19/11/2015 Número de leitores: 1783

Uma história de amor animal

A. Zarfeg Ver Perfil

Era uma vez antigamente... Assim Jorge Amado inicia a história de amor do Gato Malhado com a Andorinha Sinhá. Como o próprio autor faz questão de destacar, trata-se de uma fábula escrita em 1948 em homenagem ao primeiro aniversário de João Jorge, seu filho, mas só publicada em 1975, com a anuência do filho já adulto.

 

Apesar do conhecido era uma vez, Jorge Amado se permite um sem-número de licenças poéticas na confecção de sua fábula. Por exemplo, a estrutura da narrativa não obedece cegamente ao esquema início-meio-fim, comumente observado nesse tipo de narrativa, como atestam os escritos de Esopo e La Fontaine. Mesmo o era uma vez aparece modificado pelo advérbio antigamente, posto de propósito, mais para embelezar o estilo do que situar a ação no tempo.

 

Dessa maneira, o escritor grapiúna – com grande habilidade de contador de histórias – rompe a rigidez formal no melhor estilo “faço consciente do que estou fazendo”. Isso fica claro quando, de repente, de modo aparentemente anárquico, ele suspende toda a ação e acrescenta um capítulo intencionalmente chamado de “Capítulo inicial, atrasado e fora de lugar”, só para recuperar os antecedentes que marcaram o romance entre gato e andorinha, que são os protagonistas da história. E o faz movido por um senso de humor que beira a ironia, confiante que terá o apoio imediato da crítica especializada de literatura!

 

O narrador lança mão também de um recurso estilístico no mínimo interessante – os parêntesis, que são ferramentas utilizadas por ele para apresentar este ou aquele personagem e, ao mesmo tempo, direcionar o enredo, à medida que a ação vai se desenrolando. São ao todo cinco parêntesis, como o “parêntesis das murmurações”, o “parêntesis poético”, o “parêntesis crítico”, e assim por diante. Além deles, há também um providencial “post scriptum”, cuja função é orientar o leitor em meio às peripécias dos animais.

 

Personificados, os bichos da fábula em questão são capazes de ações humanas. O Sapo Cururu, a Velha Coruja, a pequena Pata Branca, o Galo Don Juan, a Galinha Carijó, o Papagaio, a Andorinha pai e a Andorinha mãe estão prenhes de sentimentos humanos e, portanto, cumprem um papel importante na trama: com suas ações, ilustram um conceito ou uma moralidade. Afinal, a vida se apresenta repleta de acontecimentos, bons e maus, que precisam ser experimentados com dramaticidade.

 

Mesmo trilhando um mundo desprovido de verossimilhança, os bichinhos de Jorge Amado conseguem convencer graças ao discurso humanizado. A recriação dos tipos, de tão convincente, assusta tanto pela maldade quanto pela bondade de seu caráter – em que os personagens parecem recém-chegados do mundo do (bicho) homem. Afinal, já tivemos o (des)prazer de conhecer um tipo como o Papagaio, espertalhão e cheio de segundas intenções, sempre semeando intrigas. Ou, inversamente, alguém tão discreto como a Coruja, a sabedoria em forma de ave, sempre disposta a estender a mão, ajudar.

 

O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá – protagonistas da fábula – são portadores de qualidades fortes. Ela é bela, desejada por todos e, atenção, louquinha. Ele, um bicho feioso, mau, bigodudo, capaz das maiores atrocidades. Agora, imaginemos o impossível: o namoro entre esses seres antípodas. De um lado, a inocente avezinha; do outro, o terrível felino. Mais que isso, imaginemos o impossível dos impossíveis: uma história de amor entre ambos.

 

Na vida tudo é possível, eis uma verdade. E a fábula, mais do que qualquer modelo ficcional, constitui a arte da imitação da vida por excelência. Então, gato e andorinha se apaixonam perdidamente, a despeito do embaraço que essa relação vai provocar, especialmente nos pais da inocente (e apaixonada) Andorinha Sinhá. A essa altura dos acontecimentos, o conflito está firmado.

 

“Então, tu não sabes que ele é um gato, um gato mau, e que jamais uma andorinha pode manter relações, sequer de simples cumprimentos, com um gato?”

 

A advertência vem da Vaca Mocha, que tenta em vão dissuadir a bela Andorinha daquela ideia maluca. Onde já se viu uma coisa dessas? Os gatos (malhados ou não) e as andorinhas (loucas ou não) são inimigos irreconciliáveis e, por conseguinte, não podem e não devem manter contato algum entre si – nem de amizade ou sociabilidade –, muito menos de amor! Em seguida, fala-lhe de regras, moralidade, tradição, incompatibilidade entre espécies.

 

Moral: surpreendentemente, Jorge Amado opta por um desfecho politicamente incorreto, em vez de prescrever um final feliz para o caso amoroso entre gato e andorinha. Uma solução realista. Como na vida real, a Andorinha Sinhá foi obrigada a esquecer o Gato Malhado, trocando-o pelo belo Rouxinol. Casaram-se, jurando fidelidade mútua. O Gato Malhado, solitário e infeliz, tomou o rumo do fim do mundo.

 

A. Zarfeg