11/06/2005 Número de leitores: 423

Postigo num desamor qualquer

Beto Muniz Ver Perfil

Por Beto Muniz



Poderia expressar em letras os meus desertos e suas dunas desmedidas hospedeiras de pequenos oásis, ou poderia revelar as florestas tropicais em mim onde arbustos e velhas árvores dividem pequenas clareiras de folhas velhas, decompostas e úmidas. Discorrer sobre veredas terminadas em penhascos suicidas de onde atiro torrões de terras num rio caudaloso. Dizer dos meus lagos internos, profundos, serenos, frios. Das cachoeiras, da vertigem, dos céus em minha mente ou dos abismos em meu peito. Poderia abrir um postigo e te mostrar o que há de grandioso, fulgurante e solitário em mim. Sim poderia dizer deste astro amarelo aquecendo areias duma praia deserta onde pés descalços imprimem rastros da fome que arde meus olhos. Poderia te mostrar meu coração, sangrando numa bandeja de prata, sendo oferecido ao ser alado. O vôo rasante, fatal, o som das ondas, a quentura da areia grossa, quase pedras que ferem, lancinam e me deixam quedo e quedo dormir. Apagar. Desfalecido, qual moribundo sereno, me fendo em brechas, as duas metades no peito escancaram em espelho e te revela, reflete tua face de vampiro consumindo meus desertos, florestas, rios, lagos, pés, olhos e coração... Este jaz dilacerado entre teus dentes e em pequenas fibras sangrentas numa bandeja de prata posta sobre pedra escura.




Beto Muniz é contista, cronista e editor do lendário site Anjos de Prata (http://www.anjosdeprata.com.br), projeto que nasceu com o romance "Anjos de Badaró", de Mario Prata, escrito on line. Tem um blog pessoal, que só atualiza na 10ª lua cheia de cada ano bissexto (http://betomuniz.blogspot.com/), e é autor de "O Caroço e a Moça", além de ter participado, organizado e editado as cinco antologias de contos & crônicas dos Anjos.

Beto Muniz