25/07/2005 Número de leitores: 321

WORDS, WORDS, WORDS

Claudinei Vieira Ver Perfil

Por Claudinei Vieira













Sou apaixonado pelas palavras. Gosto de brincar com elas, burilá-las, conhecer sua personalidade, pois elas possuem força, caráter, vida própria. Têm História: infância e/ou criação, adolescência, maturidade, velhice, morte, esquecimento. Dicionário Etimológico. Amo dicionários etimológicos: apresentam o histórico, o exame de sangue e o estado de saúde de cada uma delas. Verdadeiro ninho de fofocas íntimas. E elas adoram! Gostam de ser lembradas, usadas, as abusadas. Aliás, amo Dicionários. Tenho uma pequena coleção. Não somente dos (óbvios) de/entre línguas, mas o de Sinônimos. Antônimos. Breviário de Conjugação de Verbos é maravilhoso. Quando descobri o Dicionário de Idéias Afins, quase alucinei: dicionário analógico que, muito além de explicar, exemplificar ou historicizar, faz relações, busca contato, liga diversas e diferentes classes de palavras. Com uma palavra, seja substantivo, adjetivo, advérbio, verbo, puxa-se o gancho para aproximar as palavras que tenham sentido próximo. Não me furto a um exemplo. Abro o livro e busco um termo simples:

TARDE: SUBSTANTIVOS: declinar do dia, sol-posto, Vésper, desmaiar do dia, noitinha, crepúsculo, sol poente, véspera, boca da noite, lusco-fusco, pôr-do-sol, arrebol, ave-maria, o anoitecer VERBOS: entardecer, ir caindo a tarde, constelar, anoitecer, morrer, estrelar, escurecer, descer o dia, surgir a estrela vespertina ADJETIVOS: vesperal, crepuscular, vespertino, noctívago, noturno, tenebroso ADVÉRBIOS: ao cair do sol, à boca da noite, ao cair das trevas, ao anoitecer, à tarde, ao lusco-fusco.

Leio isso com o mesmo prazer de um romance ou de um conto.

Luís Fernando Veríssimo fez uma de suas melhores crônicas com a palavra Defenestrar (creio que em O Analista de Bagé, se não me engano). A princípio ignorante do seu significado, Veríssimo viaja com as diversas possibilidades que ela pode proporcionar, desde as mais tétricas às mais aventureiras e até as mais românticas e sensuais! (o namorado para a namorada, ansioso: - Defenestras?? recebendo como resposta tanto uma cara vazia, ela nunca teria defenestrado na vida, quanto um tapa: Ah, ela também sabia como defenestrar a dois!). A crônica termina com bruta decepção quando ele afinal decide consultar o dicionário.

Passeando pelos blogs, de repente avisto-me, solta pelo texto, linda, leve e solta a palavra Apropinquar. O mais delicioso foi o modo despretensioso, simples, fácil, sem destaque, corriqueiro, parecia que comum, como foi utilizado. Até fiz um comentário na época dizendo isso e a dona do blog chegou a pensar que eu estava ironizando. ?Tava ironizando, não.

 

E há os Palíndromos!, autênticos quebra-queixos lingüísticos: as palavras ou frases que, lidos tanto de corrido quanto de trás para frente, dão no mesmo. Exemplo horrorosamente óbvio: OVO. Agora tentem formar uma frase inteira. Eu não consigo montar nenhum; só aprecio. Há o clássico que dizem ser o maior palíndromo em língua portuguesa:

SOCORRAM-ME SUBI NO ÔNIBUS
EM MARROCOS

Dias
desses, encontrei uma lista enorme de palíndromos. Separei alguns que considerei mais interessantes:

OI, RATO OTÁRIO
RAZÃO: O AZAR
LEVAR RAVEL
LIGAMOS SOM ÁGIL
É TORTO O TROTE
O CURTO, O TROCO
METEM LOGO O GOL
ORAR É RARO

MAMÀES SE AMAM
(MARUJOS O JURAM...
APÓS A SOPA!)

No livro "BERENICE DETETIVE", de João Carlos Marinho, encontrei uns exemplos ainda mais rigorosos: cada uma das palavras tinha de ser um palíndromo completo, sem "soltar" letras para a palavra seguinte. Havia dois assim.

LIGA: SE SOBES SEBOS ÉS ÁGIL

MORRAM APÓS A SOPA MARROM

- Como as palavras se comportam na internet? Bueno, como sempre neste universo, as coisas se complicam. Precisamos levar em conta dois processos que acontecem simultaneamente e até são confundidos um com o outro, embora diferentes: podemos chama-los de Milagre da Multiplicação e o Mistério da Transubstanciação.

 

O Milagre da Multiplicação é plenamente visível, evidente e automático: as possibilidades de interpretação, de conhecimento, de historicização, de acúmulo de informações é tão estonteante que ainda estamos nos acostumando com este portento. Todos os dicionários podem caber em um cd. As enciclopédias que antes preenchiam estantes inteiras ou até cômodos completos podem ficar à vontade em uma caixa encima de uma mesa e serem acessados por um toque do mouse. A minha paixão pelas palavras adquire, desta maneira, um poder inimaginável há poucos anos atrás.

 

O Mistério da Transubstanciação é um tanto mais difícil. Fazendo uma analogia com o cinema, lembremos que é fácil pensarmos como os filmes podem ser reduzidos ao princípio inercial da fotografia: isto é, cada fotograma em separado é uma entidade à parte que, quando ajuntado e exibido em uma determinada velocidade, fornece a ilusão de movimento. O filme, portanto, poderia ser (na verdade, geralmente, é) considerado como um conjunto de fotogramas ilusórios. É fácil, ou talvez não seja chocante, pensar no cinema como fotografia animada. Em geral, deixamos estas considerações de lado ao usufruir de algum filme, mas em desenhos animados ainda é bem falado e propagado o modo como desenho isolado junto de vários outros desenhos isolados faziam a ?mágica? de se mexer. Em tempos de computação gráfica, os fotogramas estão deixando de ser usados, mas é só lembrar do trabalho e paciência de um Nick Park, por exemplo, para perceber que ainda há prazer neste trabalho duro!

 

No entanto, aconteceu uma transformação. O fotograma transforma-se em filme. Deixa de ser fotograma. O filme não é mais um conjunto. Torna-se uma identidade em si. Pode-se voltar atrás e torna-lo de novo em pedaços, mas é lógico que faria isso às custas desta identidade, deixaria de ser filme.

 

Usar analogias é sempre perigoso, portanto paremos por aqui. A que eu proponho é a seguinte: a palavra na internet também se transforma: vira IMAGEM! Continua possuindo seu sentido e sua identidade (da mesma forma como o fotograma não deixava de ser fotograma), mas acrescentou-se uma dimensão, um novo mundo, que impõe seu sentido, o seu próprio conceito, a sua verdade. Há um novo relacionamento apresentado que ainda não foi apreendido ou digerido. A imagem virtual não é somente um detalhe colorido e divertido a mais: carrega seu mistério e sua conduta, sua filosofia, seu universo.

 

Devo dizer que esta equação, da palavra transubstanciada em imagem, não foi resolvida até hoje (caso contrário, já não seria mais um mistério!). Lembro bem do entusiasmo de poetas, principalmente os concretistas, viam no uso do computador para suas criações. O concretismo, aliás, tinha mesmo como proposta este apelo visual, essa mexida no olhar. O computador proporcionou a possibilidade de trabalhar concretamente o movimento, utilizar sons, música, ruídos. Não digo que este projeto tenha sido um fracasso; no entanto, comparando com as expectativas daquele momento... era como se a poesia concreto/computadorizada fosse, enfim, tomar de assalto e dominar o planeta Terra,  e olhem que estou me referindo a um tempo em que ainda não se compreendia todo o potencial da internet, pelo menos aqui no Brasil. Não foi bem assim, como sabemos. Cheguei a ver, vez ou outra, um poeta com seu livro-disquete nas mãos. O resultado era interessante, afinal as letras se mexiam! Mas continuava sendo tão formal, vazio e sem graça como antes, no papel. Não era por aí.

 

Na minha primeira coluna aqui no Mezanino, citei alguns exemplos de possibilidades feitas com literatura e internet, bem mais interessantes, que pareciam abrir caminhos promissores. Da mesma forma, parece que alguma coisa se perdeu no meio do caminho, e o entusiasmo arrefeceu. Não vejo novas grandes experiências que tratem de pensar a Literatura, Palavra e Imagem holisticamente. Algum passo falta ser dado. Algum elo perdido está atravancado e não consegue ser enxergado.

 

Enquanto isso,:

 

- MNEMOZINE n° 02. Nunca vou cansar de ?virar suas páginas? ou de elogiá-la. Não acho que possa ser possível deixar de elogiá-la o suficiente. Espero ter deixado claro, pelas minhas considerações destas semanas que não a considero como A resposta dos bifurcamentos lítero/virtuais. Mnemozine não é o elo perdido. Nem Pipol é Keanu Reeves, O Escolhido. Mas, falta pouco, bem pouco.

 

- talvez por isso me sinta à vontade para fazer um pedido: há certos textos que merecem um cuidado à parte, um trabalho diferenciado. Não estou dizendo tratar Melhor ou com real atenção, em detrimento de outros. A natureza de alguns textos Pede isso. Me refiro, por exemplo, ao texto do João Batista de Brito sobre  ?Una giornata particolar? do Scola. VEJA-SE BEM!: não estou de forma alguma dizendo que este seja melhor escrito ou que seja mais importante do que delicioso texto do Cláudio Daniel sobre as possibilidades de interpretação da poesia (tema que ele levantou na Flap), ou as afiadas considerações da Márcia Denser sobre Paraty. O que digo é da necessidade de trabalhar nos textos que tratem de objetos visuais, como o Cinema, que vá além da simples ilustração. No mundo do papel, lembro de alguns livros que me tiravam do sério, como uma certa História da Arte sem ilustração (!), livros sobre cinema sem nenhuma foto (outro !). Não importava a capa, ou a qualidade do papel, ou a cola da lombada: o fato de não respeitar visualmente o próprio eixo do texto, para mim era como um crime.

 

- o fato, no final das contas, é que o gosto, o prazer, o lúdico, da brincadeira com a Palavra, e seus sentidos, me transforma, me define, seja por quais veículos aconteçam. E sei que para a maioria das pessoas que estão aqui e que faz parte, nem que seja de passagem, em um rápido clique, destes cronópios, também compartilha deste prazer. Até gostaria de me despedir palindromicamente, mas é melhor dizer um simples Até logo.






Claudinei Vieira é escritor, cinéfilo e colaborador do Cronópios. 
E-mail: vierapan@gmail.com       Site: www.desconcertos.com.br



OBS.: Desnecessário dizer, que as observações contidas nesta coluna são
de responsabilidade do autor.

Claudinei Vieira