23/08/2005 Número de leitores: 336

Relógio de prata

Claudinei Vieira Ver Perfil

Por Claudinei Vieira















Este é o quarto do seu Apolinário. É tão pequeno que logo ao abrir a porta fica-se diante de sua cama. Ao lado, um pequeno fogareiro para suas parcas refeições, uma mesinha de centro encostada no canto, e só. Seu Apolinário está morto a dois dias. Ninguém no prédio sabe disso e ainda vai levar algumas semanas, pois era um recluso, não saía do quarto, não tinha amigos, nem respondia cumprimentos, caso estivesse presente para recebe-los. Não inspirava simpatia, era um louco, um safado, conforme os vizinhos.
 

Esta é a sua cama. Temos que passar por cima dela, e dele, pois não há espaço para rodeá-los. Ele está deitado de costas. Sua mão direita escorregou para fora do colchão e alguns dedos estão mergulhados dentro da poça de sangue ressecado, pois o seu braço é bem comprido. Tem que se tomar cuidado para não pisar na poça, mas não há como mexer na caixa sem se sujar. Está debaixo da cama, enterrada em uma camada de poeira e fezes de baratas.

Esta é a caixa. Resto de um antigo par de sapatos italianos com salto reforçado. Algumas cartas. Outros papéis mofados indefiníveis e irreconhecíveis. Duas gravatas esburacadas. Uma coleção de lapiseiras quebradas. E o relógio de prata falsificada.

Um relógio de prata! Sonho da minha infância, objeto de consumo entrevisto em filmes e em fotos antigas. Símbolo e mito de pessoas ricas, burgueses gordos e satisfeitos com a vida. A corrente que ligava o bolso da calça ao bolso do colete. Meu universo parava quando o burguês puxava da corrente e olhava as horas com seu jeito displicente e aborrecido. Ou quando o xerife do velho oeste apertava o pino para observar, não as horas, a foto da mulher que fora assassinada pelo seu melhor amigo ou raptada pelos índios.
 

Um relógio de prata. Puxa vida!








Claudinei Vieira é escritor, cinéfilo e colaborador do Cronópios. 
E-mail: vierapan@gmail.com       Site: www.desconcertos.com.br

Claudinei Vieira