22/10/2015 Número de leitores: 731

Não sei desenhar com as mãos!

Nãna Damino Ver Perfil

A menina senta sozinha sob uma árvore, agarrada a um caderno e chora.

Triste, parece inconsolável.

— Porque chora pequenina? – Pergunta o jardineiro que por ali estava a plantar.

— Não sei desenhar e meus amigos riem de mim! Dizem que meus desenhos são muito feios.

— Ora, ora, nem todas as pessoas sabem desenhar. Alegre-se, tenho certeza de que sabe fazer muitas outras coisas boas.

— Mas o que sei fazer? Sou apenas uma garotinha de seis anos, mal aprendi a ler e escrever e nem sequer sei desenhar com as mãos. Sei de pessoas que até desenham com os pés e com a boca!

O jardineiro sentou ao seu lado, tirou o chapéu da cabeça e coçou, coçou...

— Todos somos diferentes e é por isso que este mundo é tão interessante. Enquanto algumas pessoas plantam como eu, outros são médicos ou motoristas. Não fique assim, isso vai passar.

Com ternura, o jardineiro acaricia os cabelos da pequenina e seca suas lágrimas, enquanto ela retruca.

— O senhor não tem seis anos e é por isso que não entende. Só crianças da minha idade sabem o que eu estou sentindo.

— Deixe-me ver seus desenhos.

A pequenina abriu seu caderno e começou a mostrar.

— O que é isso? – Apontou o jardineiro para um dos desenhos.

— É um menino andando de skate.

O jardineiro conteve o sorriso para não piorar a tristeza da pequenina, pois seus desenhos eram realmente ruins.

— Muito bom, muito bom! – Disfarçou o discreto homem tentando motivá-la.

O jardineiro resolveu então pegar o caderno e folheá-lo para conhecer os outros desenhos.

— Ah, este aqui. Já sei. É uma igreja! – Afirmou o homem enquanto apontava para algo parecido com uma cruz.

— Claro que não! É uma casa, não percebe? – Disse irritada a pequenina.

— É verdade, tem razão. Deixe-me pegar os óculos.

O simples jardineiro tirou os óculos do bolso da camisa e colocou-os no rosto.

“Agora ficou pior”. – Pensou. - Quanto mais nítida a visão, menos nítido o desenho, mas era preciso incentivar e tirar a tristeza daquela linda menina. A estratégia era perguntar e não mais tentar arriscar. Observou mais alguns desenhos e achou um bem colorido.

— Ah, que belo desenho. Gostei. Que animal é esse? – Perguntou à menina apontando para algo no papel.

— É um elefante e ele está fugindo de um predador. – Respondeu a garota toda feliz.

“Nada a declarar” -  Pensou o jardineiro.

Ele matutou, olhou a pequenina e queria encontrar algo para valorizá-la e abrandar a tristeza, mas a garota não se conformava.

— Você pode me ajudar senhor jardineiro? Sabe dar alguma dica do que preciso fazer para que gostem dos meus desenhos?

— Sou apenas um simples jardineiro. – Levantou ele os ombros enquanto segurava o caderno.

— Mas o senhor é um adulto e todo adulto sabe mais do que as crianças! – Contestou a garota enquanto percorria as folhas do caderno, até voltar ao desenho do menino andando de skate.

— Olhe bem meu desenho senhor jardineiro e fale o que preciso melhorar.

O jardineiro olhou, olhou e pensou. – “Melhor apagar e começar tudo de novo”! Mas não poderia dizer isso a ela. Então, arriscou nos detalhes. Viu um pequenino rabisco ao lado do que a garota dizia ser um menino e indagou.

— O que isso? – Apontou ele para algo indescritível.

— É um remedinho. Caso o menino caia do skate e se machuque, já deixei o remédio bem pertinho, assim ele sente menos dor.

Neste momento, o jardineiro olhou para a pequenina e sorriu achando tudo muito engraçado.

Mas ela não sossegava. Rapidamente manuseou as folhas do caderno e chegou novamente no desenho da casa.

— Viu esta casa que te mostrei. Coloquei flores na janela, um belo jardim, uma porta bem gigante e até meu número preferido ela tem! Porque todo mundo acha ele feio?

Tentando não responder à pergunta, o jardineiro acrescentou.

— Acho que apenas pode arrumar este risco no telhado e ficará perfeita!

— Não é um risco, é uma cruz. – Respirou irritada enquanto continuava sua descrição. - Desenhei ela ali, bem no alto, para ficar protegida. Assim ninguém rouba nada nem estraga as plantas do jardim.

O simples jardineiro sorriu novamente, porém agora com a mente e o coração. Após cada explicação daquela bondosa pequenina, parecia que o desenho ficava mais nítido, exuberante e encantador, tamanha pureza e amor dedicado pela bela menininha.

Empolgada com o semblante do jardineiro, ela mudou rápido de desenho e procurou aquilo que chamava de elefante.

Animado e vendo tudo com outros olhos o jardineiro manifestou o que sentia quando via os desenhos da garota.

— Seus desenhos são lindos! – E suspirou.

— Como assim? O senhor acha? De verdade? – Olhou toda risonha para seu novo amigo.

— Claro! – E apontando para um montinho de qualquer coisa, desenhado antes do presumido elefante, o jardineiro simplesmente acrescentou.

— Claro! Vejo bem essas comidinhas que desenhou no chão!

Sorrindo de felicidade, a pequena acrescentou alegremente.

— Isso, isso! São comidinhas, são comidinhas! Desenhei elas aqui no meio do caminho para o predador encontrar, comer tudinho, enchendo bem sua barriguinha.  Assim, ele desiste de comer o pobre do elefante.

Olhando para o desenho e para a pequenina, agora tudo era óbvio para o jardineiro, e muito mais bonito do que os desenhos de um artista.

A garota fechou o caderno, levantou lépida do chão e confiante, atirou rápido uma pergunta.

— E agora, o que me diz sobre meus desenhos, senhor jardineiro?

Olhando-a nos olhos, o humilde jardineiro acrescentou.

— Não digo nada! Apenas sinto!  “Feias” são as pessoas que não os percebem!

Com reverência, seu novo amigo ajeitou os cabelos, a roupa e a camisa, colocou o chapéu na cabeça e curvou-se perante a pequenina.

— Senhorita, foi uma honra conhecê-la! As pessoas podem desenhar com as mãos, com os pés e até com a boca, mas raras pessoas desenham como você! Com seu grande coração!

Nãna Damino