14/06/2005 Número de leitores: 655

Waly: uma trans-sintaxe + trilogia enviesada

Jussara Salazar Ver Perfil

Por Jussara Salazar



 

 

 

- Indique-me sua direção, onde você se encontra agora?

- Estou exatamente na esquina da Rua Walk com a Rua Don?t Walk.[1]

     Foi dialogando assim, encurralado em um jogo de armar caótico, desarmado e alvejado por si próprio, que Waly Salomão escreveu uma obra poética inaudita e contundente, nesse mar de escassos peixes que tem sido a poesia brasileira (cai como uma bomba/sem carta/o suicídio do solitário)[2].

     Passados dois anos de sua morte em maio de 2003, percebe-se que naquele ponto do espelho onde vivia Waly salut au monde[3], ficou a vaziez aberta de um oceano. Waly, ali naquele aleph borgiano apurando a vista e mandando bala no escuro, café coado, cafungando doses diárias de Murilo e Drummond, como escreveu no poema Orapronobis, na tira-teima do  lápis de ponta fina desenhando o mundo detrás da serra.

     Tautológica estridente flor parabólica (fiz tudo ao contrário.../vim da dureza feito gumes/...desavim...pontudo...áspero e intratável como o cacto libertino), Waly possuía na voz a dicção de uma autonomia audaciosa, cuja força achava-se muito nos delirantes e subterrâneos versos e letras de música que escreveu. Na mão do contracultural/experimentado dos setenta, agitou de maneira determinante a cena brasileira com Torquato Neto + o bicho-parangolé Hélio Oiticica e outros - época da publicação da então revista Navilouca.

     Em Hic et nunca aqui e agora ? Incorporo a revolta[4] descreve um retrato da cultura brasileira e do panorama social como poucos o fizeram até hoje. ?Com a morte de Hélio Oiticica morre o indivíduo malandro e morre o culto à malandragem. E nasce o reinado sinistro do Crime Organizado, radical no anti-romantismo. Os Comandos estruturados como híbridos de partidos políticos totalitários, fanáticos religiosos e esquadrões de extermínio. Rambos-senderistas luminosos beatos.?... ?Na favela de Vigário Geral, Flávio Negão possuía um haras, desfilava montado à cavalo, lia a Bíblia e sabia salmos e salmos...também demonstrava forte devoção à São Jorge, cavaleiro solitário do manto vermelho escarlate. Quando desfilava montado pela favela, mentava ser o santo guerreiro:  Sou eu quem durmo tarde/sou eu quem acordo cedo/sou eu quem realço tudo/sou eu quem não tenho medo. Sua lança: uma AR 15.  Ogunhê!!! E Waly interroga: Como realizar a idéia de Kant da ?hospitalidade universal? em seu ?Projeto para a Paz Perpétua?, e partir do reconhecimento do ?meu? e do ?teu?, sem ser questão de filantropia mas sim de direito??

     ( pois brasil é buraco de cárie/paiol de banguelas/poço cego )

     Waly queria a pedra de tropeço transmudada em pedra de toque, queria escrever ?tateando como se experimentasse saber das coisas que não sabia ainda que se sabia.? A passagem dos caos ao cosmos. Como Klee, ?atingir o coração das coisas.? Mas também se sabia o arauto das coisas belas, da poesia mais delicada, memória das sírias sedas trazidas nas arcas de sol perambulando pelos oceanos ( Pára de ondular, agora, cobra coral:/a fim de que eu copie as cores com que te adornas,/a fim de que eu faça um colar para dar à minha amada,/a fim de que tua beleza/teu langor/tua elegância/reinem sobre as cobras não corais).

     Lembro do dia em que o conheci e de como me impressionou aquela figura escandalosamente original. Recordo depois alguns papos e a generosidade das palavras em meio às histórias, como se estivesse sempre pronto para o embarque em algum navio solar (Nunca viste o narguilé de ouro que tua avó paterna/- Kadije Sabra Suleiman-/exibia e fumava nos dias festivos).

     Seu grande projeto de convergências e divergências mantém-se insubstituível (na minha mente é que as rosas desabrocham/e esplendem). Conserva-se armado seu tabuleiro de Palavras-Souvenirs, sob o signo de um tempo revolucionário e de devorações questionadoras, mirando e mirando as muitas margens de seu rio de ouro e brocados, sua estridente e bainárabe[5] doçura do mel (oh minha grande obsessão/oh minha honey baby). Fica-nos a riqueza de seu reino de poemas-palmeiras, frutos bólides de uma genuína operação anti-afasia. (A cidade é um grande livro aberto e o dorso do tigre será decifrado enquanto escritura torta de um Deus esfumaçado).[6]

     Salve Waly!




 

 

TRILOGIA AO MODO ENVIESADO DE WALY SALOMÃO

 

 

ESTÉTICA DA RECEPÇÃO

 

Turris eburnea

Que o poeta brutalista é o espeto do cão.

Seu lar esburacado na lapa abrupta. Acolá ele vira onça

E cutuca o mundo com vara curta.

O mundo de dura crosta é de natural mudo,

E, o poeta é o anjo da guarda

                       Do santo do pau oco.

Abre os poros, pipoca as pálpebras, e, com a pá virada,

mija em leque no cururu malocado na cruz da encruzilhada.

Cachaças para capotar e enrascar-se em palpos de aranhas.

 

Ó mundo de surdas víboras sem papas nas línguas cindidas,

                        serpes, serpentes

já que o poeta mimético se lambuza de mel silvestre,

carrega antenas de gafanhoto mas não posa de profeta:

                                              ?Ó voz clamando no deserto?.

Pois eu, pitonisa, falo que ele, poeta,

             não permite que sua pele crie calo

dado que o mundo é de áspera epiderme

                        como a casca rugosa de um fero rinoceronte

                        ou de um extrapoemático elefante

posto que nas entranhas do poema os estofos do elefante

            são sedas

                          delicadezas

                                           carências de humano paquiderme.

É o mundo ocluso e mouco amasiado ao poeta gris e oco.

Caatinga de grotão seco atada à gamela de pirão pouco.

Suportar a vaziez.

Suportar a vaziez como um faquir que come sua própria fome

e, sem embargo, destituído quiçá do usucapião e usufruto do tino

com a debandada de qualquer noção de impresso prazo de jejum.

                            

                            Suportar a vaziez.

                            Suportar a vaziez.

                            Suportar a vaziez.

Sem fanfarras, o vazio não carece delas.

 

 

 

(Tarifa de embarque)

 

 

Tarifa de embarque

 

Sou sírio. O que é que te assombra, estrangeiro,

Se o mundo é a pátria em que todos vivemos,

Paridos pelo caos?

       - Meleagro de Gádara, 100 anos a.C.

 

Não te decepciones

ao pisares os pés no pó

que cobre a estrada real de Damasco.

Não descerres cortinas fantasmagóricas:

camadas de folheados

                        - água de flor de roseira

                        - água de flor de laranjeira ?

que guloso engolias,

gravuras de aldeãs portando ânforas ou cântaros,

cartões do templo de Baal

e das ruínas do reino de Zanubia em Palmira,

fotos do Allepo, Latakia, Tartus, Arward

que em criança folheavas nas páginas da revista Oriente

na idade de ouro solitária e febril

por entre as pilhas de fardos de tecidos

da loja Samira;

arabescos, poços, atalaias, minaretes, muezins,

curvas caligrafias torravam teus cílios, tuas retinas

no vão afã de erigires uma fonte e origem e lugar ao sol

na moldura acanhada do mundo.

 

Síria nenhuma iguala a Síria

que guardas intacta na tua mente régia.

 

Nunca viste o narguilé de ouro que tua avó paterna

                            - Kadije Sabra Suleiman-

exibia e fumava e borbulhava nos dias festivos

da ilha de Arward.

Retire da tela teu imaginário inchado

de filho de imigrante

e sereno perambule e perambule desassossegado

e perambule agarrado e desgarrado perambule

e perambule e perambule e perambule.

Perambule

- eis o único dote que as fatalidades te oferecem.

Perambule

- as divindades te dotam deste único talento.

 

 

(Tarifa de embarque)

 

 

 

FALAX OPUS

OBRA ENGANADORA

Como se fosse dialogando com Zé Celso Martinez Correia

 

- Falar é fogo-fátuo

 

Chego e constato:

- Teatro não se explica

Teatro é ato

 

Afônico sim, afásico não

Eu, poeta, perco a voz

E quase me some o nume

Ícaro caído

Asas Crestadas pelo sol

Dos refletores

Caricatura de Ícaro

Sapecado

 

Estatelado no átrio pergunto:

- Aonde eu entro?

Onde eu entro?

 

Um eco cavo cavernoso retruca:

- No entreato

No entreato

No entreato

 

 

 

(Armarinho de miudezas)

 

 

 

1.imagem de Waly Salomão: montagem a partir de fotografia de Geraldo Melo.

2. imagem 2 : Hélio Oiticica executa ?parangolé de cabeça?, no poeta waly salomão, foto de Andreas Valentim.

 

 

 

O poeta Waly Salomão (1943-2003), nasceu na Bahia e publicou uma obra importantíssima entre livros e letras de música. Publicou Me segura que eu vou dar um troço( José Álvaro Editora, 1972), Armarinho de miudezas (Fundação Casa de Jorge Amado, 1993), Algaravias-Câmara de ecos

(Editora34, 1996), Hélio Oiticica: Qual é o parangolé? (Relume-Dumará, 1996), Tarifa de embarque (Rocco, 2000), e o Mel do melhor (Rocco, 2001) entre outros. Faleceu no Rio de Janeiro, cidade na qual vivia desde os anos 70.

 

 

Jussara Salazar é poeta e designer gráfica. Natural de Pernambuco, vive e trabalha em Curitiba desde 1986. Tradutora e colaboradora de periódicos e revistas no Brasil e no exterior, publicou de sua autoria em 1999, "Inscritos da casa de Alice" (Tipografia do Fundo de Ouro Preto), "Baobá", poemas de "Leticia Volpi", (Travessa dos Editores, 2002) e "Natália", (Travessa dos Editores, 2004). Trabalha há alguns anos como editora e com o selo Tigre do Espelho produz livros e publicações. E-mail: jussara_salazar@yahoo.com.br



[1] Poema Jet Lagged.

[2] Nomadismos: caderneta de campo

[3] Cânticos dos cânticos de Salomão, Imã, 1985

[4] Hélio Oiticica-Qual é o parangolé ? e outros escritos.

[5] QWALYSSIGNOS, Expressão usada por Antônio Risério, Armarinho de miudezas.

[6] Waly Salomão, Armarinho de miudezas

Jussara Salazar