28/05/2005 Número de leitores: 1538

Duas histórias

A. Zarfeg Ver Perfil



Maria e o professor de história
 

 

MARIA só desejava uma coisa na vida: conquistar o professor de História do Brasil. Contudo, ele tentou dissuadi-la daquela idéia.

 

“Maria, você está aqui é para aprender história”, cobrou o professor.

 

Mas Maria pegou tanto no pé dele, que ele resolveu lhe dar uma chance. Então marcaram um encontro.

 

No dia marcado, o professor não pisou lá. Depois se justificou, dizendo que ficara em casa investigando a genealogia de Pedro Álvares Cabral e, concentrado na pesquisa, acabara se esquecendo completamente do encontro. Maria aceitou as desculpas.

 

Um novo encontro foi agendado.

 

De novo, o professor não compareceu. A desculpa?  Optara por participar, exatamente na hora do encontro, de uma mesa-redonda cujo tema era a iminente passagem do Brasil para o tão desejado Primeiro Mundo.

 

Dessa vez Maria ficou muito chateada e chamou o professor de “seu tratante”. E, antes de desistir para sempre daquela conquista, a estudante ainda manteve o seguinte e derradeiro diálogo com o professor de História do Brasil:

 

“O Brasil vai mesmo ser Primeiro Mundo, professor?”

 

“Vai, Maria.”

 

“Quando?”

 

“Na primeira oportunidade. Ou, quem sabe, na segunda. Mas que vai, vai.”

 

Muito decepcionada com o professor que, ao contrário de Napoleão, não parecia lá muito seguro das questões amorosas nem tampouco das históricas, Maria resolveu mudar de estratégia e partir para uma conquista mais, digamos, exata. E, assim, decidiu que era preciso escolher rapidamente uma outra área de ataque. “Em vez desse pessoalzinho inseguro de humanas, vou investir num lance mais cabeça”, raciocinou.

 

Em tempo: Maria se casou com o professor de Matemática, alguns meses depois.




O bibliófilo infeliz

 

Z. amou os livros intensa e loucamente. Da brochura mais singela ao volume mais sofisticado, amou-os com a mesma intensidade e gosto.

 

Amou-os independentemente dos temas e da procedência; independentemente do número de páginas e do tamanho dos títulos. Mais que isso. Amou-os e procurou botar esse amor em prática, lendo de tudo que lhe caía às mãos. Leu e leu, vorazmente.

 

Para se ter uma idéia, só no ano de 1985, ele leu 548 livros. Uma média de 1,5 livro por dia, marca que ele logo procurou superar. Afinal, Z. estava convencido de que viera ao mundo para ler, ler e ler. Só para isso.

 

A bibliofilia de Z. – isto é, a sua paixão pelos livros – tem data certa: teve início no dia 21 de abril de 1980, e durou até o dia 31 de dezembro de 1997, quando Z. nos deixou para sempre, em pleno réveillon.

 

No dia de sua partida fúnebre, Z. lia “Bellini e a Esfinge”, do titânico Tony Belloto, e já pensava no próximo livro: “Verdade Tropical”, cuja leitura ele nem chegou a empreender. Pois morreu de repente... de infelicidade.

 

Pode alguém morrer de infelicidade? No Brasil, tudo é possível – até morrer de infelicidade. A prova disso é que Z. morreu em 31 de dezembro de 1997, em pleno réveillon. Aliás, o passamento de Z. guarda alguma semelhança com o do humanista Petrarca, que morreu em circunstâncias similares: o livro na mão se fecha de repente, como que sob o efeito de um sopro invisível – e is que a chama da vida se apaga suavemente.

 

Há duas hipóteses prováveis para a morte repentina de Z. Primeira, porque se julgava incapaz de ler todos os livros do mundo. Segunda, porque não dispunha de dinheiro para comprar tantos livros.

 

“Por que Z., em vez de se preocupar em adquirir livros, não optou por pegá-los emprestados nas bibliotecas públicas ou mesmo privadas que existem por aí? Até porque, dificilmente, alguém se negaria a emprestar livros a um rapaz tão dedicado à leitura, não é mesmo?”

 

A pergunta faz muito sentido, mas o fato irremediável é que Z. morreu de infelicidade. Isso basta.




A. Zarfeg