04/06/2017 Número de leitores: 136

EM BUSCA DA PAZ

PAULO MONTEIRO Ver Perfil

Até quando assistiremos, mais uma vez ao clamor das pessoas e à emotiva corrente de preces pelas vítimas – algo certamente mais do que justificado -, e, após algum tempo, depois que a mídia esgotar todo o interesse pelo assunto, ao gradual arrefecimento da repercussão do ocorrido e, finalmente, os mais de 120 mortos registrados em novembro de 2015, em Paris constituirão apenas mais uma estatística relegada à frieza documental, repetitiva e aparentemente inócua dos livros de história, aguardando uma nova página a ser acrescentada no próximo e anunciado Capítulo de Horrores . O “Je suis Paris” de ontem irá fatalmente somar-se ao “Je suis Charlie” que o precedeu, aos ecos já longínquos do “11 de setembro”, aos Atentados de Londres e de Madrid, e ao imenso registro de barbáries, provavelmente não tão glamourosas, nem com tão fácil apelo midiático, cometidas no Iraque, no Afeganistão, no Líbano, na Sérvia, na Palestina  e agora na Síria, só para mencionar as que nos vêm rapidamente à memória.

 

Entrementes, a um nível mais profundo, poucas ações efetivamente saneadoras têm sido levadas a cabo, pois as reações que tais atos têm provocado na opinião pública, oscilam apenas entre a solidariedade piedosa da maioria e as reações derivadas da emotividade raivosa de alguns poucos, quase todas elas baseadas em variações mais ou menos sutis da Paleolítica Lei de Talião. E tanto as preces e correntes de solidariedade, indubitavelmente bem-vindas, mas que, perante a gravidade dos fatos, têm significado e efeito quase idêntico ao da omissão impotente e envergonhada, quanto a obviedade do revanchismo, na prática apenas desembocam num recrudescimento de ódios e hostilidades, como nos ensina qualquer relance, mesmo superficial e descuidado, sobre os compêndios de História. Afinal, como bem lembrava Mohandas “Mahatma” Gandhi, “olho por olho e o mundo acaba cego”!

 

Mas essas são lições preguiçosamente assimiladas pela Humanidade, mesmo após ter testemunhado os reiterados ensinamentos de Grandes Mestres, como o citado Gandhi, Martin Luther King, Siddartha Gautama e Jesus de Nazaré. Quer seja por comodismo, por puro egoísmo, ou simplesmente pela cegueira mental que acompanha a espiritualidade rasa, o ser humano opta ou pela omissão, quase sempre amparada pelo véu piedoso da prece e da solidariedade, ou pela irracionalidade ególatra do revanchismo; dá muito trabalho transcender essas duas alternativas, sobretudo porque nos falta uma réstia de amor para buscar e sustentar pelo tempo que for necessário, e ao custo que for necessário, uma solução profunda e verdadeiramente eficaz.  

Como os recentes atos terroristas de Londres sinalizam inequivocamente, nesta que é uma repaginada de antiquíssimos conflitos que permeiam de ódio e de sangue a História das Civilizações, cabe à Europa desempenhar o papel fulcral de Hermes, o mitológico deus grego, Condutor da Luz. Quer pela proximidade geográfica, quer pelos antecedentes históricos que tanto a separam - e por isso mesmo a ligam - do Oriente Médio, quer pela indiscutível supremacia civilizacional, tecnológica e financeira que hoje a distanciam do Mundo Muçulmano, cabe a esse Continente, mais do que a nenhum outro, empunhar o caduceu da verdadeira Sabedoria e gradualmente preencher as brechas que vêm sendo ampliadas continuamente por longos séculos sob a égide das trevas do egoísmo, da indiferença, do desamor e até do ódio, mútuos. 

 

Isso não significa descurar seus próprios interesses, a segurança de seus próprios cidadãos e a defesa intransigente de seus valores, em primeiro lugar. De forma alguma! Por mais que tenhamos admiração por Angela Merkel – e temos - como líder da grande nação alemã e da Comunidade Européia, é difícil concordar com sua decisão que soou demagógica e rescende demais a um tristemente conhecido populismo terceiro-mundista, de simplesmente declarar “fronteiras abertas” aos refugiados de guerra do Oriente Médio, sendo ela sabedora dos riscos que assume. É tempo de fechar ou de regular as fronteiras e de filtrar o acesso migratório, em nome do estabelecimento da ordem e da segurança de todos os nativos do continente, função primordial de cada nação européia; é tempo de redobrar a vigilância e de investigar acuradamente as causas do extraordinário e incomum redobramento do recente fluxo migratório para o continente; mesmo levando em conta o válido argumento humanitário de acolher populações açoitadas pela crueldade cada vez mais horripilante dos senhores da guerra, é difícil ignorar a orquestração malévola por trás dessas maciças movimentações, com o intuito de infiltrar células terroristas em solo europeu e de islamizar o mundo ocidental; é difícil entender por que razão os ricos países árabes limítrofes, como Dubai, Arábia Saudita, Emirados Árabes e Catar, por exemplo, não se dispõem também a acolher esses refugiados; é difícil entender por que razão alguns países europeus, que acolheram tais fluxos migratórios, não reagem com absoluta firmeza à provocação ostensiva – manipulada e orquestrada ou não, vem a dar no mesmo – dos recém-chegados, querendo impor seus usos e costumes na casa alheia: afinal, o mais elementar preceito educacional de sentido universal prega que, enquanto hóspede – caso de um imigrante, em qualquer circunstância - , devemos seguir e respeitar os preceitos e costumes de quem nos hospeda, nos sendo permitir seguir nossos próprios costumes, apenas se não ofenderem ou conflitarem com os de quem nos hospeda. Isso vale igualmente para cristãos, judeus, hinduístas e muçulmanos. E ponto!

 

Hoje que a migração maciça de muçulmanos é um fato histórico irreversível e verdadeiros contingentes de devotos de Alá constituem uma parcela expressiva de habitantes, sobretudo na Alemanha, na França e na Inglaterra e se prevê que, até 2030, representem cerca de 8% da população européia, isso significa que um número cada vez mais numeroso e atuante de pessoas precisa abandonar velhos padrões seculares, ineficazes e egoísticos e assumir um comprometimento efetivo, duradouro, persistente, mas ao mesmo tempo profundamente racional e realista, com esta causa; significa vigilância permanente e precaução redobrada dos órgãos e organismos que se dediquem a essa causa, mas com um olhar mais aprofundado e de longo alcance, empunhando a Luz do Amor e da Justiça de Hermes, o Condutor, inteiramente desatrelada de todos os conchavos e interesses mesquinhos da ganância e do poder de qualquer coloração; significa lutar implacavelmente para conseguir ter poder e autonomia sobre tais “poderes” contrários, fundamentados no revanchismo e no preconceito, até à extinção total dos focos de ódio que estão na raiz dessa barbárie, que nos mostra a face mais negra e cruel do embate de civilizações.

 É quase como caminhar permanentemente sobre a lâmina de uma espada. Um trajeto difícil, espinhoso e de longuíssimo prazo?  Sem dúvida! Mas, com certeza a única via que poderá fazer com que a Luz da Paz e da Harmonia ocupe as colossais lacunas hoje dominadas pelas trevas do Ódio, do Ressentimento e da Ignorância, com todas as consequências terríveis e nefastas que vimos assistindo cotidiana e repetidamente, numa frequência e proximidade a cada dia mais assustadora. Todas as demais ações são apenas reparadoras e necessárias, mas sempre um mero paliativo, perante a gravidade e extensão da doença que se alastra nas camadas mais profundas.     

 

A Luz e o Bem sempre terão inteira preponderância sobre as trevas e o mal! As trevas só existem e espalham suas sombras toscas e mal urdidas nos espaços não ocupados pela Harmonia e pelo Bem, para nos mostrar que ali há necessidade da presença da Luz! E as trevas persistirão, semeando seus frutos cada vez mais amargos e dolorosos, enquanto a Luz não fizer refulgir ali seus raios de Justiça, Amor, Racionalidade, Humanismo Civilizacional e Inteligência, em seu sentido mais amplo e profundo.

 

PAULO MONTEIRO