19/01/2016 Número de leitores: 1169

“Canção de ninar estátuas”

A. Zarfeg Ver Perfil

Acabei de ler os contos que compõem o livro Canção de ninar estátuas, do poeta, músico, escritor e professor carioca Luiz Gilberto de Barros, o popular Luiz Poeta.

 

Publicado pela editora Mondrongo em 2014, o livro traz 21 histórias curtas que podem, também, ser classificadas como crônicas. (Agora me vem à mente um comentário do saudoso Mário de Andrade, para quem não importava se suas narrativas eram contos ou não, desde que fossem verdadeiras...)

 

Antes de discorrer sobre os contos propriamente ditos, que são pequenas preciosidades literárias, queria destacar as “Palavras do autor”, em que Luiz Poeta nos fala sobre os primeiros contatos que teve com a literatura e com a música.

 

De maneira divertida, ele nos informa sobre as dificuldades enfrentadas com a poesia, o apego às rimas “repletas de oxigênio” (terminadas em “ar”), e a mania dos “hiperbólicos sentimentos prenhes de ‘ão’”.

 

A música também entrou cedo na vida do menino talentoso, de sorte que, ao vencer os primeiros concursos literários e musicais, a expectativa deu lugar à constatação, e Luiz, finalmente, se tornou “Luiz Poeta”.

 

Já o talento de Luiz na prosa – explicitado com o lançamento do premiado “Canção de ninar estátuas” – era só uma questão de tempo. O que é mais importante: o livro veio a público com o autor em plena maturidade artística e intelectual.

 

Portanto, é escusado dizer aqui se gostei ou não do que li, aliás, do que me deliciei. Me perdi (na verdade, me achei) em muitos dos textos como “Pios de bemóis e sustenidos”, “Projétil pedagógico”, “Sara Samira”, “Azuis”, “O homem importante”, “Texto para um Natal”, “Portugal pequeno...”, “O pássaro azul” e, claro, “Canção de ninar estátuas”, que dá nome à obra.

 

Enquanto escrevo esta resenha, me deparo com uma frase de Charles Bukowski, dessas tantas que enfeitam as redes sociais, aconselhando os escritores a serem, antes de tudo, poetas. A escreverem com a alma, enfim, a serem verdadeiros.

 

Pois Luiz Poeta segue poetando até mesmo quando conta uma história, como atesta o excelente “Canção de ninar estátuas”, em que o ser de bronze empreende uma conversa com um octogenário, para espanto do humano e deleite da máquina.

 

Vale a pena rever a metamorfose:  “... os olhos de bronze foram mudando gradativamente de cor. A princípio eram marrons, depois vermelhos, turquesa, violeta... azuis... expressiva e profundamente azuis...”

 

De posse de elementos do realismo fantástico e/ou surreais, Luiz dá um show tanto na escolha do tema quanto na realização do conto. Imaginação de um lado e técnica, do outro, são fundamentais para a condução da narrativa que, amparada em excelentes diálogos, fascina e perturba o leitor a um só tempo. Enfim, um primor de texto.

 

Pelo que me consta, uma estátua ganhou vida apenas em duas situações fictícias: num filme e numa redação. Trata-se do filme “A História Real do Trágico Incêndio do Theatro Pedro II”, do diretor Fred Nuti, em que o monumento de um soldado constitucionalista ganha vida e arremessa uma granada em direção ao teatro de óperas de Ribeirão Preto (SP). Na redação “O dia em que Drummond nasceu”, o estudante do ensino fundamental de Teixeira de Freitas (BA), Júlio Bernardo Ferreguett, narra a ira da estátua do poeta mineiro presa ao calçadão de Copacabana, no Rio. Irritada com as injustiças sociais, ela se levanta e se dirige à prefeitura para reivindicar seus direitos. A multidão segue atrás eufórica.

 

Pelo visto, literariamente, apenas Luiz Poeta deu vida a uma estátua. E o fez de maneira espetacular, no que essa palavra tem de mais sublime e terrível. 

A. Zarfeg