02/08/2018 Número de leitores: 142

Crônicas de campo: A varina do Tejo

Nina Veiga Ver Perfil

Uma réstia de luz atravessa o madeiramento da janela, avisando que o tempo passou. Por um breve momento, assusta-se, pensando ter perdido a hora, mas lembra-se que está acamada. A garganta doía-lhe e um leve calafrio percorria-lhe a espinha.

 

Estava na cama, sob as cobertas, mas o corpo sentia falta do vento e do rio. Acostumou-se a acordar antes do sol e ir para a margem esquerda do Tejo, no cais da freguesia, aguardar as pequenas barcas e faluas que trariam os charrocos, bogas, douradas, corvinas e pardelhas que vendia, no ponto em frente ao liceu, desde que era miúda e franzina.

 

Todos os dias, nos últimos 35 anos, quando a vila ainda despertava, já estava ela, com seu o avental de burel, sentada em seu caixotinho de madeira, ordenando os peixes por tamanho e espécie, na padiola que Sr. António, biscateiro, ajudava-a a montar por cinco escudos.

 

Virou-se na cama e pensou, estava velha, o corpo doía-lhe inteiro. Além disso, continuava a divagar, havia de aproveitar o tempo na cama para treinar as letras. A Carminho do 56 estava a ensiná-la. Há mais de dez anos acalentava o sonho de aprender a escrever, mas a lida continuada e as urgências do dia a dia adiavam o sonho sempre para mais tarde. Quem sabe avançava um pouco hoje?

 

Deixa-te de tolices, ana!, disse, dando um raspanete a si mesma, agora deu para bacorar? Está lá, que não vá trabalhar, mas aproveite o tempo para dormir ou fazer coisa que o valha. Estás velha demais para aprender. Riu sozinha, era como ouvir a voz da mãe, sempre a chibar. Sentia falta, acostumara-se aos raspanetes da velha. Ainda muito novinha, ao ver passar as meninas do liceu, com as suas fitas engomadas e os seus livros de capa dura, costumava dizer à mãe: um dia destes, desmonto a padiola e vou-me à escola. Não ia, a mãe sabia e ralhava. O cheiro do peixe impregnava-lhe a vida. Nunca seria menina de fita brilhante e saiote plissado.

 

E assim, a vontade de deixar a banca foi amainando, o tempo passando. A vida escorreu junto à água do balde que usava para lavar a calçada ao fim da tarde quando a venda cessava. Um espirro trouxe-a de volta ao tempo do dia. Precisava levantar-se e preparar alguma coisa para comer. Não deu jeito. Ficou na cama, entre dores presentes e passadas. Variando as ideias entre os tempos do agora e do ontem.

 

Nina Veiga