06/08/2018 Número de leitores: 128

Crônicas de campo: a retrosaria

Nina Veiga Ver Perfil

 

A

cabara de chegar. Vinha carregando pacotes e sacolas, um pouco esbaforida, apesar do frio intenso. Naquela tarde, havia percorrido diversas vezes a Rua da Conceição, mesmo debaixo da chuva fina. Desde a noite anterior, sentia uma coceira nas mãos, uma vontade de fazer algo, mas ainda não sabia o quê. É um desejo de fazer, dizia para si mesmo, uma vontade de estar em contato com a matéria, com o material. Não se importava se iria bordar, costurar, tecer ou tricotar, quando a coceira lhe vinha, precisava colocar as mãos em movimento de construção. Enquanto olhava a vitrine de uma loja de lãs e fios, ficou pensando que também na pesquisa era assim: o contato vinha antes da ideia do que fazer. Estás a consolidar uma metodologia, ana, disse a si mesma, rindo ao olhar seu reflexo no vidro da loja, chamar-se-á: “fui ao armarinho”. Aqui, em Portugal, chamar-se-ia: “ida à retrosaria”, corrigiu-se de bom-humor. Entrou na loja, refletindo que, desde o projeto de pesquisa, havia aplicado essa metodologia. Naquela época, sem ter a menor ideia de como escrever o projeto, pegou tudo que havia lido até então: livros, caderninhos, teses e espalhou ao seu redor. Fiquei vivendo com esse material uns dias, lembrou-se, surpresa. Dormi no meio daquilo, tudo espalhado em cima da cama. Saiu da loja com uma coleção de lãs e linhas diversas, escolhera os tons de terra e os verdes. Estou a plantar-me, divertia-se. Adorava a sensação de não estar submetida a um “paraquê” objetivo. Assim que entrou na Retrosaria Brilhante, ouviu a pergunta de sempre: O que teremos para hoje, ana? era o balconista de uma das mais tradicionais lojas da rua das retrosarias de Lisboa, há mais trinta e cinco anos atendendo no número 56. Não sei ainda, Seu António, estou a ansiar por fazer algo, minha mão está a coçar. O vendedor riu, acostumado aos modos de ser das manualistas. Enquanto passava a vista nos botões, fitas, passamanarias, brocados e sianinhas, voltou a lembrar-se de si entre os livros e cadernos. Fiquei vivendo com os lidos, ia pegando os livros que me chamavam atenção e copiando um trecho. Lia uma coisa, aquilo me dizia, eu escrevia. E isso foi compondo o projeto. O movimento vindo antes da ideia, depois do contato com elementos diferentes, nem sempre previamente combinantes. Até aquele momento, não havia percebido que este modo de agir era um procedimento metodológico. Pensando bem, é sempre assim comigo, primeiro eu mexo, depois eu penso. Um perigo, disse em voz alta, chamando a atenção de Seu António. Já está, escolhestes? Vou levar um metro de cada um, disse disfarçando, um perigo tanta variedade. Sabia que era uma metodologia arriscada. Corre-se o risco de perder-se. No entanto, ajuda a manter o devir, a vida-viva da pesquisa. Impede que a metodologia engesse um modo de existir como experiência. Tirou o casaco e começou a colocar os pacotes sobre o tapete e a abri-los. Espalhou tudo, precisava de muito espaço. Ter pensado neste movimento como metodologia ajudou-a a perceber que isso produz um pesquisar que se mantém rente ao movimento, ao imprevisível, à imanência. Ficou olhando os retroses de linha e os novelos que comprara e pensando em atribuir um nome científico a esse modo de pesquisar, algo como "metodologia da presença". Afinal, é só o que podia garantir: ficar na presença daquilo. O resto é risco, se algo surgir, será depois.

 

 

Nina Veiga