02/08/2005 Número de leitores: 378

A profundidade, e a responsabilidade, do buraco

Claudinei Vieira Ver Perfil

Por Claudinei Vieira












Alguém ainda se lembra do termo ´flashmob´? Faz tempo que não vejo ninguém se referindo a ele, embora isso seja bem compreensível neste nosso mundo de velocidade internética de troca de informação, onde tudo se transforma, se ergue e cai em esquecimento em questão de minutos, dando um sentido extremamente moderno e rápido ao tempo de fama prognosticado pelo Andy. Posso, é óbvio, estar desinformado, o que não seria tão difícil, e não saber por quais cantos o termo tem andado. Embora, a velocidade no caso foi tão grande que cheguei a pensar se eu teria imaginado a cena ou, sei lá, tido uma viagem maior de algum docinho mais carregado (o que também não seria nada difícil!).

 

De qualquer modo, minhas anotações não mentem: foi no distante e longínquo ano de 2003, mais precisamente por volta de setembro, que vi a palavra pela primeira vez. Referia-se a um tipo de agitação? (chamar de ?movimento? seria meio exagerado), uma brincadeira que partia de internautas que, sem nunca terem se encontrado ou falado antes, combinavam uma atividade específica (em geral, esdrúxula) em um dia e horários bem determinados. Não havia desejo de começo de amizade ou de estreitamento de conhecimentos, nada. Presumia-se que as pessoas cumpririam esta atividade em conjunto, naquele exato momento, e iriam embora, uma espécie de gincana com uma única tarefa instantânea. Creio que foi um site inglês que começou isso. No Brasil, a ?tarefa? consistiu em dar uma sapatada em uma esquina da Avenida Paulista. E foi o que aconteceu: no meio da tarde, um grupo de pessoas (não muito grande, mas enfim...), checou o horário, tirou o sapato do pé e deu uma sapatada na rua. Calçaram-se de novo, e foram-se.

 

Puxa vida.

 

O tom do texto do repórter que presenciou o ?feito? dava a entender que estaria surgindo uma nova forma de movimentação popular, jovem, adaptada aos novos tempos, que poderia sair da simples convocação para baladas de final-de-semana e tomar um vulto político. Se a memória não me trai, citava o Fórum Mundial de Porto Alegre. A internet, portanto, proporcionaria uma oportunidade de fazer com que o indivíduo se relacionasse e se movimentasse não só por dentro do universo virtual, mas também, e principalmente, no mundo físico, concreto, pessoal. ?Real?.

 

Do que tenho certeza, é que esta foi a origem do chamado ?Atentado Poético?: no dia 11 de setembro, em vez de sapatadas ou de lamentações pelo atentado às Torres Gêmeas, uma atividade cultural, literária. Cada um deixaria um livro de sua biblioteca particular em algum ponto da cidade para ser encontrado por pessoas desprevenidas. Bancos de praça, na rua, telefones públicos, qualquer lugar onde seriam colocadas pequenas ?bombas? que ?matariam? focos de falta de cultura. Alguns participaram mesmo, espalharam livros, teve até acompanhamento da televisão, o pessoal se divertiu. Na época, torci o nariz e considerei tudo de uma bobice tremenda. Ainda considero. Piorada pelo fato da data também ter sido a de trinta anos do golpe militar do Chile e Isso não foi considerado. No entanto, separando um pouco de lado este aspecto mais político, há algumas falhas graves no raciocínio acima que devem ser levadas em conta.

 

Em primeiro lugar, esta separação simplista entre o mundo virtual e o mundo físico, ?real?. É óbvio que a distinção existe, e é concreta e material. Mas o que se coloca em geral (a ?ideologia? por trás disso), é que os internautas na verdade não estariam vivendo, não estariam participando da realidade objetiva ao seu redor. Quanto muito, pegam dados, informam-se, ficam conectados, para então sair do computador e poderem, aí sim, viver. A internet é um simulacro da realidade, uma cópia. É uma concepção tão forte que se entranha nos próprios internautas (principalmente, os de maior idade): sites são divertidos e até podem ser úteis, servem para trocar idéias e informações, Mas precisa-se tomar cuidado em não nos viciarmos no monitor. Blogs são interessantes, servem para experimentações e tudo, Mas não são Literatura, não possuem status de Livro, o papel será perene. Revistas eletrônicas de literatura são divertidas, úteis e interessantes Mas não estão disponibilizadas para todo mundo, não são acessíveis, é preciso um computador, afinal de contas.

 

Não são pensamentos absurdos. Ao contrário, são coerentes e tem até sentido. MAS (este é meu, agora) o buraco é bem mais, muito mais, embaixo.

 

No entanto, antes de medirmos essa profundidade, quero abrir um parêntese e colocar na roda um outro fato, este recentíssimo e importante, que pode nos ajudar a compreender nosso relacionamento com a internet e com as expectativas que ela nos proporciona. Falo da extinção da coluna ?Prosa e Verso? de Affonso Romano de Sant`Anna do jornal O Globo, e junto com ele, a do Wilson Martins. O motivo foi ?contenção de despesas?. É fácil entender: se uma empresa, assim como o governo, passa dificuldades (financeiras ou morais, tanto faz), então deve começar a economizar na... Cultura, é claro. Vá lá mexer na seção de fofocas do high society!

 

É um fato chocante? É evidente que não. Há quanto tempo já não presenciamos esta situação de penúria e descalabro cada vez mais profundo, cada vez mais odiento, de desprezo e desdém? Há quanto tempo, e por quanto mais, vamos lamentar as grandes revistas, jornais, televisão, a ?mídia?, destituindo cada pedaço de inteligência em seus espaços? Aqui pelo Cronópios basta dar uma passada d´olhos para ver pinceladas destas reclamações. Querida Denser, o tom de sua mensagem não está equivocado? Não devemos assumir de uma vez por todas que a imbecilidade e a idiotice dominam essa imprensa, essa mídia e tal (não só brasileira!) e que, portanto, é quase um alívio que intelectuais e artistas do quilate do Affonso e Wilson saiam de perto dessa podreira? Não é melhor assumirmos que o futuro das possibilidades de expressão não reside mais neste lado, mas pelas alternativas (amplíssimas, abertas, escancaradas) que a internet oferece? Por favor, encare isso como uma simples pergunta e Não como tentativa de polêmica ou coisa do tipo, pois o meu respeito pela sua pessoa e pela sua literatura são imensos. Se me dirijo a você, é justamente por causa desse tom a que me referi acima, e que na minha opinião não precisamos mais utilizar. O que acha?

 

(É lógico que existe a questão da sobrevivência puramente física do artista e do intelectual, a necessidade de um rendimento para pagar contas, sustentar os dependentes, um mínimo de lazer, este ?pequeno detalhe? da sociedade capitalista ao qual somos todos massacrados; porém, é um assunto vasto, matéria para outro texto...)

 

O parêntese foi grande, porém necessário. Porque eu falava do buraco.

 

Há pouco tempo, publiquei em outros ares um texto onde utilizei alguns dados de uma pesquisa sobre nível de leitura e alfabetização do INAF, Indicador Nacional de Analfabetismo. Peço licença para reproduzir estes dados, dessa pesquisa de 2003: ?8% dos brasileiros entre 14 a 64 anos encontram-se na condição de analfabetismo absoluto e 30% têm um nível de habilidade muito baixo: só são capazes de localizar informações simples em enunciados de uma só frase, num anúncio ou chamada de capa de revista, por exemplo; Outros 37% conseguem localizar uma informação em textos curtos (uma carta ou notícia, por exemplo) o que se poderia considerar um nível básico de alfabetização; Os 25% que demonstram domínio pleno das habilidades são capazes de ler textos mais longos, localizar mais de uma informação, comparar a informação contida em diferentes textos e estabelecer relações diversas entre elas.?

 

No meu texto eu destacava e faço aqui também: 25%!

 

Como é possível que dados deste quilate não provoquem um verdadeiro estado de indignação extremista generalizada? Ainda mais se juntarmos os números da Câmara Brasileiro do Livro ao dizer que a média de leitura por ano no país é de 1,8 livro por pessoa. Ou então prestemos atenção na pesquisa sobre o mercado editorial brasileiro realizada pelo BNDES ao comprovar que o dito mercado encolheu, nestes últimos oito anos, pela metade! (para quem quiser mais detalhes: ?De 1995 a 2003, o faturamento das editoras diminuiu 48%, o volume de livros comercializados caiu 40%, o número de títulos editados, 13% e o de exemplares impressos, 10%. No mesmo período o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 16%?.

 

Repeti-me um pouco, mas é que o negócio está entalado na minha garganta. Estamos anestesiados. Lemos os números e não percebemos ou não nos importamos. Olhamos cadáveres e nem piscamos. Prestem atenção: somos uma elite que pode e consegue ler, escrever, discutir, e até brigarmos em um nível diferenciado. Se afunilarmos para os que possuem computadores, e mais para os que tem banda larga, e mais ainda para os que conseguem criar diretamente para o universo virtual... bueno, nem preciso continuar.

 

Marçal Aquino já disse e repetiu, e repete quando pode, que os leitores no Brasil são tão poucos que formam, na prática, uma seita. E ainda que metade desses também são escritores. Não é falta de autores, é quem os lê. Há a piada corrente de que se os poetas brasileiros comprassem pelo menos uma obra de seus colegas, os livros de poesia seriam bestsellers! Piada amarga, em verdade. Somos uma elite e não precisamos ter medo de assumi-lo. Somos intelectuais e artistas, e ter vergonha disso (tenho amigos com horror de serem chamados de intelectuais) é somente outra piada triste. Porque assumir, de plena consciência, esta posição não significa se colocar em um nível superior à massa ?ignorante?. Não nascemos com a natureza genética de levar cultura aos ?pobres?. Não é uma questão de inteligência versus burrice.

 

O que há são responsabilidades. Edward Said cita em seu livro ?Representações do intelectual? o sociólogo norte-americano C. Wright Mills: ?O artista e o intelectual independentes estão entre as poucas personalidades preparadas para resistir e lutar contra os estereótipos e a conseqüente morte das coisas genuinamente vivas. Agora, uma nova percepção envolve a capacidade de desmascarar continuamente e esmagar os estereótipos de visão e intelecto com os quais as comunicações modernas nos assolam?.  Isso foi escrito em 1944, não havia nem cheiro de internet nem de escândalos do PT, mas ele colocava a situação precária do intelectual perdido entre um sentimento de impotência pelo fato de ser marginalizado pela sociedade, ou com a opção de se juntar às fileiras de instituições, corporações ou governos. Cada um traz suas próprias conseqüências, não?

 

A responsabilidade é enorme. Temos a obrigação de continuar. Temos a capacidade. Temos as ferramentas. Talvez seja então uma relação de honestidade. Para consigo mesmo, para com a própria a arte, em primeiro lugar. A força de não sucumbir para a melancolia nem ser cooptado pelas ?instituições?. A coragem de sobreviver, o que não é pouca coisa. Os ?flashmobs? talvez tenham continuado sobre outras formas. Não é assim o MOVIMENTO LITERATURA URGENTE? Que não precisou sair para a Paulista dar sapatada na rua, e permeou tão somente pelas vias da internet, dos blogs e sites, sem ser publicado em uma revista ou jornal ?reais?; e nem por isso deixou de ser tão viva e impactante sobre o ?mundo físico?? Não é assim com a Mnemozine que nunca será, nunca poderá ser, felizmente, uma revista de papel, demonstrando assim sua liberdade infinita e infinitas possibilidades técnicas, criativas, literárias, intelectuais? Não é assim com o Decálogo do Nelson de Oliveira que se refere, especificamente, ao ofício das Resenhas, mas que pode ser adaptado de forma tão perfeita ao próprio Fazer artístico?

 

Não foi uma honra ter participado deste mezanino, ter conseguido provocar alguns e outros, e fazer parte deste cronopismo desenfreado? Lógico que foi! Espero não ter falado muitas besteiras (algumas, não muitas). O salzinho no café foi por minha conta.

Valeu!








Claudinei Vieira é escritor, cinéfilo e colaborador do Cronópios. 
E-mail: vierapan@gmail.com       Site: www.desconcertos.com.br



OBS.: Desnecessário dizer, que as observações contidas nesta coluna são
de responsabilidade do autor.

Claudinei Vieira