13/11/2015 Número de leitores: 514

MATEI... MATEI!

Nãna Damino Ver Perfil

Vejo-me em uma cena hoje para mim considerada cômica, mas com certeza trágica para uma garotinha aos quatro anos. Consigo vivenciá-la como se estivesse lá, vivendo a magia do recordar.

Mamãe era motorista novata e só de saber disso já ficava com medo. Eu e minha irmã Patrícia embarcamos no seu fusquinha branco e corri para entrar no buraco que ficava atrás do banco.

Lembro que mamãe dirigia por uma rua ao lado de um riozinho, o que dava ainda mais medo, pois além de ser uma rua de terra, não havia nada que segurasse o carro caso ela perdesse a direção. Naquela época existiam muitos rios e córregos não canalizados e nossa casa ficava muito próxima de alguns deles.

Ufa, a rua terminou e acreditei que o risco de um acidente estava descartado. Mamãe dobrou à direita numa rua conhecida como Rio Azul e me senti aliviada, pois o caminho era asfaltado, sem nenhum perigo e ela dirigia devagarzinho. 

Logo que o carro virou a esquina, pum...! Um barulho forte anunciou algo bater na frente do carro. O estrondo percorreu todo o teto do fusca, batendo por toda lataria enquanto nós três entrávamos em pânico.

—Ai meu Deus do céu! – Gritou minha mãe.

Se ela gritou, seguramente a situação não era nada satisfatória. Agarrei minha irmã e fiquei estática, sem olhar para nenhum lugar nem mexer qualquer parte do meu corpo. 

Mamãe desceu do carro apavorada e de repente gritou:

— Matei, matei! Meu Deus, matei alguém.

Claro que nessa circunstância, agarrei mais ainda minha irmã e começamos a chorar.

Mamãe agachou próximo à porta do carro e levantou aterrorizada, segurando um chumaço de cabelo na mão. Um sangue cor de rosa escorreu pelos seus dedos e entre os fios de cabelo, pingando no chão.

Que pavor.... Ela realmente matou alguém!?

Não queria ver nada, nem ouvir nada, só queria sumir dali e fingir que aquele dia não existiu. Que arrependimento ter saído com ela no fusquinha.

De repente ouvimos uma voz.

— Moça, moça, se acalme. Eu não morri.

— Então, o que é essa cabeça na minha mão? – Perguntou mamãe a uma moça toda desalinhada que saiu de trás do fusca e se dirigiu a ela.

— Moça, não é uma cabeça, é uma peruca. A senhora me atropelou e acredito que ao bater no seu carro, minha peruca saiu da cabeça. Acalme-se. A senhora não me degolou!

— Mas e esse sangue cor de rosa? Nunca vi alguém ter sangue dessa cor.

— Estava carregando um saquinho de leite B e quando me atropelou, o saco estourou. Acredito que o leite misturou com o meu sangue, por isso está desta cor.

Mamãe colocou a atropelada no carro e continuei agarrada à minha irmã. Dirigiu como uma doida para um Pronto Socorro que havia bem pertinho dali, onde fizeram curativo no dedinho do pé da moça, o único responsável por toda aquela sangueira.

Nãna Damino