21/08/2005 Número de leitores: 1081

Quando setembro chegar

A. Zarfeg Ver Perfil


 

... eu quero estar preparado para dizer tudo que está preso na garganta, faço questão de gastar fonema por fonema do meu latim vulgar pra dizer as verdades que venho colecionando nestes tempos bicudos, de noites mal dormidas, pesadelos intermitentes, expectativas traídas e decepção filha d’uma puta, assim espero fazer nem qu’eu tenha que romper o gogó botando pra fora um aurélio de imprecações, de desaforos mas também desabafos qu’eu venho engolindo contra minha vontade e índole, com certeza vou cometer uma série de desatinos ainda qu’eu tenha que me implodir por inteiro, rompendo grilhões, vasos e sonhos, botando pra fora tudo aquilo que meus semelhantes não tiveram coragem de dizer, vou gritar tudo aquilo que meus irmãos não conseguiram rechaçar, que vosmecês fulanos, beltranos e sicranos preferem esconder do povo não pra protegê-lo mas se beneficiar usando tal estratégia em proveito próprio, pra viver no bem-bom, enquanto os pobres-diabos são atirados à própria sorte, humilhados e espezinhados, nesse cadinho de palhaçadas curtidas em cada santo dia útil e inútil, mas eu sei que o maior culpado disso tudo é vosmecê, esperança, que não presta, nunca prestou e agora, mais uma vez, passa bosta na boca dos zarfeg da silva, mas eu não estou aqui pra engolir tanta provocação, tanta indignidade, tanta sujeira e tanta merda juntas, como s’eu também fosse um filho da puta que não merece sequer ser considerado herdeiro da espécie humana, que usa dez por cento da sua capacidade animal, mas no fundo eu sou isso mesmo, ora, ora, pelo menos é assim que vosmecê, puta velha, espera qu’eu me veja e me sinta pro resto da vida e assim será até setembro chegar...

 

... porque eu já estou farto de tanto conto-do-vigário lesa-pátria tanta armação ilimitada e safadeza pra cima dos que menos podem dos que nunca tiveram voz nem vez nem como reagir à tamanha falta de vergonha na cara e mau-caratismo oficiais daqueles que deveriam zelar pela coletividade/civilidade/cidadania/alegria pelo bem comum da respublica em vez disso não fazem nada ou melhor fazem tudo e muito mais destruindo a ética cuspindo nos bons costumes reduzindo todos a estrume coisa de somenos valia deixando a nação morrer à míngua com a língua de fora arquejando feito uma cadela sarnenta que tem que morrer na sarjeta enquanto vosmecês, esperança e companhia, se dão bem durante janeiro fevereiro março abril maio junho julho agosto...

 

... mas, quando setembro chegar, ah quando chegar setembro, podes crer, eu vou gritar firme e forte, ainda que tenha que fazê-lo em língua morta, sei lá, em língua daqueles que desistiram de lutar, em tupi-guarani, itaém, pedra ocada, saravá, meu preto velho, qu’eu vou fazer o cabra da peste sambar no meio do redemoinho de termos chulos, expressões, discursos, sem vênias, deferências ou sentimentalismo barato, pra fazer frente à indignidade nacional, lançar meu desdém na cara da desfaçatez canalha daquela que, escolhida para liderar um período de bonança e abastança, liberdade e alegria, acabou, isto sim, liderando um complô maior que o do vil macbeth contra a nação tupiniquim que, por tudo isso e muito mais, ainda não conseguiu resolver o velho problema de identidade que vem adiado há idos, numa armação reinventada com tintas de modernidade, que não tem outra serventia senão nos empurrar intimidados acovardados ao sem-volta dos quintos dos infernos ...

 

... porém, quando setembro chegar, eu prometo incendiar o país porque junto com a primavera virá a beleza (o belo salvará o mundo?), o perfume das flores (pra não dizer que não falei delas) e, especialmente, a espada da coragem, pois eu vou precisar disso pra desafiar os ilustres picaretas, senhoras e senhores, quando será rompido o longo interstício de passividades e declarado o primeiro round do ódio que vai se propagar pelos quatro cantos da nação em cadeira de rádio e televisão, eis meu poema sujo, meu porradão sonoro, poetando a exclusão social dona de todos os índices de audiência desta terra de facínoras de uma figa, porquanto o cidadão vai falar, minha gente, falar não, vai gritar, berrar, ladrar, vagir, urrar, esgoelar, por todas as humilhações, crueldades e injustiças cometidas contra nosotros que, de esperançados, acabamos vítimas fáceis da desdita, da traição e da canalhice, vai dizer não às irregularidades perpetradas à luz da manhã inocente horário nobre conivente ou calada da noite mais traiçoeira contra o erário público indefeso, a frágil e vulnerável caixa-forte respublicana, vai dizer não ao cinismo de quem deveria se apresentar com a cara da seriedade e da verdade, por tudo isso a minha reação implacável, dilacerante, pois vosmecê, esperança, não é digna de beijar a sola do pé-rapado mais ínfimo que mendiga de norte a sul deste país carregando na corcunda os efeitos da corrupção assassina, vosmecê não merece um grama que seja do respeito e consideração da massa maltrapilha e faminta, vosmecê, canalha e corrupta, mas a ignomínia não há de me abater qu’eu estarei blindado com a armadura do verbo, a inspiração não há de me faltar na hora h, quando setembro chegar, quem não cagar nas calças vai comemorar, quando setembro chegar, nós vamos à forra, ah se vamos, ainda que disparando palavras ao léu, semeando grãos de revolta que nunca vão germinar, porque o motivo destas palavras não é outro senão desestabilizar o seu governo ou vosmecê ainda não se deu conta disso, companheiro?


A. Zarfeg