16/06/2017 Número de leitores: 97

VIVA O EXTRAORDINÁRIO

PAULO MONTEIRO Ver Perfil

 

Manhã de sábado, ao volante e solitário em uma “freeway” Floripa/Curitiba anormalmente amigável, com seus horizontes abertos a prometer um final de semana com tudo por escrever, era uma sensação que se renovava, agora enriquecida pelos benefícios que o tempo premiava com um ritmo mais reflexivo. Tal era o identificado  “playground”  de telúrico prazer onde a baleia paleolítica, que assomara das profundezas oceânicas que carrego na alma, e ressurgira outrora na quietude atemporal dos fundos de piscinas, nos quais, durante a infância, me mantinha submerso e extático, plasmava agora o seu próprio e redescoberto “habitat”. 

 

Quer tenha sido pelas emotivas reminiscências do pacífico cetáceo ancestral, quer pela excitação de trafegar pelo desconhecido, quer pelo enfileiramento de “hits”  dos Pixies, dos Drowners e do Woods - estraçalhando nos “riffs” de guitarra de “With Light and With Love” -, uma trilha sonora habitual na estrada, o fato é que o aguçamento dos sentidos levou-me à percepção de detalhes que usualmente me teriam passado despercebidos. Logo eu, notório distraído, cuja capacidade de observação para minúcias do meu entorno beira a absoluta nulidade.

 


No aguardo do momento propício para ultrapassar os gigantescos caminhões que seguiam na mesma rota, aproveitei para esmiuçar os dizeres inscritos nos para-choques: “Quem ama cuida”, “Deus é a Luz do meu caminho”, “Em rio de piranha jacaré nada de costas”, “Unidão apoia: “Crack nem pensar”, “Deus dá o juízo, a cachaça o tira”, entre tantos outros aforismos que reproduzem o fio de pensamento condutor dessa camada mais direta do nosso povo, enquanto acompanhava a sucessão de “outdoors” que, em pontos estratégicos, ocupavam  as margens da rodovia.

 


Na divisa de Barra Velha e Joinville, um desses, mais afoito, convidava: “Entenda o Apocalipse, em livros, palestras e DVD’s”, e o inusitado apelo ao ocultismo levou-me a questionar com meus botões se, particularmente, conseguiria ter a ousadia necessária para tentar cruzar os portais dos aterrorizantes cataclismas, que na certa me seriam prometidos, enquanto admirava a praticidade e oportunismo daquela criatura, que, na antecâmara de tantas e tão calamitosas desgraças, conseguira encontrar ânimo e disposição para não descurar dos cuidados com a comezinha sobrevivência do dia a dia; afinal de contas, se investira em tantas mídias para propagandear o fim do mundo próximo, é porque certamente seria adepto do otimista ditado luso: “Enquanto o pau vai e vem, folgam as costas”!


Alheio a tal espectro sombrio, o grupo Fanfarlo exultava em “We’re the future”, oferecendo dançante pano de fundo para o dia luminoso de outono e o carro ondulava pelas verdejantes e extensas planuras do litoral norte catarinense, trazendo à tona uma sensação de “déjà vu” que remetia a sonhos vívidos e recorrentes nos quais me “sentia” em solitária cavalgada, flanando na “imensitude” (estupendo neologismo que propõe a simbiose entre imensidão e quietude) das estepes russas de alguns séculos atrás e despertavam a mesma sensação de plenitude que experimentava agora. 


Chegara, porém, à fronteira com o estado do Paraná, nos contrafortes da Serra de Dona Francisca – terra de gente cordial e hospitaleira, serranos de parcos convívios, mas amaciados pelo singelo cultivo de orquídeas – e a solar paisagem catarinense já fora bruscamente substituída pela úmida e fosca neblina que caracterizava a prolongada subida da Serra, trecho ermo em que apenas os variados avisos de trânsito pareciam coexistir com os onipresentes “outdoors” e a luxuriante vegetação da Floresta Atlântica do Paraná; eis que, de repente, numa dessas curvas do destino -  ou do imaginário fantástico - uma topetuda calopsita pareceu pular para fora do cartaz onde fora aprisionada, para ganhar vida e, marotamente piscar para mim enquanto sentenciava:          

“Aqui qualquer topete fica famoso”! 

 

A essa altura, eram quase palpáveis os sutis liames a unir e dar sentido às várias vidas pregressas evocadas no decurso dessa jornada de autoconhecimento, ilusoriamente separadas por barreiras de tempo e espaço, mas que conduziam indisfarçadamente ao garoto tímido que se deliciava com os primaveris sons que só ele parecia perceber no silêncio dos campos de milho do Minho português e desembocavam no adulto introspectivo que “viajava” ao volante, numa rodovia do Sul brasileiro. O sinuoso trecho de serra tinha já ficado para trás há alguns minutos e o carro deslizava cauteloso pelo asfalto molhado no altiplano que dava acesso à capital paranaense, quando  a inesperada e divertida visão de um “outdoor” no qual um castor dentuço advertia:  “Não durma no volante...durma num colchão Castor”, fez-me tornar consciente de um leve cansaço, talvez anestesiado pelos sussurros do “crooner” australiano,  Steve Kilbey,  na inebriante balada, cujo nome,“Intense”, selava um anticlímax para a sucessão de eventos tão ordinários e, no entanto, mágicos.   

 

Eis que, já na periferia de Curitiba, desponta um derradeiro “outdoor” divulgando um daqueles espigões que proliferam como preás no cenário das urbes modernas; nele, um monólito vertical, “kubrickiano” no enigma de sua imponência, erguia-se em direção ao infinito do firmamento, enquanto em letras garrafais, se liam simplesmente os dizeres:

 

 
“Viva o Extraordinário”!

 

 

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PAULO MONTEIRO