19/04/2016 Número de leitores: 1910

“Concreto Quase”, de F. Novais

A. Zarfeg Ver Perfil

Concreto Quase, de Fabiano Novais, é uma delícia de se ler, de se devorar e, claro, de se elogiar. Enfim, é literatura de gente grande e isso, convenhamos, não é pouca coisa. É muita coisa ou coisa muita, como diria Guimarães Rosa.

 

Mas, ao contrário de Rosa, que elegeu o rural como motor da sua prosa revolucionária, Fabiano optou pelo urbano, como revela o monólogo em questão, para produzir sua arte. O livro de crônicas de Médico e Louco..., também de sua autoria, corrobora essa opção.

 

Em comum entre os dois autores, além da mineiridade, o fato de serem médicos.

 

O lado médico de Fabiano Novais é relevante para sua prosa, como atestam as duas obras citadas acima.

 

Em Concreto Quase, por exemplo, o leitor é apresentado ao engenheiro Antônio, 35 anos, doente terminal, que passa em revista suas vivências, sua história de sucessos e fracassos, de maneira realista, impactante e envolvente.

 

O livro é dividido em “Pés no chão” e “A viagem”, o que diz muito sobre o título, uma vez que a narrativa, na 1ª pessoa, trata da doença propriamente dita (lado imanente) e os efeitos dela, os delírios e os sonhos (lado transcendental), de sorte que o leitor toma conhecimento do antes e depois da doença do herói (anti-herói, na verdade).

 

Logo no início ele nos brinda com esta maravilha: “O pior é quando chega a noite, este véu negro indefinido, e o sono nega-se a visitar este moribundo fedendo a fezes de animal acusado”.

 

O que se lê a seguir é um desabafo sincero e contagiante, na forma de memórias e flashbacks, protagonizado por um indivíduo que, a essa altura dos acontecimentos, não tem nenhum motivo para esconder ou pechinchar isso ou aquilo com a vida louca vida.

 

Sem meias palavras, sem acordo prévio com seu superego, Antônio dá vazão ao turbilhão de emoções, expõe o que viveu, denuncia o que deixou de viver, sublinha as escolhas feitas (e as que deixou de fazer), os acertos, os equívocos, enfim, numa espécie de prestação de contas in extremis.

 

Ah, os amores, as lembranças de Mônica, “beleza de belle époque”, Sílvia, sua ex-mulher, o tesão pela secretária, o enfermeiro previsível, o irmão morto, enfim, a certeza tardia de que a vida tem que ser vivida e não racionalizada!

 

Certamente que o êxito de Concreto Quase, enquanto objeto literário, precisa ser creditado ao talento do ficcionista Fabiano Novais. O charme das memórias do doutor Antônio, portanto, se deve à habilidade do autor que, além do mais, conecta as lembranças do personagem com o contexto, dialogando com Shakespeare, Wilde, Kafka, Drummond, Cazuza, Arnaldo Antunes, Jesus, a insônia e a colostomia.

 

Eis que, na segunda parte, nosso anti-herói empreende uma viagem pro – adivinhem – litoral sul da Bahia. Nova Viçosa, Caravelas, Alcobaça ou Cumuruxatiba?

 

Não importa o endereço do paraíso ou do quase paraíso, importa aqui entender que a viagem é mais simbólica do que literal.

 

Com as palavras finais, o doutor Antônio:

 

“E saio correndo com os braços abertos, como pássaro a voar pela primeira vez, livre de tudo que me prende ao mundo, livre do meu próprio corpo. E o vento no rosto, numa alegria que deve durar por toda a vida, e além dela...”

 

Você também vai apreciar Concreto Quase, Athylla Borborema. Boa leitura!

A. Zarfeg