10/07/2005 Número de leitores: 339

Revistas literárias eletrônicas do mundo virtual inteiro... uni-vos?

Claudinei Vieira Ver Perfil

Por Claudinei Vieira










Gostaria de começar esta conversa com uma provocação, uma pequena brincadeira mais propriamente, mezzo-séria mezzo-zoeira, como deve ser uma provocação a meu ver; depois, farei uma pergunta.

A primeira é: qual é a ideologia política do Cronópios?
 

Isso é muito mais do que simploriamente indagar de uma improvável filiação partidária desta revista. Embora a improbabilidade não se refira à impropriedade da questão. Isso, aliás, nem se colocaria algum tempo atrás: era natural, compulsório, obrigatório, que existissem ligações político-partidárias entre ?Cultura? e ?intelectualidade? para com opções ?revolucionárias?, ?não-alienadas, em oposição direta ao reacionarismo, à repressão, ao status quo. Havia, além do clima e do contexto, uma necessidade, uma falta que precisava ser preenchida, e as respostas ficavam no âmbito, sempre, das alternativas de ruptura explosiva. Isso fica bem claro, por exemplo, no pensamento do trabalho de Paulo Freire: a educação leva as pessoas a conheceram suas reais condições de exploração e o quanto são subjugadas, criando o desejo de mudar esta situação: a Verdade é, em suma e em si, Revolucionária.
 

Compreendo que seja chato falar de política, atualmente. As velhas utopias nem bem foram destruídas, as novas esperanças (ingênuas em minha opinião) estão acabando de ser enterradas (debaixo de uma fortuna conseguida com venda de ?verduras?) (antes era com loterias...) e uma ausência de perspectivas generalizadas, um niilismo angustiado, quando se pára para pensar nisso. Vamos falar de literatura?

As revistas literárias possuem a característica de assumir uma postura política, mesmo quando estrictos ?culturais?. Penso em uma AMAUTA, um marco absoluto da intelectualidade latino-americana. Criada e dirigida por José Mariátegui, assumiu uma posição de discussão das realidades latinas, em principal e a partir da do Peru, e trouxe à baila um jeito todo novo de resgatar sua nacionalidade, sua cultura peculiar, repensou sua escrita e sua leitura, redefiniu identidades, re/construiu e ?aclimatou? o socialismo europeu, em uma autêntica criação própria e apropriada sob a insígnia de ?socialismo moreno?. Mas, talvez por isso o exemplo não seja correto, no final das contas. Pois falando em cultura latino-americana, a literatura ?amautiana? significava um meio assumido de resistência e um projeto político partidário revolucionário bem definidos. Contra o quê, CRONÓPIOS está reagindo, mesmo?

Em paragens diferentes, uma CULT!, uma CAROS AMIGOS, foram momentos interessantes que se perderam em um umbiguismo generalizado, ou estão paralisados, sem em definitivo oferecerem hoje maiores arroubos entusiasmantes. Antes, os modernistas e os andrades eram mais incisivos (mais chatos), propunham revirar de cabeça para baixo. Tudo bem, podemos olhar hoje em dia e perceber que seu fôlego não era tão forte ou alto assim, mas eles sonhavam. Em maior ou menor grau, também politicavam, no entanto. Mais abertos, contemporâneos, há o belo serviço da COYOTE, em luta eterna para continuar publicando, e um PORTAL LITERAL, que se agrega em torno de alguns fodões bárbaros. Só para citar destaques. Todos são velhíssimos conhecidos pelos que aqui freqüentam, não preciso descrevê-los.
 

Uma proposta nestes últimos tempos, inédita em sua proposição mesmo que nada original na formação e estrutura, coloca a necessidade de exigir do governo uma política séria e objetiva de incentivo à Literatura nacional. O ineditismo, na verdade, foi ter conseguido agregar, mesmo que de forma mínima, este estranho e solitário ser humano chamado Escritor. É claro que estou falando do Movimento Literatura Urgente, cujo documento de reinvidicações vários cronopianos também são signatários. Embora alguns babacas já manifestaram suas mentes tacanhas, jogando merda no ventilador, dizendo que a real reinvidicação é a de mensalões para o Escritor e não fomento para a Literatura (uma insanidade que nem precisa ser respondida) (mas é tão cômica que vale a pena ser citada), o fato é que o Mov Lit Urg talvez seja o único espaço onde esta tal de Política considere-se a pleno ar. Não será indispensável, no entanto, um certo passo a mais? Caso este passo fosse dado, não acabaria afastando os próprios constituintes do Mov? Seria política demais, quem sabe?

Não quero reeditar aqui a antiquada confrontação rasa entre Arte Engajada e Arte pela Arte, mas a impressão que me fica na mente ao fazer esta brevíssima vista d?olhos é a de que estamos nos movendo entre dois pólos de atitudes que se pretendem excludentes. Ao se falar e se montar uma revista literária, o ?grupo? não se sentiria à vontade em assumir uma postura militante: a militância seria para permitir a expressão artística. Ao indivíduo caberia ser Político (e ninguém teria nada a ver com as opções de outrem). A Revista, não.
 

Fiz a provocação; agora a pergunta: Qual é a ideologia política do CRONÓPIOS?      

Lembro de que quando a internet começou a se propagar e se tornar entendível (ao tempo em que os computadores tornaram-se [pouco mais] comuns e [um pouco mais] acessíveis economicamente), e suas possibilidades fascinaram, houve um certo sentimento de pânico nas ?Instituições?. (tive a tentação de usar a palavra ?Sistema?, mas me contive.) Pois a perspectiva imediata era de uma progressiva anarquização nos velhos moldes de estruturação social: nada seria mais o mesmo, ninguém conseguiria mais ser controlado, a internet era livre em demasia, tudo seria permitido. Um mundo novo se ergueria, onde a Anarquia, em seu pleno sentido teórico, teria a vez. Recordam-se das ?fortunas? imediatas?, quando bastaria criar um site para se tornar-se Milionário Instantâneo, tal qual os nerds do Vale do Silício? Bastaria um curso de programação para se transformar em Bill Gates! A anarquização generalizada levaria também à reestruturação de todos os velhos sistemas políticos, sociais, sindicais, estudantis e educacionais.
 

Bueno, o crash das ponto.com acabou com as esperanças de uma billgatesserialização, muita gente se ferrou e quem não tomou atitudes pragmáticas e realistas afundou. A internet era um negócio como todos os outros, não havia mágica.

Mas

Todavia

Porém

A poderosa indústria fonográfica internacional está lutando bravamente para não soçobrar nas ondas das mp3s e na livre troca de arquivos de som pelas vias ?alternativas? ?não-legalizadas?;

A indústria cinematográfica está indo pelo mesmo caminho, enfrentando uma cada vez maior enchente de piratizaçao de filmes (uma hora depois da estréia dos Siths no cinema, já havia cópias circulando pela internet, em alegre desdém pelos direitos autorais das blockbusters hollywoodianas);

A própria arrecadação de venda de ingresso aos cinemas, inclusive, está em franco declínio nos Estados Unidos, preocupando seriamente as majors do país; muito embora, os executivos de Hollywood adorem reclamar sempre de crise no setor enquanto vão contado os dólares, desta vez estão recebendo um baque profundo por conta do sucesso em outro setor, o dos dvds; enquanto puderem manter este precário domínio sobre sua produção estarão, mais ou menos, tranqüilos; mas o mundo internético está em busca permanente e incessante na constante diminuição do tamanho dos arquivos virtuais: não demora muito e os filmes serão trocados tão facilmente quanto os e-mails...;

O mercado editorial não está acompanhando com tanta rapidez estas modificações, talvez por não possuir o mesmo glamour tal e qual dos cds e dvds; no entanto, as livrarias (sebos incluídos), as editoras, e as distribuidoras não podem se atrever em demorar a se encaixar nas novas exigências; há sites (vários!) que disponibilizam centenas de obras; há outros, aliás, cuja ?ideologia? é de disponibilizar Qualquer obra, inclusive as que ainda estão em pleno vigor de direitos autorais;

Sobre Arte (e Literatura, principalmente) já dei uns toques no meu artigo anterior e, sim, Ray Silveira, você entendeu muito bem o que eu quis dizer e, sim, concordamos em todos os pontos levantados.
 

Portanto, se a própria Literatura em si já não pode mais ser pensada se não for dentro destes parâmetros extremos, o que dizer das Revistas Literárias? E das virtuais, ainda por cima, que são as que me preocupam neste texto? No caso, por ser o CRONÓPIOS?

Ao chegar neste ponto, no momento em que estou escrevendo, percebo que minha provocação inicial até pode ter sido coerente, mas a pergunta, não. Eu deveria perguntar: porque CRONÓPIOS não possui uma ideologia política que tente fazer frente às necessidades da realidade que vivemos? As facilidades tecnológicas e as possibilidades de exposição intelectual e artística não pressupõem uma Responsabilidade também intelectual, artística, social? Política?







Claudinei Vieira é escritor, cinéfilo e colaborador do Cronópios. 
E-mail: vierapan@gmail.com       Site: www.desconcertos.com.br



OBS.: Desnecessário dizer, que as observações contidas nesta coluna são
de responsabilidade do autor.

Claudinei Vieira