12/08/2005 Número de leitores: 333

O som de uma tortura

Antonio Carlos Senna da Silva Ver Perfil

Por Antonio Carlos Senna da Silva



 

Ouvido, s. m. Um dos cinco sentidos, pelo qual se percebem os sons; a orelha; orifício por onde se comunica fogo às armas ou às peças de artilharia; ter bom ?: facilidade de fixar na memória qualquer música; duro de ?: que não ouve bem; entrar por um ? e sair pelo outro: não merecer atenção, e não ser levado em conta (conselho, advertência, lição, etc.); tapar os ?s: (fig.) não querer ouvir; fazer-se: moucos: não dar atenção.

 

 

 

 

Já era madrugada quando finalmente ele resolveu sair da cama. Aquele chiado que vinha de longe como um zumbido de colméia o perturbara tanto que o fez sair do conforto das cobertas. Ao levantar-se vagarosamente, olhou para o lado e viu sua mulher gorda e cansada. Virou para frente e percebeu a televisão ligada. Trepidando sob o tubo de imagem como milhões de pequenos insetos, a estática acinzentada brilhava no escuro do quarto emitindo um som apavorante como em Poltergeist. Mas ele sabia que Eles não estavam lá. Ele sabia que aquela mão não iria saltar da tela. Ele sabia que o único perigo que aquela porcaria representava era se de repente entrasse no ar um daqueles programas de fim de tarde que sua mulher costumava assistir. Aquela estática na verdade era para ele como um presente, não àquela hora da madrugada, mas se ela permanecesse durante todo o dia seria realmente maravilhoso.

 

Ainda embolado no edredom, ele levanta e procura por seus óculos. A dor profunda no joelho esquerdo lhe faz lembrar de quanto tempo havia passado até que ele chegasse ali, aos 65 anos. E pensar que essa idade trazia como troféu muitas outras coisas desagradáveis além daquela artrite dolorosa.

 

Ele olhou para o copo com água até a metade e para a dentadura suja, que boiando parcialmente, arrastava a ponta de alguns dentes na parede de vidro. Pensou até em colocá-la, mas logo em seguida decidiu que não seria necessário. Só iria levantar, iria até o fim do quarto e desligaria a televisão.

 

Deu mais uma olhada na cara gorda de sua mulher e na baba espessa que escorria pelo queixo, formando um pequeno lago sobre o travesseiro. Sentindo ainda um pouco daquela dor penetrar na dobradiça enferrujada do joelho, se levantou finalmente e, apoiando-se na parede do quarto, caminhou em direção à televisão. Deu uma espiada pela janela e observou o poste de luz com a lâmpada ainda queimada e se lembrou do exato momento que havia ligado para a companhia elétrica: ? Sim, senhor; já anotamos seu recado e iremos fazer o reparo! ? Disse o atende empolgado a cinco dias atrás. ? Preguiçosos miseráveis. Não sabia que minha mulher tinha parentes lá ? Pensou.

 

Ele continuou caminhando em direção a televisão, e mesmo apoiando-se na parede como fazia, aquela era uma tarefa difícil. Locomover-se na escuridão, tendo apenas como referência aqueles insetos chamuscantes, era para ele definitivamente uma tarefa difícil.

 

O som, que vibrava em sua cabeça, ia aumentando com a aproximação ao aparelho. ?Filha da puta... Já falei pra não deixar essa merda ligada. Ainda mais com esse volume tão alto... E ainda diz que eu é que sou surdo. ? Apoiando-se agora sobre a cortina empoeirada ele finalmente alcança o interruptor. Pensa rapidamente na possibilidade de iluminar o quarto e decide não fazê-lo, pois sua mulher poderia acordar, e aí sim, a noite estaria perdida. Continuou apoiado sobre a cortina de chenile deslocando-se para o outro lado do quarto, onde a televisão estava... Parada, imponente, ? ?Você é como uma arma na mão de um policial... Anda constantemente sobre o fio da navalha... E dependendo do seu humor, salva ou condena...? Acho que li isso num livro. Ou foi na televisão? Sei lá... ? ligada, gastando a porra da sua luz e lhe irritando com aquela merda barulhenta. Tropeçou num soutien largado no meio do caminho e se lembrou de que seu outro joelho também doía caso fosse incomodado. Aquilo era uma merda. A velhice era uma merda. Sentir uma dor daquelas, por ter tropeçado num soutien? O tipo de coisa que costumava chutar pra bem longe antes de comer uma mulher. Não... Aquilo era acima de tudo, decadente. Ajeitou com a ponta do pé o maldito soutien e o colocou debaixo de uma das quinas da cama. Caminhou por mais dois ou três passos dolorosos parando enfrente àquela caixa iluminada. Apoiando sua mão sobre o topo da carcaça plástica, percebeu que ela está quente, muito quente, devendo estar ligada a horas. ? Filha... Essa conta de luz ela vai me ajudar a pagar! ? Para ele, não era justo que sua mulher se divertisse com uma infinidade de canais e ele apenas com simples prazer de desligar o Show da Estática no meio da madrugada. Tateou com a ponta dos dedos a lateral do aparelho, deixando sua mão escorregar por uma camada fina de poeira. Apertou de início o botão do volume para tentar amenizar um pouco aquela chiadeira em sua cabeça. Pressionou o pontinho emborrachado, abaixo do sinal de menos, umas três vezes sem obter êxito, o que lhe fez optar em usar o que considerava ser a maior invenção do homem desde a criação da televisão, seu botão de desligar. Enfiou o dedo numa saliência redonda e profunda, dando-lhe um imenso prazer ao desligar aquilo, penetrando devagar como numa masturbação feminina. Seu dedo suado deslizou lento para fora daquele buraco quente e apertado, fazendo vibrar o que, há muitos anos, vinha sendo usado apenas como seu escape de urina. ? Precisamos nos encontrar mais vezes benzinho... ? A imagem piscou e resumiu-se num único ponto ovulado no centro da tela, sumindo rapidamente e deixando o quarto na total escuridão. Porém o chiado de estática permaneceu fritando sua cabeça. ? Será que existe um botão para desligar a imagem e outro pro som? Não... Nenhum japonês ia ser tão burro assim. Essa filha da puta deve ter deixado outra coisa ligada! ? Meio tonto e ainda com o joelho dolorido, ele virou para trás e percebeu que no canto esquerdo, mais ao fundo, perto de sua mulher, o rádio-relógio estava ligado e provavelmente fora de alguma estação. ? Filha da puta... Quem ela pensa que eu sou? O Rei da luz elétrica? Ela acha o quê? Que o gato que eu fiz segura isso tudo? Merda... ? Ele deu meia volta e refez o caminho pelo outro lado do quarto. Tropeçou em mais duas peças de roupa e jurou que se tivesse que ir à cozinha por qualquer que fosse o motivo, pegaria a faca de carne e acabaria esfaqueando aquela gorda sem-vergonha.

 

Terminada a caminhada dolorosa e lenta até a cabeceira da cama, ele não esperou nem por um segundo. Arrancou a tomada da parede num puxão rápido e firme, dando apenas para ver que marcavam 03:15 da manhã. Os números vermelhos permaneceram acessos por alguns segundos e foram esmaecendo na escuridão do quarto. Mas para sua surpresa e desespero, o chiado não parou. Ele continuou lá. Continuou em sua cabeça como um enxame de vespas construindo seu ninho.

 

Numa ação instintiva ele cutucou as costas da esposa com a ponta dos dedos tentando acordá-la para saber o quê mais ela poderia ter deixado ligado. Ela apenas se virou, deu uma pequena ressonada e, engolindo um pouco de saliva, espalhou um outro pouco sobre a bochecha amassada.

 

Perturbado com o barulho e sem saber o que fazer, ele decide ir até a cozinha. Não para pegar a faca de carne, pelo menos naquele momento. Tomaria uma água, um ar, qualquer coisa. Ele tinha era que sair de lá, e encontrar a fonte daquele maldito ruído.

 

Chegando com muito custo até a porta do quarto, ele a abre e finalmente consegue sair daquela atmosfera pesada. Olhando através dos óculos para o fundo do corredor, percebe que uma luz ilumina o que era para estar escuro. Percebe que ela também deixara a luz do banheiro acesa. ? Não é possível... Essa mulher quer acabar comigo! Ela quer que tenha um enfarte? Só pode ser! ? Ele caminha um pouco mais rápido pelo corredor e, numa ação impensada, enfia a mão através de um vão entre a parede e a porta do banheiro, desliga o interruptor da luz e com uma velocidade ainda maior, volta a ligá-lo, percebendo que a pia está encharcada e que a torneira fora deixada aberta, fazendo par com uma escova de dente suja, largada sobre a bancada de mármore. Seu coração dispara de raiva. ? Desgraçada! Porca filha da puta... Pensa que o meu dinheiro é capim?  ? A raiva começava a brigar contra o enxame de vespas por um lugar em sua cabeça. A faca de carne começava a se tornar uma possibilidade bem real. De repente, o velocímetro do seu coração ultrapassou os limites, fazendo-lhe lembrar de que não havia tomado o remédio para taquicardia àquela noite.

 

Enchendo sua mão de vontade, e pensando em livrar-se definitivamente daquele chiado enlouquecedor, girou a torneira enferrujada, sufocando a saída de água, estrangulando-a de uma vez por todas.

 

O coração continuava acelerando ? Eu sei o por quê... O remédio... Eu não tomei o remédio. ? Ele ainda estava tomado pela raiva ? Eu também sei por quê... Eu odeio minha mulher... Na verdade eu gostaria de poder matá-la... ? O chiado ainda enlouquecia sua cabeça. ? Por que? Alguém me diga...! POR QUE? ? O nervosismo se instalou definitivamente, e como um projétil desgovernado, atingiu-o no fundo do peito. Uma pontada mais forte e o coração descompassou. Ele ergueu uma das mãos até o armário à procura do remédio enquanto a outra apertava firme o peito dolorido. Tateou por entre os vidros à procura da salvação. Para sua sorte, o vidro era o mais alto da prateleira. Ele o apanhou, e observou que havia apenas um comprimido soterrado debaixo de um tufo de algodão, e pensou rapidamente que, naquele fim de semana, se tudo desse certo na Operação: Não Posso Morrer Assim, eles não iriam fazer uso daquela bela faca para carnes que, minutos antes, pensara tanto em usar em sua esposa. Só que antes, o plano era outro. O plano era usá-la com a carne do churrasco que infelizmente não poderão comprar, pois se ele sobreviver, terão que usar o dinheiro para comprar um novo vidro de remédios.

 

Ele tenta abrir a torneira ? Por quê é que eu não deixei essa merda aberta? ? e percebe que sua força era realmente movida por aquela máquina descompassada que ele carregava guardada no peito e que já não visitava uma oficina fazia muito tempo. É, talvez estivesse realmente na hora de fazer uma vistoria. Mas sabe como é... Não levamos um carro para ver o motor até que tenhamos que trocá-lo por outro depois de bater os pinos. ? Essa merda não vai abrir... Melhor eu pegar água na cozinha... ? Agarrado ao vidro de remédio, ele apaga a luz do banheiro e se lança do corredor à cozinha.? Barulho desgraçado... De onde é que está vindo isso? Será que é o gás que está vazando? ? Para sua surpresa, ao entrar na cozinha, percebe que a Outra não havia deixado o gás escapando, eliminando sua ultima opção em descobrir a fonte daquele barulho ainda nessa vida. Ele se arrasta até a bancada da pia e, pegando um copo de plástico, enche-o com água do filtro. Abre o vidro de remédio e, ao puxar o algodão, observa o comprimido escorregar de sua mão, deslizar pela cuba de aço, e descer pelo ralo numa fração de segundos. O peito dolorido já não guardava mais um coração. O que se escondia por detrás das costelas era uma pedra quente que lhe queimava o peito. Desesperado com aquele barulho, e com o coração dilacerado, arrasta-se de volta para o quarto e, cambaleando pelo corredor, chega até a entrada da porta.

 

Ele sabia que havia chegado sua hora. Ele sabia que daquele ele não iria escapar, mesmo tendo conseguido fugir dos outros dois no ano passado. Aquele era especial. Aquele, talvez nem sua pílula da salvação conseguisse detê-lo. E ainda tinha o barulho ? Maldito barulho! ? Além do que, naquela altura, as vespas já haviam se instalado e, para tirá-las de lá, talvez tivesse que ser um pouco mais jovem. ? Maldito barulho... Maldito... Maldi...ta esposa... ? Ele se apóia no portal, e pensando em acender a luz, desiste novamente. ? Melhor deixar apagada... Tinha muita coisa acesa... Essa conta vai acabar vindo alta demais... ? E naquele instante insólito, naquele segundo que seria o último segundo de sua vida, ele o gastara com um pensamento medíocre.

 

O chiado, enlouquecedor, abre uma vala em sua cabeça. Um click de escopeta, e outro disparo é dado, apertando-lhe o peito como numa descarga de desfibrilador ? só que, desta vez, estão usando ele do lado de lá... ? fazendo-o desabar para dentro do quarto como uma velha árvore morta.

 

Seu corpo desvia da televisão e sua cabeça bate na quina da cama, arremessando seu aparelho de surdez (Zzzz...Zzzz...Zzzzz...Zz...)quebrado(Zzzzzzzz...Zzz...Zz...) para bem longe, destruindo aquele ninho de vespas e o fazendo, enfim, descansar em paz.

 

 

 

 

 

Antonio Carlos Senna da Silva, carioca, escritor e roteirista de cinema.

Antonio Carlos Senna da Silva