15/08/2017 Número de leitores: 38

A CONCHA DE LIZA (Ecos no Divã)

PAULO MONTEIRO Ver Perfil

 

 

 

 

Há dias em que me sinto estranhamente distante de mim

A suspirar por vivências abstrusas que nem ouso sonhar

A desejar ser qualquer um, ou alguém diferente de mim

Dado às neuroses e a amores espúrios que sequer mereci

Ser nada em estados alterados de espírito alheios a mim

 

Pode ser banzo, memórias ou simplesmente um vazio

Quem vai saber?A realidade escapole entre os dedos

E Liza se foi há muitos anos, ou há muitas vidas atrás

Mas, no entanto, é ela que me beija e com ternura diz:

“Ó Paulo, vamos andar ao sol na orla de Matosinhos?”

 

Passeio à beira mar a catar conchas e sonhos para Liza

Mas o sol já se pôs e percebo que ela não está mais ali

Somente um velho pescador que se acerca e murmura:

“O mar sempre nos traz a mesma dor de o querer sentir”

E devolvo ao mar a concha e a perplexidade de existir

 

Pairo na ostentação luxuriosa dos verdes amazônicos

Tropeço numa carapanaúba de liames entrelaçados

Desnorteado pelo estridular de uma trupe de araras

E vejo um mutum que leva no bico a concha de Liza

E no dorso emplumado reluz a palavra: “nunca mais”

 

Entro em casa com a alma ausente, os pés sujos de areia

E a mãe a ralhar: “Não me pises na alcatifa, que é persa”

Retorno, corto fora os pés, reentro pela porta de serviço

E penso que assim poderiam ter sido as minhas escolhas

Apenas um simples tapete que me fizesse desistir de mim

 

 

Já é noite e recordo que preciso partir com destino incerto

Eu, meu cão, os livros de Steinbeck e uns quês de sanidade

Mas o trem cruza a gare deserta, apita várias vezes e some

Deixando-me só, com essa sina de trilhas há muito traçadas

Aprisionado entre futuros oníricos e os grilhões do passado

 

 

 

PAULO MONTEIRO