31/12/2016 Número de leitores: 411

Análise semiótica da narrativa bíblica "A prova de Abraão"

Marcos Mendes Ver Perfil

Neste texto, verifica-se que há um contrato entre Abraão e Deus, sendo que Deus (destinador manipulador) manipula Abraão (sujeito de fazer). É importante citar que Abraão pertencia a uma religião que considerava o holocausto como um sacrifício oferecido ao seu Deus e que, por conta disso, Abraão não questiona o fato de ter que sacrificar o seu próprio filho, ou seja, aceita o contrato proposto pelo destinador manipulador Deus, demonstrando sua fé, temor e obediência.

Para além disso, é possível também afirmar que a manipulação exercida por Deus se dá por intimidação, pelo tom verificado em sua fala, isto é, pelo uso do modo imperativo, que expressa uma ordem.

Prosseguindo na análise do nível narrativo, nota-se que Abraão tem competência (ele é capaz de erguer um altar, obter a lenha e demais ferramentas necessárias para realizar a perfórmance) e que, pelo fato de ter aceitado a manipulação, se prepara para matar Isaac, este que, no caso, é objeto de valor.

Após, quando Abraão está com tudo pronto para realizar a perfórmance, surge um anjo e o impede de concretizar seu ato, sendo que, portanto, esse anjo exerce o papel actancial de destinador-delegado de Deus.

Não obstante, o anjo efetua uma sanção cognitiva positiva para Abraão ao dizer “(...) agora sei que temes a Deus, pois não me recusaste teu filho único.”

Considerando o fato de que o anjo fala em nome de Deus, pode-se dizer que ele exerce o papel de destinador manipulador delegado.

Entretanto, Abraão, ainda manipulado, tenta e realiza a perfórmance ao sacrificar um cordeiro em holocausto no lugar do seu filho.

Finalmente, o anjo, ainda no papel de destinador manipulador delegado, sanciona Abraão positiva e pragmaticamente ao declamar “(...) eu te abençoarei e tornarei tão numerosa tua descendência como as estrelas do céu (...)”.

Marcos Mendes