03/06/2017 Número de leitores: 71

JE NE SUIS PAS CHARLIE

PAULO MONTEIRO Ver Perfil

Sem dúvida uma mancha na reputação desse país tão belo e que tantas e tão maravilhosas contribuições tem dado à Humanidade, mas que lamentavelmente dá vazão a um sentimento profundamente disseminado, que se alastra como câncer por vários outros países do Velho Continente – e alguns com História tão rica e gloriosa quanto a da pátria de Rimbaud e de Verlaine -, a "charge" publicada pelo semanário satírico Charlie Hebdo, na qual retrata a Ministra da Justiça da França, Christiane Taubira, como uma macaca, num país onde o racismo está profundamente entranhado e o epíteto de "macaco" – com todo o respeito pelo simpático animal, que nada tem a ver com esta discussão -, quando direcionado a uma pessoa de cor, tem um peso muitíssimo maior do que teria no Brasil, por exemplo, onde a questão racial assume formas mais sutis – mas talvez tão perniciosas quanto, em outros aspectos – e colorações mais brandas a nível de xenofobia apenas, é SIM uma ofensa gravíssima e uma manifestação pública de intolerância e desprezo, inadmissíveis para uma nação que orgulhosamente se diz civilizada.

Querer suavizar tal comportamento, equivaleria a dar aval a que cada um de nós agredisse o outro publicamente de forma desrespeitosa e ofensiva apenas por ser diferente, pela cor, pela nacionalidade, pelo sexo, pela religião, ou por qualquer outro tipo de diferença, o que, na prática, significaria um passaporte de retorno à barbárie e um desrespeito à memória e ao legado – tantas vezes conquistado pelo sangue e pelo sacrifício - de grandes homens, como Gandhi, Martin Luther King, Abraham Lincoln, Mandela, Maomé, Sidarta Gautama, entre muitos outros, e, acima deles todos, do próprio Jesus Cristo.

Irrelevante distinguir nesse caso a forma escolhida para a violência: se a mera agressão física, a palavra – que, como todos sabem, pode ferir mais do que a mais afiada das facas – ou a "charge" usada pelo semanário francês. O que vale aqui é a intenção! E a intenção foi claramente a de ferir publicamente pelo desprezo e pela ofensa. Querer disfarçar isso sob a "capa" oportunista de que se trata apenas de uma "charge", uma brincadeira, ou uma sátira, como eles covardemente propagam, é querer tapar o sol com a peneira, como dizemos em português corrido. Tudo tem um limite e, se ultrapassada essa fronteira, a brincadeira, a sátira, a paródia, ou qualquer outra forma de expressão passa a ser apenas tão somente uma agressão, um desrespeito ao outro e uma ofensa, e como tal deve ser encarada e punida.

Da mesma forma, invocar a liberdade de expressão e, por tabela, a liberdade de imprensa, para com isso desrespeitar, agredir e ofender um ser humano e/ou as instituições e as crenças que ele professa, é de uma hipocrisia e arrogância fora do comum. Desde quando, e em que país deste plano de expiação foi dado a alguém o direito e o poder de escudar-se numa alegada liberdade para gratuita e publicamente agredir o (s) outro (s)? Acaso não é consensual em todas as formas de Direito que a liberdade e o direito de um terminam onde começam os do outro? Não será essa tal liberdade que alegam, mais uma forma de jogar areia na cara dos desavisados? Onde termina a liberdade e começa o crime? É essa a liberdade que você deseja? Porque se for, tenha cuidado com o que deseja: talvez amanhã tal tipo de liberdade possa se virar contra você e lhe atingir...

Nesse sentido, e mudando rapidamente o foco para um país tropical chamado Brasil, não há como deixar de concordar que existe sim a necessidade de regular a liberdade de expressão na imprensa e até nas redes sociais, desde que tal regulamentação vise apenas proteger o direito de todos os cidadãos e instituições (sejam elas quais forem) ao respeito – naquilo que essa palavra tem de mais abrangente - em caráter público e não uma regulamentação que tenha por objetivo ocultar, escamotear e proteger as irregularidades de todas as colorações e matizes (entenda-se por isso, as falcatruas, corrupções, "lavagens de dinheiro", subornos, nepotismos e todas as demais formas de bandidagem que, como já é público e notório, assolam o país) e o esclarecimento público de tais irregularidades, praticadas por privilegiados pelo Poder e pelo dinheiro, contra os demais cidadãos. Fica no ar a dúvida de qual seja o real objetivo dos nossos atuais governantes e das pessoas do Judiciário a eles ligados, quando acenam com tal medida. Mas que há evidentes e ameaçadores sinais de fumaça a pairar, sinalizando claramente a segunda opção, isso nenhuma mente mais avisada e isenta poderá negar.

Por falar em Governo brasileiro, é de fato lamentável que o nosso país não tenha estado representado em Paris por alguém de maior expressividade, na Manifestação dos Líderes Mundiais contra o Terrorismo. Sem dúvida, uma causa nobre que até mereceria uma participação mais adequada. Com a ressalva de que, cá entre nós, - se não fosse esse um mero detalhe que não impediria o país de se fazer presente se fosse essa a orientação pretendida - desde quando o Brasil é considerado como um parceiro das lideranças mundiais?

Acorda Alice! Se algum dia houve tal pretensão, elas deixaram de ser uma meta, pelo menos dos atuais governantes, já que juntamente com quase todo o resto do continente sul-americano - ou pelo menos aqueles cujos governantes estão sob a influência direta do Unasul , leia-se Foro de S. Paulo – o país está cada vez mais enveredado na parceria comunista bolivariana, na exata contramão do avanço dos países de Primeiro Mundo. Além do mais, existe também o argumento de que o país já tem seus milhares de mortos anônimos a prantear, na guerra civil sangrenta não declarada que há longos anos inferniza o nosso cotidiano, sem a menor perspectiva de uma solução à vista, embora numa análise mais fria uma coisa possa e deva ser dissociada da outra, já que a reunião em Paris tinha o caráter simbólico de erguer uma bandeira comum contra uma causa bem maior do que a de apenas homenagear os 12 mortos no atentado terrorista. Mas, quem sabe, tenha havido por parte das elites governamentais brasileiras algum pudor em se aliar a tal causa, que repudia todas as formas de terrorismo! Talvez pela sintonia e pelos laços estreitos que mantêm com esses párias. À falta de quem recorrer, resta-nos praticar mais um pouco de tolerância. Ou recorrer às preces!

Voltando à França xenófoba de François Hollande, que já teve como lema "Liberté, Égalité et Fraternité" , é mais do que justa a indignação dos muçulmanos, e também dos católicos, por exemplo, já que a revista em sua sanha desmiolada de provocações, que provavelmente conta com o beneplácito ou até mesmo a conivência de um número expressivo de leitores gauleses, não poupa ninguém de suas "charges" vis, grosseiras e ofensivas , por verem suas crenças e costumes - pouco importando nessas circunstâncias, quando se recorre ao desrespeito e à ofensa pura, se o mundo ocidental delas discorda frontalmente, mesmo quando escudado num avanço civilizacional inegável - serem enxovalhados e ridicularizados em público. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Isso é crime, sim! E nem as eventuais críticas que possam ser feitas aos costumes retrógrados dos islamitas justificariam isso. Uma afronta gratuita, passível de condenação pública em Tribunal Internacional. Leia bem, eu disse Tribunal Internacional, e não me consta que a Charlie Hebdo tenha requisitos éticos e técnicos para isso; a não ser que se convencione que um dos requisitos para tal fórum seja a excelência artística do traço e do desenho de Wolinski & Cia., uma possibilidade no mínimo esdrúxula.

É altamente recomendável que seja franqueado aos réus, aos editores da revista e seus partidários, nos intervalos dos julgamentos, a leitura do livro "A Grande Degeneração ( A decadência do Mundo Ocidental)" do polêmico historiador escocês, Niall Ferguson, que usa esse título bombástico - mas não as "charges" virulentas a que esse contingente de forçados leitores está acostumado - para por a civilização ocidental no divã. Não seria talvez caso para tanto alarme, até porque para sacramentar essa tese necessitaríamos de alguma outra civilização que a sobrepujasse, o que está muito distante de ocorrer, já que nenhuma das medíocres alternativas ideológicas – aqui incluída a variante cubana hoje em voga nos trópicos - que foram colocadas em laboratório para observação, chegou a abalar essa hegemonia, até ao momento. Mas que o elevadíssimo grau de xenofobia observado nos países europeus acende o sinal amarelo acende sim.

Mas, atenção! Antes que algum apressadinho pense que, por condenar as "charges" da Charlie Hebdo, existe alguma intenção de tentar justificar os atos praticados pela escória terrorista, PRETENSAMENTE ocasionados pela exposição de tais "charges" profundamente desrespeitosas e ofensivas, por ela publicadas contra a religião muçulmana e a figura de seu profeta, e até contra a cultura de uma raça, vou logo lembrando que a humanidade realmente civilizada há muito deixou de praticar a Lei de Talião e há já alguns séculos que foram criadas instituições conhecidas como TRIBUNAIS, que se encarregam de fazer Justiça e impedir que cada um de nós  tente fazer justiça pelas próprias mãos; e, como até prova em contrário, me julgo dentro dessa elite que se sabe vivendo em pleno século XXI - privilégio que com toda a certeza não se estende  à escória terrorista em geral -, jamais usarei qualquer tipo de argumento que se valha desses procedimentos, digamos assim, anacrônicos e primitivos, para validar qualquer tipo de agressão, muito menos tendo ela sido horrenda e desproporcionalmente violenta como foi a de Paris. Se alguém não entendeu isso ainda, sinto muito: acorde, pois está vivendo no século errado, ou então faz parte do elenco de "De Volta para o Futuro" e não se tocou.

Terrorista é terrorista e ponto! Não existe argumento algum que possa validar, justificar, ou sequer atenuar as consequências de seus atos hediondos. Sujeito, portanto, a todos os desdobramentos previstos pela Lei, deste e do outro Plano.

Finalmente, cabe aqui a ressalva de que é mais do que justa e validada por qualquer Tratado elementar de Direito, a atitude defensiva dos países que são atacados ou ameaçados por fundamentalistas e terroristas, e que fique bem claro que tal atitude não deve ser confundida com preconceito ou xenofobia, mesmo quando tal prevenção lamentavelmente atinja uma maioria pacífica, que alega não ter por que ser discriminada. Discriminada, certamente não, mas que há bases sérias para ser atentamente observada – e isso pode causar alguns sérios desconfortos - já que ser humano algum traz rótulos na testa, e se sabe já os estragos que um único terrorista pode vir a causar, isso é inegável. Delimitar a tênue fronteira entre um procedimento e o outro, eis o grande desafio dos países de Primeiro Mundo.

Como foi muito bem argumentado pela americana Brigitte Daniel: "há 1,2 bilhões de muçulmanos no mundo e a maioria deles é de pessoas pacíficas; os radicais são estimados entre 15% a 25% dessa maioria, de acordo com todos os Serviços de Inteligência ao redor do mundo, o que dá um número entre 180 e 300 milhões de pessoas dedicadas à causa de destruir a civilização ocidental, uma população tão grande ou maior do que a dos EUA, que decapita e massacra aleatoriamente outros seres humanos se tal lhes for possibilitado; da mesma forma, a grande maioria de alemães na época de Hitler era pacífica, e, no entanto, isso não impediu o Holocausto e a morte de 60 milhões de pessoas; idem para a Rússia de Lenin e de Stalin e para a China de Mao, onde a maioria da população era pacífica, o que não impediu a morte de milhões e milhões de pessoas."

Em todos esses casos, a maioria foi irrelevante e o horror se instalou, porque não houve atitudes preventivas e porque a maioria se omitiu, ou foi irrelevante. A História está aí para nos ensinar. Que sentido tem em repetir os mesmos erros?

É uma pena que Brigitte Daniel no final tenha cruzado a fronteira entre a civilização e a barbárie, e não tenha concluído sua argumentação da mesma forma brilhante, ao apelar para o mesmo radicalismo que condena, quando dispara que já é hora de colocar o politicamente correto no lixo; perdeu uma excelente chance de continuar sendo politicamente correta – algo sempre bem vindo neste mundo de radicalismos, intolerâncias e emoções desenfreadas, que só levam a caminhos sobejamente demarcados pela História da Humanidade - e de fazer a distinção entre uma necessária e mais do que justificada atitude defensiva e preventiva e o radicalismo que também está embutido em sua frase final.

É uma pena que, afinal de contas, essa seja também a via escolhida pela Charlie Hebdo, que optou por responder aos atentados recrudescendo as "Charges" grosseiras e vis que a sustentam e, pior, querendo fazer de tal procedimento, que nada mais é do que um desdobramento sofisticado da medieval Lei de Talião, porta-estandarte de uma pretensa e totalmente equivocada resistência ao Terror. Acorda Charlie!

Sou inteiramente solidário à França e à revista Charlie Hebdo pelos seus mortos, como o sou e serei ao Haiti, ao Sudão, ao Iraque e ao Brasil, em idênticas circunstâncias

Mas não, em tais circunstâncias, JE NE SUIS PAS CHARLIE

Jamais! Tanto em bom português, quanto em bom francês!

 

www.cultseraridades.com

 

PAULO MONTEIRO