26/06/2005 Número de leitores: 364

Colección Muro de Tordesillas

Claudinei Vieira Ver Perfil

Por Claudinei Vieira




Amauta.

Jorge Schwartz, em ?Vanguardas Latino-americanas?, explica que Amauta é uma palavra de origem quéchua que significa ?sábio? ou ?conselheiro?. Do que trata Schwartz vai bem além de uma simples questão semântica ou de etimologia. Historicamente, ela também tem um peso considerável na América Latina, com um passado extraordinário. O site da editora detalha mais a definição: ?Amauta é uma palavra quéchua, língua falada pelos indígenas dos Andes, descendentes diretos do Império Inca, e que significa ?homem sábio?. Também foi o nome da revista de crítica literária fundada e dirigida pelo intelectual peruano José Mariátegui, um marco na intelectualidade latino-americana?. Mariátegui foi um dos mais lúcidos e penetrantes observadores de nossa realidade americana, ensaísta, escritor, político, marxista, criador do termo verdadeiramente original, do ?socialismo moreno?.

Bueno, isso é para começarmos a vislumbrar as ambições, deve-se dizer nada modestas, dessa turma que resolveu resgatar o que existe de melhor literatura correndo por nossa volta, e que ainda nunca tivesse sido publicada por terras brasilícas. Letras latino-americanas. Formadas de sangue, beleza, luta, sofrimento e arte. Tal qual a própria história destas terras ao sul do ?brother? big stick ianque. Letras que não passavam por nossas fronteiras, eram barradas por restrições... sei lá, culturais, lingüísticas, nacionalísticas, preconceituosas por excelência, ao fim e ao cabo.

Fazer o cruzamento, realizar a viagem, construir a ponte. Já não é mais ambição, portanto, é um verdadeiro projeto cultural. Que, por obrigação, traz surpresas, sendo a mínima o fato de sermos lembrados ou de compreender afinal coisas simples, detalhes que deveríamos já saber, mas do qual fomos ignorantizados ou levados a esquecer ou forçados a nunca conhecer. O significado da palavra Amauta, por exemplo. Por conta desta editora, a surpresa, o regalo e o gosto da descoberta deveriam ser novos significados acoplados ao termo. Porque é exatamente isso o que eles fazem: proporcionam surpresas, prazeres insuspeitados, nos apresentam uma cultura que no geral reduzimos a pouquíssimos nomes. Grandes nomes. Espetaculosos autores. Mas poucos.
 

Em pouco mais de um ano, publicaram quatro livros: CRIMES EXEMPLARES, do franco/espanhol/mexicano Max Aub; FARABEUF, do mexicano Salvador Elizondo; NUNCA AOS DOMINGOS, do também mexicano Francisco Hinojosa; e recém lançaram DUAS VEZES JUNHO, do argentino Martín Kohan. De uns e de outros já tenho falado em uns e outros lugares. Mas, para esta coleção Muro de Tordesillas é preciso tomar um fôlego maior. Pois a loucura parece maior, a ambição mais desmedida, o projeto mais ousado.






Livrinhos de bolso. Contos. Em edições bilíngües. Apresentando autores latino-americanos inéditos para o Brasil. E autores brasileiros para as terras latínicas. Seis livrinhos, nesta primeira leva. Bilíngües. Rogério Augusto, Marcelino Freire, Qorpo Santo. Martín Kohan, Rubén Darío, Horacio Quiroga. Bilíngües. Brasileiros, argentino, cubano, uruguaio. Novos e clássicos. Novos uns, consagrados outros.

E gratuitos. Não são vendidos. São distribuídos. Quem esteve presente no lançamento da coleção aqui em São Paulo, na Livraria da Esquina, em Perdizes, pôde pegar os seis. Agora, a cada compra na livraria, o cliente ganha um de tordesilhas. A distribuição também é bilíngüe: além de São Paulo, Cidade do México e Buenos Aires. Cada um com seus respectivos lançamentos, seus próprios sustos, suas próprias surpresas. Quem poderá dizer que no México e na Argentina as reações não serão as mesmas? Quem negará que ´amauta?, em castelhano, também deverá ser enriquecido com os novos termos?

É curioso, instigante e prazeroso observar um muro de tal magnitude ser quebrado de forma tão elegante.

 




 

Claudinei Vieira é escritor, cinéfilo e colaborador do Cronópios. 
E-mail: vierapan@gmail.com       www.desconcertos.com.br
Claudinei Vieira