03/01/2016 Número de leitores: 1555

“Um facho de sol como cachecol”

A. Zarfeg Ver Perfil

Eu comecei 2016 em ótima companhia: lendo Um facho de sol como cachecol, primeiro livro de poemas do jornalista mineiro Petrônio Souza Gonçalves, o Petros.

 

O livro estava comigo desde julho de 2015, mas somente nesse 1º de janeiro resolvi lê-lo e, em seguida, escrever sobre ele.

 

Os poemas de Petros, em sua maioria, são discursivos. Mesmo aqueles curtinhos, tipo telegráficos, contam uma história ou suscitam uma moral, brindando o leitor com uma boa sacada ou um achado poético.

 

Nesses tempos de crise, inclusive estética, convém não esperar muita originalidade dos livros alheios, nem dos de nossa autoria. Agindo preventivamente, fica mais fácil evitar uma decepção poética ou mesmo prosaica.

 

Atualmente, assiste-se ao sucesso nas redes sociais e nas livrarias de um tipo de poesia – tachado de “fast food” – que passa ao largo da boa poesia. O poeta e jornalista Ademir Assunção sugeriu a expressão “fast foda” e questionou as intenções do marketing por trás desse modismo: “Sei como a coisa funciona: um profissional (profissional?) da indústria editorial, sem vergonha na cara, amiguinho de um editor (editor?) de jornal (jornal?), sem vergonha na cara, consegue emplacar uma pauta, que será escrita (escrita?) por uma jornalista (jornalista?) que ganha uma merreca e, pronto, está criada a ‘nova onda’”.

 

É evidente que essa poesia de autoajuda ou “para colorir” não tem nada a ver com os poemas de “Um facho de sol como cachecol”, que caiu em minhas mãos como uma boa-nova literária de Ano Novo.

 

O livro apresenta mais de duas centenas de poemas – repito – pequenos e discursivos, com os primeiros versos em destaque fazendo as vezes dos títulos, como em “Sou como o girassol”: “Sigo a luz!”

 

Ou em “Carnaval”: “Às vezes. / A vida precisa transbordar!”

 

Mas há textos maiores, de fôlego, como o excelente “Temperos”: “Jardineira. / Plantou ervas nos cachos dos meus cabelos. / Nasceram primaveras nos pratos. / Nos garfos, / Nos fundos das panelas... / Gamela. / Agora, / Repousa em ti / O início do mistério, / O eterno do infinito elo, / O todo do que nunca foi dito”.

 

De tão livres e coloquiais, os versos fluem como prosa, sem, contudo, abrirem mão do ritmo, da sonoridade e da surpresa boa que, à primeira leitura, não deixa dúvida de que o leitor está diante de alguém que entende do riscado. A saber, de um poeta de verdade.

 

Por se tratar de um poeta das Gerais, o livro transborda mineiranças, dialoga com Aleijadinho, Drummond, Rosa, “quintanea” também, porque esse facho de sol incide sobre o Brasil e não apenas sobre alterosas e belos horizontes.

 

Há algum tempo, venho acompanhando as sessões de autógrafos da obra pelo país afora, a repercussão dela na mídia e nas redes sociais, a alegria de Petros com seu primeiro filhote poético (que um livro, a rigor, é um filho).

 

Vou continuar torcendo pelo sucesso de Um facho de sol como cachecol, porque essa criatura ensolarada – com perdão do trocadilho – nasceu para brilhar. 

A. Zarfeg