02/12/2015 Número de leitores: 1482

Vinícius, natal e poesia

A. Zarfeg Ver Perfil

Vinícius de Moraes é um dos poetas mais importantes do modernismo brasileiro, sobre o qual, aliás, os moralistas lançaram o estereótipo de artista extravagante que criou, cantou, amou e bebeu como poucos – fazendo da arte uma aventura sem-par, total, além da vida e da morte. 

 

A trajetória poética de Vinícius pode ser dividida em duas fases distintas. A primeira, de temática transcendental e cristã, está expressa principalmente no livro de estreia “O caminho para a distância”; a segunda, pelo contrário, privilegia o cotidiano, o profano, dando destaque para a figura feminina e a temática do amor. “Ariana, a mulher” é a obra que caracteriza bem essa etapa. 

 

Nesta brevíssima apresentação do autor de “Receita de Mulher”, não poderíamos deixar de acrescentar o momento musical – correspondente à terceira fase da vida do Poetinha –, em que ele, em parceria com nomes como Toquinho e Tom Jobim, revolucionou a MPB com composições do quilate de “Chega de Saudade”, “Felicidade”, “Samba em prelúdio”, “Tarde em Itapoan”, “Garota de Ipanema”, e tantas outras que, com justiça, o transformaram num dos pais da bossa-nova, na década de 50.

 

A partir daí, a música popular brasileira foi-se tornando uma constante na vida de Vinícius. E o poeta-letrista, tido como a maior expressão lírica da sua geração, conseguiu promover o tão sonhado encontro entre seus sambas de parceria com sua poesia propriamente dita. E, ao fazê-lo, restabeleceu de uma vez por todas a fusão original entre poesia e música, cuja separação teve início no fim da Idade Média, quando os poemas passaram a ser impressos em livro. Aliás, ele fazia questão de frisar que, em essência, inexiste diferença entre seus sambas e sua poesia impressa. 

 

“Acho mesmo que só a música traz-me uma tão grande sensação de plenitude e gratidão”, escreveu o Poetinha em seu livro de estreia. Convém destacar, no entanto, que os críticos de plantão defendiam exatamente o contrário, qual seja, que poesia e música não se misturam, como água e azeite. 

 

Pelo visto, Vininha estava mesmo com a razão, na medida em que o gênero lírico, em sua origem, é musical. A definição do “Aurélio” de lírico não deixa dúvida: “Diz-se do gênero de poesia em que o poeta canta as suas emoções e sentimentos íntimos”.

 

Como foge aos objetivos deste artigo despretensioso teorizar sobre quaisquer assuntos, vamos nos ater ao belíssimo “Poema de Natal”, em que, de posse de uma simplicidade iluminada, o Poetinha nos dá uma bela lição – exaltando o bem, o amor e a paz e, ao mesmo tempo, chamando a nossa atenção para a morte, que nos ceifa a vida na primeira oportunidade. Ele o faz sem cair no pieguismo moralizador dos dias atuais. 

 

Com a palavra, o poeta-compositor:

 

Para isso fomos feitos:

Para lembrar e ser lembrados

Para chorar e fazer chorar

Para enterrar os nossos mortos –

Por isso temos braços longos para os adeuses

Mãos para colher o que foi dado

Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida:

Uma tarde sempre a esquecer

Uma estrela a se apagar na treva

Um caminho entre dois túmulos –

Por isso precisamos velar

Falar baixo, pisar leve, ver

A noite dormir em silêncio...

A. Zarfeg