08/07/2018 Número de leitores: 60

Crônicas de campo: A bordadeira viajante

Nina Veiga Ver Perfil

Sentada nos fundos da carruagem, ia pensando em quantas vezes havia feito aquela mesma viagem no último ano. Uma rotina que se repetia semana após semana: levantar antes do sol, vestir-se em silêncio, ir à casa de banho sem acender as luzes para não acordar ninguém. Depois, andar pela rua escura até à estação, aguardar na plataforma fria que o comboio chegasse e embarcar rumo ao conhecido. Se pelo menos o itinerário variasse, pensava ela, um pouco rabugenta, esquecendo-se, por um momento, que estava realizando um sonho há muito desejado, que estava a fazer exatamente o que mais gostava. 

Repetia aquela viagem todas as semanas nos últimos anos, ia de Lisboa ao Porto, no primeiro comboio e, doze horas depois, voltava no último. Chegava à casa exausta, depois de ter passado o dia todo e parte da noite a dar aulas de bordado na histórica Loja dos Bordados do Porto. 

As raparigas entravam no bonito salão nos fundos da loja, com as suas caixas de costura decoradas, orgulhosas ou apreensivas pelas tarefas que haviam realizado, durante o intervalo de uma semana, entre uma aula e outra. Vinham mostrar-lhe o desenvolvimento do trabalho. Traziam o bastidor tensionado, tecido rijo entre as madeiras circulares. Os pontos formavam pequenas filigranas coloridas que, na maioria das vezes, pouco expressavam quem os fazia. 

Quando, ao invés de lições de casa regulares e corretas, percebia, num bastidor, alguma expressividade, algum traço de inventividade, não conseguia evitar, o seu coração acelerava e, sabia, traía a neutralidade da sua expressão, com um meio sorriso que comprimia o canto direito da boca e a fazia, irresistivelmente, morder de leve o lábio inferior. Era sempre assim, não conseguia evitar. As alunas mais antigas já a conheciam suficientemente para perceber os seus trejeitos e cochichavam quando acontecia. 

Naquela manhã, havia se comprometido consigo mesmo que ficaria atenta para que isso não acontecesse. Precisava manter a aparência de instrutora compenetrada e neutra. Não deves nunca levantar a voz, dissera-lhe o contratante, Sr. Coutinho Ventura, ao instrui-la sobre os hábitos e práticas da Escola Oficinal Feminina, orgulho da Loja de Bordados de Porto, desde 1743. A família Ventura tem formado moças prendadas desde o Império, para nós uma instrutora de bordados é o mesmo do que uma religiosa. Deve educar, sem jamais demonstrar os humores. 

Ana tinha mantido a compostura desde então, já iam quase nove anos, exceto por aquele discreto morder de lábio. Era impossível para ela manter-se indiferente ao perceber que a genialidade, o gosto e a vontade de viver haviam permeado, ao mesmo tempo, o bordado de uma aprendiz. Mordia o lábio discretamente, mas o que estimava mesmo fazer era pular de alegria e gritar: estão vendo, estão vendo? É possível fazer sangrar o tecido! É possível vibrar o corpo entre linhas e agulhas.

Nesses momentos sentia o corpo aquecer, a respiração entrecortava, o coração descompassava. A emoção que sentia era a mesma, sim, a mesma, de quando Carlos a beijou daquela única vez. Era como se o tempo parasse, como conhecer de perto a eternidade. 

Naquela manhã, uma jovem novata, com um coque impecável, aproximou-se pela primeira vez da sua mesa para receber a avaliação semanal. Pedia internamente que, acontecesse o que acontecesse, não expressasse nenhuma emoção. Foi quando viu a incrível e terrível mancha entre um rococó e um nó francês. Desculpe-me, professora, magoei-me com a agulha ao fazer o ponto haste. Logo abaixo da mancha, um ponto novo, indescritível, formado por uma miscelânea de fios entrelaçados. Uma composição única. Uma forma original. Sabia que não havia sido descuido, sabia que não tivera sido acidental. Era pura criação, inventividade e originalidade. Instintivamente, cobriu o rosto com as mãos. Só assim, evitaria que lhe vissem a expressão. O que seria de sua carreira de instrutora de bordados quando não mais pudesse esconder-se?

Nina Veiga