13/01/2016 Número de leitores: 1677

O contador de estórias

A. Zarfeg Ver Perfil

Seu Manuel contava estórias de arrepiar os cabelos da gente. Os causos mais fantásticos deste mundo de meu Deus.

 

Não sei donde ele tirava todos aqueles monstros pavorosos e fascinantes a um só tempo. Com certeza não era dos contos de Poe ou do reino da Carochinha!

 

Uns pareciam ter saído do paiol, pois tinham cara de espiga de milho e língua de pamonha azeda. Outros teriam fugido das profundezas do Umburana pra meter medo na gente. Eram aquosos de dar nojo, os malditos!

 

Quem ia ter medo de um bicho inventado, inda agorinha, pela mente fértil de seu Manuel? Nós, é claro.

 

A cobra-cega transpunha monte, montanha e mata-burro, correndo atrás da meninada. Louca da vida pra devorar os filhinhos dos agricultores do vale. Valei, Nossa Mãe Natureza, que a serpente medonha vai devorar os pestinhas da Fazenda Sítio Novo!

 

Ah, seu Manuel Dimas da Silva! Contador de estórias dos bons! Senhor dos nossos sonhos e pesadelos mais pavorosos! Dono da mímica, dos gestos e meneios mais engraçados! Descanse em paz com sua imaginação sinistra!

 

Antes de servir o chá de capim da lapa, ainda executava uma canção de gesta, uma moda de viola, dedilhando o polegar deformado pela lida e encardido pelo fumo de cada dia.

 

O chá quente (e bota quente nisso!) queimava a língua, estuporava os olhos, deformava a boca, deixava a gente que nem os monstrengos! A cara horrorosa de tanta risada!

 

E voltávamos pra casa, anestesiados pelo sono, embriagados pelo chá, enfeitiçados pelas estórias de seu Manuel, que alertava com a voz de besouro: semana que vem tem mais, mas não se esqueçam que quem faz xixi na cama casa com a bruxa da Pedra Branca! Combinado?

 

A. Zarfeg