05/05/2016 Número de leitores: 1890

FORMA E FUNDO

A. Zarfeg Ver Perfil

Quando lhe dava na telha, oferecia os lábios. Quando andava na chuva, era toda ouvidos.

 

A missão dele (prova de amor?) era alcançar a mão dela (de preferência a esquerda) e agarrar-se àquela eternidade, posto que provisória, e mandar ver...

 

F: Telhado de vidro...

 

F: Tomara que chova...

 

F: Tudo que eu queria...

 

F: Céu de desejos...

 

De repente choveu forte, barbaridade, mas o telhado resistiu heroicamente, pau pra toda obra, porteira nova que não leva desaforo pra casa. Bateu, ecoou.

 

Então resolveram adiar o passeio para, quem sabe, após a ave-maria?

 

F: Molhadinha...

 

F: Só se for agora...

 

F: Nunca!

 

F: Que a chuva passe...

 

Passar é da natureza dos fenômenos, não da arte, cujo verbo predileto é ficar...

 

F: A chuva passou...

 

F: Fica comigo...

 

F: A chuva... passou!

 

F: Fica comigo...

 

F: Sigamos a chuva!

 

F: De mãos dadas?

 

Quem dera! Precisava se esforçar, economizar fôlego e correr atrás dela, porque sem ela não era nada... Ela sem ele era alguma coisa?

 

F: Me dá a mão!

 

F: Mais rápido!

 

F: Impossível!

 

F: Fundinho...

 

Ainda se divertia às custas do coitado!

 

F: Por quê?

 

F: Se somos um, né?

 

F: Vice-versa...

 

Agora, já tocava o mindinho, ah, se eu te pego, em disparada, vou me realizar!

 

F: Fracote!

 

F: Delícia!

 

Mas a chuva voltou forte, e foi-se o que era doce, melhor, enxuto.

 

F: Minha perdição!

 

F: Sebo nas canelas!

 

Tão próximos e, ao mesmo tempo, tão distantes, forma e fundo, corda e acordo!

 

Viraram a esquina da rua principal e, agora, se perderam nas vicinais do mundo de meu Deus. De mãos dadas, mano e Maria.

 

F: Mermo?

 

F: Dera! 

A. Zarfeg