16/07/2005 Número de leitores: 344

Colocando os pontos nos seus devidos ís

Claudinei Vieira Ver Perfil

Por Claudinei Vieira











Esta foi uma semana interessante no mundo das letras (e das letras virtuais). Para mim, muito mais ainda, pois refletiu direto nos pontos principais da discussão que realizei nas duas primeiras semanas destes meus tempos de mezanino. O que proponho aqui é darmos uma rápida olhada nestes fatos, deixarmos um pouco de lado a discussão mais abrangente, sermos um pouquinho mais pragmáticos. Da análise do comportamento desta revista e de como respondeu a eles, é possível se chegar a algumas /pré/-conclusões ainda muito mais interessantes. Meu caro Pipol, a minha idéia é de que, se formos discutir e até discordar, então espero que seja sobre alguns pontos melhor esclarecidos. Se ao final as diferenças persistirem, paciência, pois será sobre bases mais sérias.

 

Em primeiro lugar, de um ponto de vista Político-Literário (opa, um velho palavrão, mas a vocês agüentam), houve um fato tão marcante e precioso que acredito tenha uma importância primordial na posição do Escritor como ser ativo e politicamente consciente: foram as respostas dadas por Ademir Assunção e Marcelino Freire àquela... coisa (que eles chamam de ´reportagem?) da Veja em relação ao movimento iniciado pelos dois, o MOVIMENTO LITERATURA URGENTE. O ataque foi um surto besta e gratuito a esta movimentação que tem tudo para crescer e se tornar um poderoso pólo de organização e de reinvidicações, e já proporcionou algumas conversas importantes, mas que no momento ainda está em uma fase de estruturação e fechamento de propostas, circulando principalmente pelos meios virtuais, através dos blogs e sites literários (refletindo desta forma transversal a própria formação e trabalho destes escritores e pensadores de literatura).

 

E, mesmo assim, ainda sendo tão pequeno, já demonstrou toda sua potencialidade, inclusive, de questionar, de incomodar, de se fazer notar. Não por outro motivo, houve a pauta de onze pontos, o encontro com o coordenador do Plano Nacional do Livro e da Leitura, Galeno Amorim. E esta reportagem estúpida.

 

Veja-se bem: o fato importante que estou destacando não é a matéria da Veja, mas as duas respostas. São textos de alto teor pragmático, que vão direto ao que interessa, revelam as bases ideológicas dirigidas da tal revista. São documentos políticos em sua essência, resgatam uma antiga tradição, hoje em dia adormecida, da discussão engajada, estruturalmente construída, lúcida e incorporada às necessidades de nossa realidade. Além de serem belíssimos textos literários, pois o Político aqui não precisa ser, é óbvio, chato ou maçante. São dois grandes escritores, poetas e agitadores, que acima de tudo escrevem muitíssimo bem. UM POUCO MAIS DE GRANDEZA, JERÔNIMO, do Ademir, e JERÔNIMO, O MATADOR, do Marcelino, são dois documentos humanos.

 

O que desejo levar em conta é o modo como CRONÓPIOS reage a isso. Para mim, só havia uma única possibilidade de ser coerente com um apoio explícito a eles (e ao Movimento, por certo) que não fosse somente com uma citação de parabenização, ou coisa parecida, e fiquei curioso para ver se seria tomada. Nunca desconfiei, nem desconfio, das posições individuais de cada um e de suas predisposições específicas, e creio que muitos que lêem e/ou escrevem no Cronópios falaram em seus sites, manifestaram sua simpatia, deixaram um comentário nos blogs correspondentes e, sem dúvida, tudo é muito válido! Mas a revista, como um grupo, precisava ser mais do que isso. O mínimo que Cronópios deveria fazer era publicar na íntegra os textos de Ademir Assunção e Marcelino Freire. E o fez.

Cara, se isso não é uma posição política manifestamente assumida, então estou maluco!

 

Portanto, a meu ver, esta revista não possui um radical esquema programático-partidário-revolucionário (e é muito bom que NÃO tenha!) a qual nunca se propôs, por suposto, mas em troca tem em suas entranhas, uma espécie de ?tendência?, um tipo de pensamento e de conduta não cristalizados e não expressos e que, no entanto, são reais, fazem valer sua existência na prática. O exemplo dos textos do Mov Lit Urg talvez seja o mais expressivo; no entanto, é possível perceber que ele perpassa por todo o site. É por isso que me sinto muito à vontade de estar por aqui, e acredito que para muitas outras pessoas também.

 

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Meu caro Pipol, tomo a liberdade de citar suas palavras, elas me servem como um guia para o próximo ponto, pois tem tudo a ver contigo, diretamente. Antes, devo dizer que não fiquei magoado, muito menos zangado com sua resposta. Para dizer a verdade, fiquei foi muito intrigado. Não entendi como você chegou a suas conclusões. Mas, vamos por partes:

 

?Justa causa justa : Claudinei, lendo as suas duas colunas no Mezanino até aqui, o que fica parecendo é que, só porque o Cronópios é bonitinho, você QUER arrumar um jeito de chamá-lo de ordinário. Estou um pouco decepcionado. Acho que você está chamando o site de ?burguês?, só porque ele é caprichado. Deve ser isso, o Cronópios aos seus olhos tem cara de ?capitalista, neoliberal, elitista...? O bom mesmo é um saitão feio, quase um documento Word, sem ilustração que só atrapalha o texto. Ainda deduzindo dos seus textos: se o Cronópios é bem feitinho, então, os caras de dirigem o site não têm nada na cabeça, não têm posição política, não pensam no povo sofrido, não são brasileiros. São uns alienados vestidos de roupinhas de festa. A nossa preocupação, Claudinei, em fazer um site caprichado, é um profundo respeito a quem publica aqui. A fórmula é simples mesmo. Não somos melhores, nem piores que ninguém, apenas trabalhamos bastante, até demais. E não tem jeito, não vamos ?enfeiar? o site por sua causa e nem por nenhuma causa. A nossa posição política foi inaugurada hoje: ?é fazer doer cotovelos?. Paciência.?


Bueno, eu espero que esta última frase sobre a posição política seja uma expressão meio forçada, pois acredito que o Cronópios seja bem mais do que isso, como pretendi demonstrar acima.

 

Não considero o CRONÓPIOS um site bonitinho. É bonito pra caralho!, o que faz valorizar os textos que são apresentados. Em verdade, no meu primeiro mezanino, fiz questão de frisar: ?E Cronópios no meio disso? Como revista literária eletrônica, está fortemente ancorada em duas bases: a qualidade indiscutível dos textos apresentados por pessoas categorizadas, entre escritores, poetas e pensadores; e por outro lado, pela arte deslumbrante do Pipol. A internet como ?meio?, portanto??.  O tal ´meio disso? foi minha tentativa de delimitar dois tipos básicos de relacionamento da internet com a literatura (é um tanto horrível fazer este tipo de esquematização, espero não simplificar em demasia): o primeiro, com a literatura sendo influenciada, dirigida, determinada pelos meios virtuais; na minha opinião, a internet implica em uma verdadeira (a autêntica) revolução; nada será como antes; e discuti alguns exemplos, concluindo que estamos marcando passo, pois esta será a Literatura do Futuro (ou do presente imediato).

 

O segundo relacionamento é o que trata a internet como um meio de veiculação da literatura já existente; esta, mesmo quando escrita tendo como objetivo sua publicação nos meios virtuais, não se altera de modo significativo por conta dessa contingência.

 

O único que fiz foi constatar que Cronópios se relaciona com a Literatura como um meio, nada mais. Não há demérito, nenhum juízo de valor nesta simples constatação. Não entendo como isso pode ser interpretado como uma reinvidicação de que o site seja enfeiado ou empobrecido em suas imagens. Ao contrário! Há anos eu tenho aplaudido, no mundo da literatura-papel, o cuidado que as editoras vêm adotando com os livros no sentido de sua apresentação, os projetos gráficos caprichados e bonitos, numa relação imagética mais afinada com o texto e com o autor, evidenciando um respeito ao livro como Objeto agradável aos sentidos. O projeto gráfico como uma Arte acoplada à Literatura, por que não? Por que na internet seria diferente? Ao contrário! São as possibilidades abertas e disponibilizadas pelos meios virtuais uma de suas principais características. O modo de interrelacioná-las só pode ser considerado como um enriquecimento, para todas as partes. (de novo, eu só preciso avisar do perigo de confundir que as duas mensagens, a da imagem e a do texto, sejam as mesmas; não são. São dois sentidos, ocupando certo espaço em conjunto; foi do que tratei no meu primeiro mezanino).

 

É muito fácil enxergar as diferenças de tratamento em seu próprio trabalho, Pipol. Tome-se, de um lado, o extraordinário e emocionante Brinquedo de Palavras, um livro-poema-virtual que impacta e sensibiliza com uma força impressionante. Nem vou me estender, já falei dele em outras paragens e sempre o cito para as pessoas como um lugar que deve ser conhecido e apreciado. Sentido. A poesia aqui é completa, visual, textual, virtual, uma simbiose cuja reunião das partes implica Necessariamente em algo muito maior do que um simples amálgama: é um produto novo, uma realidade diferente, um outro universo. A imagem não teria significado, ficaria solta, sem sentido, não fosse o texto, transformados e gerados pelo meio virtual.

 

A proposta do CRONÓPIOS é outra, inclusive não é única. É um meio de disponibilizar o trabalho de muitas pessoas, com um enquadramento imagético rico que somente você pode proporcionar. Não vou bater neste ponto de novo. Só vou citar o fato de que é possível reconhecer sua assinatura. Pode-se bater o olho na página e dizer na hora: quem fez isso foi o Pipol.

 

O que me leva ao segundo evento marcante desta semana. Mnemozine n° 02. Com licença, melhor tirar as crianças da sala: Puta-que-o-pariu! Que coisa extraordinária!





Claudinei Vieira é escritor, cinéfilo e colaborador do Cronópios. 
E-mail: vierapan@gmail.com       Site: www.desconcertos.com.br



OBS.: Desnecessário dizer, que as observações contidas nesta coluna são
de responsabilidade do autor.

Claudinei Vieira