08/07/2018 Número de leitores: 131

Crônicas de campo: A tricoteira do cárcere

Nina Veiga Ver Perfil

Num convés batido pelo vento. É noite. Uma mulher ainda bastante nova, de vestido até ao chão, vem do lado da proa a correr e aos tropeções. Enrodilham-se-lhe as saias nas pernas pouco seguras. E ela avança pelo convés, amparando-se à parede, que tem portas, janelas, tudo fechado por dentro. Parece perseguida. Mas será só a grande ventania que a molesta e assusta. 

Ela corre, tropeça, tacteia com desespero. E acaba por encontrar uma porta que cede, entra rapidamente, fecha-a com toda força que tem, tal é o temporal. E deixa-se ficar encostada a essa mesma porta, de cabeça inclinada para trás, o queixo aponta-lhe para o ar, na continuação da linha do pescoço invulgarmente esguio, cansada e ofegante.

Sabia que corria perigo ao aceitar a carta, mas a perspectiva de tocar-lhe a mão, mesmo que por um breve momento, deixara-a privada da razão. Ah... a razão! De que serve uma vida arrazoada? De que serve conduzir-se sempre aos gonzos? 

Ana estava com vinte e três, acabara de formar-se em Direito pela Universidade de Coimbra. Minha filha bacharel em Coimbra como Salazar! O sonho do pai realizado. E o meu? O que desejo não conta? Jamais gostei do Direito! Por mim, passava os dias a coser, a tecer, a bordar. Nada me faz mais feliz do que estar a fazer malha. 

Foi por isso que aceitou a tarefa. Quando fosse presa, Lei n. 1091 de 21 de Maio de 1935 - associação secreta (pelo menos para isso serviu-me o Direito), presa passaria o resto da vida a tecer meias. Ria para si mesmo do disparate da ideia e voltava a sentir falta de ar. Agora que estava molhada e com a carta, começara a perceber a dimensão da sua ousadia. Ainda lembrava-se a voz: "Sempre vim, como vê". Mas era louco, arriscara-se muito. Sua voz era pausada, um falar mais tranquilo ninguém podia ter: "Nunca saberei dizer o quanto a agradeço. Não esquecerei isto nunca mais". Fitando-a sempre, tirou do bolso a carteira, pegou na carta, passou-lha às mãos. 

Naquele momento, sentiu a força da existência. As mãos dele tocaram as suas por um instante que lhe pareceu eterno. O calor do toque invadiu-lhe o corpo inteiro: "Talvez um dia voltemos a encontrar-nos em Lisboa". Vá-se embora, já arriscou-se imenso. Ouvia a sua voz falando e negava-se a acreditar. Se desejava que ele ficasse, também desejava que partisse. Sem demora.

 Fitava-a nos olhos como se isso fosse um beijo, uma carícia. Nunca tinha vivido um minuto como aquele. Ele voltou a apertar-lhe a mão: "Até um dia, sim?" desapareceu. Ela ficara de pé, paralisada em meio ao convés até que a chuva forte começou a molhar-lhe a alma. Lembrou-se, pois: a carta! Saiu em disparada, lutava contra o vento, sentindo o corpo vibrar. Poderia - sim - agora ser aprisionada para o restante de seus dias. No cárcere, o calor das mãos dele moveriam as suas em cada fieira tecida, em cada volta e ponto que fizesse com a agulha.

Nina Veiga