M., davam-me caracóis no estômago. Ouvi palmas do outro lado do ginásio, que se arrastavam na minha direção. Quando me Alcançaram, no entanto, eu já aplaudia há tantos anos que meus olhos se enrugaram sob meus cabelos brancos. Marcas de ansiedade e alegria à sua vista.

Ele falou. Mas isso não interessa, exceto apenas pelo fato de ter sido extremamente simpático. Até então, aquele evento pouca diferença tivera de um bingo beneficente. Mas eu já entendia que sofreria em minutos uma experiência irreversível.

Voltou as costas para o público. Meu Deus! (sou atéia). Ele vestia casaca. Tinha uma postura irrepreensível. Tinha dedos longos. Braços em terceira alta, com veias bem distribuídas, palmas das mãos para baixo. Tinha visto uma foto sua exatamente nessa posição, porém de frente, o que não havia me causado nenhuma comoção. Mas, naquele momento, com um vigoroso movimento de corpo, introduziu a Quinta Sinfonia de Beethoven.

Minhas pupilas abriram-se tanto que se esparramaram para fora da retina. Minhas órbitas oculares eram agora todas bem pretas e desesperadas, como as vestes do Maestro. Às costas de R.M., o público contemplava seus cabelos, que eram compridos do cocoruto à nuca, lisos e brilhantes, e sacudiam-se ao som dos seus gestos. Era coreográfico e espantoso que ele tivesse aqueles cabelos, naquele comprimento, e que eles espalhassem a luz com a mesma melodia dos violinos.

Foi com os olhos cheios de lágrimas que me senti desesperada. Meu Deus! Ele era o Maestro. Eu nunca poderia ser Maestro. Mas queria, e quero, ser Maestro. O fato de não poder ser, não tira meu desespero em querer ser Maestro.

Naquele momento, teria dito ao meu melhor amigo de adolescência: Nelsinho, quero ser Mães-tro. E não "queria" ser Maestro. E ele me entenderia.

Nunca meus parcos conhecimentos de psicanálise pesaram tanto sobre mim. Agora, eu via o Maestro: ele era homem, usava casaca, era calvo (o que é propriamente muito masculino), jovem, bonito, simpático, e sacudia-se de um jeito que fazia com que cem músicos se conduzissem a executar com a mais fina precisão a obra de um dos gênios da humanidade. Nem a música desse gênio, nem as particularidades biográficas do próprio gênio, no entanto, seduziam-me tanto, naquele momento, quanto aquele homem que era Maestro.

A sedução não era sexual. Eu não desejei o Mães-tro. Desejei ser o Maestro. E, diante disso, que diferença fazia o meu trabalho, a sociedade pós-industrial, o mestrado, a droga do surrealismo, a distância dos amigos, as eleições. Eu via o Maestro. Eu via o Maestro!

Mas a música era... fiquei desesperada por sentir o máximo possível, para que a lembrança daquilo me alimentasse por dias e dias, e apertei os olhos para ouvir melhor a música. Não ouvia melhor: ouvia pior. Abria os olhos e via o Maestro, e meus pulmões se enchiam de ar, bem como o estômago, que revoltava-se. Aí, sim, ouvia a música, alimentando-me da imagem do Maestro, que não parava de crescer. Queria ser homem, usar casaca.

Mas queria ainda algo mais. Queria saber onde e como ele aprendeu a mover seu corpo daquela forma. Claro que não tinha consciência e domínio sobre a dança de seus cabelos, a que eu assistia atentamente e com meio riso idiota de mulher. Mas como podia em um gesto colocar toda a força do mundo, com muito mais precisão e energia do que qualquer bailarino contemporâneo? A dança que conhecia virou, à vista do maestro, mera prática física e perdeu todo o sentido. O Maestro finalizava a Sinfonia nº 5 op. 67 energicamente, com os braços para cima, ao som de estrepitosas e úmidas palmas e gritos de "bravo!".

Então, quis ser homem, usar casaca, ser calvo, mover-me com desejo, sentimento e razão, comandar homens e mulheres, ser aplaudido. Ser Maestro.

R.M. retirou-se do palco sob aplausos e aplausos. Eu já recolhera as pupilas para dentro dos olhos, e trabalhava durante o intervalo, acompanhando a equipe de TV que filmava o concerto. Dei algumas voltas, fumei muito — e não compulsivamente, mas sentindo —, como havia muito não acontecia, mas deliciosamente, e conversava, quando ouvi palmas e voltei-me para R.M., que voltava ao palco para reger Strauss e Wagner.

Sem casaca. Um mal-estar me dominou mas, mesmo sem casaca, era o Maestro. E foi tão aplaudido ao final do concerto que regeu, ainda, Pompa e Circunstância. Mas, então, já estava eu ouvindo ônibus e caminhões sendo dirigidos por entre a harpa e os violinos. Estava atordoada, não ouvia nada. Apenas presenciava a lembrança de um maestro que quarenta minutos antes usava casaca e regia Beethoven.

E o sentimento que persistiu durante os dias seguintes foi o desespero de querer ser esse Maestro, que usava casaca e regia Beethoven. Eu cheguei em casa, via flores nas paredes, meu marido era azul, e dizia, desesperada para ele: “quero ser Maestro!”. Ele disse “ainda dá tempo”, e eu disse “você não entendeu... eu quero ser Maestro” — não é uma questão de estudar música. Ele disse qualquer coisa sobre maestrinas, mas até a palavra era ridícula. Então, repetindo que queria ser Maestro, eu fui dormir.

Mas antes de ir me encontrar com Freud naquela noite, ainda disse: “ele não devia ter regido sem a casaca. E dormi, como quem diz a última palavra”.

No meio daquela conversa toda, meu marido entendeu porque eu queria ser Maestro. Era uma questão de poder. Assenti: os maestros têm até seu signo fálico, a batuta. No entanto, quando R.M. me levou à loucura, fazendo-me desejar ser maestro, não tinha batuta à mão. Talvez, para mim, a casaca substituísse a batuta como falo, a casaca que ele não usou na segunda parte do concerto. (Será que por isso resolveu, então, usar a batuta?).

Naquela noite, revivendo a lembrança e incorporando a razão, a casaca e o poder às fibras oníricas, sonhei com o prefeito; acordei e meu marido já tinha saído para o trabalho. Dormi um pouco mais, e tão bem como nunca, mas fiquei irremediavelmente doente.

Um ultrassom mostrou que tenho partituras no estômago, capturadas dos ares de ansiedade e desejo que vivi naquela noite, o que, segundo o doutor, é incurável. Mas as notas não transcrevem música, e sim, uma receita de conduta para uma miserável mulher que continuará querendo ser Maestro para o resto de sua vida. E que quer, como quis Dorothy Parker, escrever como um homem.

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A morte dos padeiros de Cerro Verde

 

Cerro Verde é uma cidade planejada de cerca de 150 mil habitantes. Fica no coração do Rio Grande do Sul. Depois de uma forte tempestade que arrasou o município, seguida de um incêndio que destruiu quase tudo, a solução foi reconstruir a cidade. Ela tem uma forma circular: residências no centro, comércio por zonas, formando um anel, ou seja, concessionárias de veículos, lojas de departamentos, joalherias e relojoarias, lojas de roupas e acessórios, padarias, tudo no seu devido lugar, instalados num largo anel viário que permite ao motorista circular por todo o comércio e comprar tudo o que quiser. Isso foi maquinalmente pensado pelos governantes: se alguém quiser ir ao supermercado, por exemplo, e depois a uma butique, deverá passar pelas sorveterias, padarias, bares, restaurantes, concessionárias até chegar as setor de roupas. No entanto, tudo é muito bem organizado: o estacionamento livre é de 45 graus e, entre um setor e outro, há estacionamentos privados, além de uma ciclofaixa.

 

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João acordou às três horas, como sempre. Lavou o rosto reclamando, não quis tomar banho, tinha tomado na noite anterior. Penteou os ralos cabelos, escovou energicamente os dentes e saiu para trabalhar. Deu um beijo na mulher, que só acordaria três horas mais tarde para levar as crianças para a escola. O carro ficava com ela, ele preferia seguir para a padaria de bicicleta para manter a forma. Além disso, Cerro Verde é uma cidade plana e bem arborizada.

Chegou às quatro, como sempre. A padaria abria às cinco e meia, fornecendo o melhor pão francês da cidade. João era talentoso. Mas estranhou que o patrão, seu Manuel, ainda não tivesse chegado. Aquele homem, tão fino e meticuloso, jamais se atrasara. Fazia seis anos que João era empregado dele. De repente, ouve-se um estrondo. João jaz. Morto. Sua mulher veio a saber da notícia no noticiário da manhã. Desesperou-se. Como explicaria às crianças? Tinha de ir atrás do corpo, maldição, o telefone havia tocado muito e ela não levantara para atender. Ela certamente deveria ir reconhecer o corpo. Refletindo assim, parada, os olhos cheios de lágrimas, quase desligando a tele-visão, a outra bomba: seu Manuel também morrera naquela madrugada, ao que tudo indicava, dormindo.

 

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Cerro Verde estava uma tristeza só. Os dois corpos seriam velados e sepultados no dia seguinte. No entanto, foi constatado que seu Manuel havia sido asfixiado. A suspeita recaiu sobre a mulher dele, dona Marta. Mas ela era uma coitada que se entupia de remédios para dormir. Não vira nem ouvira nada. A polícia a pressionava.

Eis que, na manhã seguinte, mais dois corpos foram encontrados: o de outro padeiro e o de outro proprietário de padaria. Exatamente a padaria ao lado da primeira. O mesmo modus operandi. Então a cidade se apavorou. Quem matou não levou nada: relógio, celular, dinheiro, tudo no seu lugar. Apenas matou, com a maior facilidade. Em Cerro Verde, não há câmeras de segurança. Ninguém nunca se importou com a criminalidade, porque a cidade tem o IDH mais alto do Brasil. A inclusão é plena. Todos trabalham ou estudam. A Polícia Militar tinha um efetivo pequeno quando ocorreram os assassinatos. E a Polícia Civil teve de, pela primeira vez em dez anos, deslindar quatro crimes de uma vez. Como se fosse a coisa mais fácil do mundo. Lá, os policiais eram burocratas. Eles nem sabiam direito como conduzir as investigações. Os jornalistas apertavam os comandantes, que não tinham respostas, aliás, tinham apenas a mesma pergunta que deixava toda a cidade perplexa: por quê?

 

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A população começou a temer as padarias. As cinco que restavam ficaram às moscas. Alguns funcionários não iam trabalhar. A polícia garantiu por meio de um press-release que era seguro frequentar padarias, que os donos das duas padarias mais seus padeiros eram amigos e que aquilo era possivelmente uma queima de arquivo. A polícia garantia, ainda, que haveria uma investigação sobre a possibilidade de um terceiro padeiro estar executando seus rivais no comércio. No entanto, a população não se enganava: não havia rixa entre os comerciantes. A cidade é próspera e em Cerro Verde todo o mundo tem seu lugar ao sol. De fato, o que estava havendo, conforme se comentava, era um assassinato em série, e as vítimas, ligadas a padarias. Todos sabiam disso, o que foi confirmado nos cinco dias subsequentes.

Havia sete padarias em Cerro Verde, todas grandes. E nos dias seguintes, as mortes foram se repetindo. Depois da quarta execução dupla, a polícia postou-se diante das padarias restantes, mesmo sem saber direito por quê; afinal, os padeiros que sobraram já começaram a faltar ao trabalho, e os donos não se atreviam a abrir o comércio. Mas o assassino em série mudou sua estratégia: começou a matar de moto com um tiro de pistola a vítima em pleno trânsito, ou então, na sua própria casa; neste caso, sempre por asfixia: primeiro clorofórmio, depois um travesseiro, o que só foi constatado mais tarde.

Quando se decidiu que a PM deveria oferecer proteção especial para padeiros e proprietários de padarias, todos os crimes possíveis entre essas vítimas já haviam sido perpetrados. Não havia mais padaria aberta em Cerro Verde. O povo temia que a onda de violência se disseminasse pelo círculo de comércio, mas isso não aconteceu. Passaram-se dez dias, as investigações, por inépcia da polícia, não progrediram, mas ninguém mais morreu. A polícia não descobrira um criminoso, que sempre semeou farinha em frente à calçada das padarias. Conclui-se, entre a população, mas somente depois, que a farinha era derramada na frente da padaria antes de os crimes ocorrerem. Se seu Manuel e João e todos os outros comerciantes e empregados tivessem visto a farinha, poderiam ter se safado. Mas foi uma conclusão vã, talvez até estúpida.

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Rodrigo, um rapaz grandalhão, cara de tonto, entrou na sala do endocrinologista dias depois dos assassinatos em série.

– Bom dia, Rodrigo. Como vai sua dieta? Está fazendo direitinho?

– Sim, não é tão difícil.

– Claro, ser intolerante ao glúten implica uma mudança radical na dieta, mas é um mal necessário. O que você deixou de comer?

– Tudo o que o senhor mandou: macarrão, biscoitos, farinhas diversas... o mais difícil, mesmo, foi o pão francês. Eu gostava muito de pão francês. Para parar de comer ele, tive que fazer um esforço um pouco maior.

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O centro do mundo

 

Araraquara é mesmo a cidade das vaidades. Uma rádio local anunciava, anos atrás, que a cidade era o “centro geográfico do estado”. Não sei se continua com a vinheta. Mentira, o centro geográfico tem um marco numa pequenina cidade a alguns quilômetros daqui.

Também se convencionou chamar Araraquara de “Morada do Sol”. Não é pouca coisa, certo? O próprio D. Pedro II, em visita, teria traduzido “Araraquara” (que teria vindo de “Aracoara”) da língua indígena local como a “Morada do Sol”. E quem é que vai discutir com o imperador? Mas nem com o advento da República!

Foi aqui em Araraquara que Mário de Andrade escreveu boa parte de sua obra-prima, o “Macunaíma”, embora, segundo pesquisadores, ele já tivesse um farto material quando se deitava na banheira da chácara do seu tio Waldemar Safiotti, à noite, para escrever. Reza a lenda que ele escreveu tudo aqui, em duas semanas apenas, mas parece que também não foi bem assim. Foram encontrados entre livros de antropologia do escritor alguns com notas para o futuro romance em palimpsesto. “Macunaíma” já vinha sendo maquinado havia muito tempo!

É verdade que o povo aqui tem a imaginação fértil quando se trata de vangloriar os próprios talentos. Por exemplo, tem um poeta na cidade, o Pedrinho Renzi, que, entre reticências e reticências, repete as velhas fórmulas da “Morada do Sol”, “Aracoara” com elogios grandiosos aos dois araraquarenses mais famosos: Ignácio de Loyola Brandão e Zé Celso.

Até as coxinhas de Araraquara são as mais gostosas. Bem, nesse aspecto, até eu me rendo. Depois que Loyola publicou uma crônica sobre as “coxinhas douradas” de Bueno de Andrada para o “Estadão”, o pacato distrito da cidade virou point. O negócio cresceu, Loyola ganhou uma homenagem numa parede, um pedágio foi aberto nas proximidades e logo virou o “pedágio das coxinhas”, para quem vai ou volta de Matão.

PS: Sobre o “pedágio das coxinhas”. Eu estava voltando da Câmara com o motorista do jornal para a redação para escrever a matéria sobre o pedágio, e comentei qualquer coisa com ele. O motorista riu, e disse que ia ser o “pedágio das coxinhas”. Abracei na hora, lancei no jornal e pegou na cidade toda. O Freitas, “dono” das coxinhas, deu até entrevista para a EPTV dizendo que não tinha gostado do epíteto. Acho que foi o único. O fato é que as coxinhas continuam fazendo o maior sucesso!

Vivian de Moraes