24/09/2005 Número de leitores: 727

Pra não dizer que não falei das flores

Adrienne Myrtes Ver Perfil

Por Adrienne Myrtes




A Bienal da Bahia aconteceu de 02/09 a 11/09/05. Os livros e escritores invadiram a Bahia de todos. Escritor não é santo, mas, às vezes, faz milagre. Milagre ou não, o Porto da Poesia (evento literário dentro da Bienal) juntou gente para seus recitais, enquanto o Café Literário abriu espaço para discussão da prosa.

 

Passei por lá, literalmente (fiquei três dias). Aproveitei pra trazer na bagagem amostras do trabalho do povo que está sacudindo as letras por lá, e é grátis.

 

Quem não foi à Bahia precisa ir, mas já poder conhecer um pouco da literatura produzida lá. Mas o que é mesmo que isso tem a ver com as flores?

Foi bom voltar pra casa e encontrar meu vaso de lírio da paz florindo.






O maravilhoso mundo da margarina

e um pouco de manteiga pra lubrificar
Por Marcus Vinícius Rodrigues

 

 

Você precisa saber da piscina,

da margarina, da Carolina, da gasolina.

Caetano

 

Ela está na nossa música, nas nossas vidas, na nossa televisão, dentro de nós. Dentro de nós literalmente, guiada pelos nacos de pão, mas também em nossas cabeças. Dentro de nós está aquela cozinha iluminada pelo sol da manhã, a mesa do café numa arrumação cinematográfica. Tanta coisa logo de manhã. Quem fez? A cozinheira, a produção de arte? Não aparecem cozinheiras nos comerciais. As mães, onipotentes, podem preparar fartos cafés da manhã e apresentarem um bom humor inacreditável. Elas são a personagem central, acompanhadas do pai e dos filhos, geralmente um casal. Todos são brancos. A família feliz.

 

Aqui na Bahia, está passando um comercial diferente. O ganhador do último Big Brother, Jean Wyllys, apresenta um comercial de margarina. Ele anuncia que o produto está chegando ao estado. Homossexual assumido em rede nacional, ele virou o queridinho da mídia de celebridades. E no seu estado natal, então? Sua imagem é aquela do homossexual nada marginal, nada ofensivo, longe dos guetos ... uma coisa família, né? Isso mesmo, uma coisa família. Os grupos gays de todo país já o elegeram um ícone do movimento, uma conquista.

 

Mas há nesse comercial um detalhe grave. Jean, o gay assumido e de família, apenas observa as pessoas comprando a nova margarina. Ele está num supermercado e observa. Ele não compra nada. No final do comercial, entrevista uma mulher que fala das delícias do novo produto. Ela é negra. Claro, o comercial é politicamente correto e para o público baiano. Nada mais simpático. Mas por que Jean não compra a margarina também? Por que ele não aparece em sua casa, numa manhã iluminada, um pão quentinho, a margarina derretendo amarelinha e ele dizendo que só come a tal marca e etc e tal?

 

 

Você precisa saber de mim, Baby.

Caetano

 

 

Por que? Porque, apesar de toda essa onda bonita e tolerante, os gays ainda não foram aceitos no maravilhoso mundo da margarina: a família feliz. Ao gay-intelectual-aceito-pela-família-brasileira só é possível esse papel de observador. Ele não participa. Está fora. Pode visitar as salas da família brasileira pela TV, mas não pode entrar de fato. O mundo da margarina é assim, iluminado e imaculado, e não pode ser invadido pelo que um homossexual representa. Mesmo esse homossexual-família que é Jean Wyllys, um homossexual que não faz sexo, totalmente casto, como ele declarou a Jô Soares,  o entrevistador-humorista-intelectual-aceito-pela-família-brasileira, mesmo esse gay higienizado não pode entrar na família.

 

Esse encontro do homossexual com a família, através da margarina, tem mais problemas do que solução. Faltou crítica, faltou reflexão, faltou uma postura de intelectual.

 

 

... sagrada família, teto de bons cidadãos.

Diga! As crianças são torturadas até mentirem.

Marlon Brando em O último tango em Paris

 

 

De quem é o problema?

 

Da margarina? Talvez. Fosse ela uma manteiga, estaria nos dedos vigorosos de Marlon Brando lubrificando o ?buraquinho de trás? da Maria Schneider, enquanto ele fazia um discurso contra a família. Como é mesmo? Algo assim: ?Vou falar-lhe de segredos de família, essa sagrada instituição que pretende incutir virtude em selvagens. Repita o que vou dizer: sagrada família, teto de bons cidadãos. Diga! As crianças são torturadas até mentirem. A vontade é esmagada pela repressão. A liberdade é assassinada pelo egoísmo. Família, porra de família!"

 

Há na manteiga, ainda, um potencial de reflexão, um olhar crítico para a sociedade. Ela não que ser magra, não quer diminuir o colesterol. Ela não que o direito à união civil, à adoção. Ela não quer ser família, ela não quer ser consumida. Quem vê por aí comercial de manteiga? Ela não é certinha e nem faz força pra agradar.

 

Quem procura a manteiga na prateleira do supermercado, não foi induzido por ninguém. Faz isso porque saber do sabor, saber que há ali um prazer genuíno.

 

 

Lorinha, você lembra daquela menininha da televisão que

dá uma mordidona na fatia de pão com margarina?

Hilda Hilst, O caderno rosa de Lori Lamby

 

 

De quem é o problema?

 

De Jean Wyllys? Talvez. Fosse ele um escritor da estirpe de Hilda Hilst, por exemplo, estaria dando conselhos de usos mais adequados para a margarina, como na passagem de  O caderno rosa de Lori Lamby em que o tio Abel ensina Lori a chupar: ?Lorinha, você lembra daquela menininha da televisão que dá uma mordidona na fatia de pão com margarina? Mas é pra abrir e morder assim? Claro que não, Lorinha, é só o começo da aula, pra você aprender a abrir a boca. (...)  Eu fui pegando e o abelzinho foi ficando duro, fui pegando pra cima e pra baixo, com a mão do tio Abel em cima da minha pra ensinar, e o abelzinho foi crescendo e ficando coradinho, e aí eu abri bem a boca e escondi a cabeça dele na minha boca.?

 

A margarina, nas mãos de um artista, tem salvação. Sua pedagogia da família feliz pode ser subvertida em outra coisa, uma pedagogia do prazer, talvez. A família pode ser vista de forma mais crítica. Seus valores podem ser modificados. Assim é que deveria ser a entrada de um homossexual na família.

 

Infelizmente, o que se vê não um sopro novo na sociedade, mas tão somente uma nova forma de asfixia. A família não aceita o gay em seu seio, ela o submete.

 

 

P.S. Como todo o movimento gay está comprometido com a saúde pública, o combate à AIDS, seja por mera consciência, seja pelo doce que são as verbas públicas e embora os heterossexuais continuem produzindo toneladas de ficção em que casais transam sem camisinha e têm como única conseqüência a gravidez, indesejada ou não, esta coluna se vê na obrigação de um aviso de utilidade pública:

 

A MANTEIGA NÃO É UM LUBRIFICANTE ADEQUADO PORQUE, ARMAZENADA SEM REFRIGERAÇÃO, TORNA-SE UM EXCELENTE MEIO DE CULTURA DE BACTÉRIAS. SALIVA, MEU BEM, SALIVA.






NÃO ME FAÇA LER ESTE POEMA

 

Não me faça ler este poema

cheio de frases secretas

e de tanta inteligência.

 

Não me obrigue a ler o verso

que algum filósofo sustenta

para me salvar da inércia.

 

Seja para mim mero poeta

de olhar o horizonte todo um dia

e me convidar a sentar ao cais.

 

E, então, faça do seu livro um barco,

do poema velas e mastros

e deixe-me soprar.

 




MEUS POETAS

 

Gosto de uns cinco poetas na vida

que escrevem pelo avesso da carne.

Todos os outro, maquiagem.

 

Eu mesmo, guache.


 

 

PARA QUANDO EU NÃO ESTIVER

 

Onde estou,

quando não estou aqui

e já sou memória?

 

Quem diz,

com sua lembrança,

a ausência que sou?

O amante,

o interminado livro,

o amigo?

 

Quem conta minhas histórias,

repete minhas falas,

diz de mim,

faz de mim vivo,

recordado,

recolhido no coração,

salvo?

 

Quem for,

estenda pétalas brancas

nos caminhos pisados,

rega de água e sal chorados,

e, então, deixa vir a

brisa de soprar borboletas.


 

 

CONTRA O SILÊNCIO

 

Cante comigo,

única voz

nós dois,

em falsete suave.

 

Cante, amigo,

canção e saudade

deitado em meu braço.

 

Eu o fôlego no teu peito,

o palco e o aplauso,

platéia entregue ao desejo.

 

E se vier o silêncio,

o violento silêncio dos passantes,

rasgaremos nossas gargantas,

cantaremos ainda mais alto.


 

 

O RISCO

 

Querido amigo,

  sempre um risco

 

de iniciar-se o verso

no papel vindo ao acaso

 

e há o caso de, às vezes,

vir o poema inteiro.

 

Há sempre um risco de perder-se

Em meio ao corpo do texto.

 

Mas não é de perder-se

o poeta que se faz o êxito?

 

 

 

 

Marcus Vinícius Rodrigues tem 37 anos, mora em Salvador, é Professor e Advogado. Graduado e mestre em Letras, faz doutorado em Literatura Comparada na UFF. Publicou Pequeno inventário das Ausências (poesia) pelo Prêmio Copene/Fundação Casa de Jorge Amado, em 2001; participou das antologias Concerto lírico a quinze vozes (poesia), Ed. Aboio Livre, em 2004 e Os outros poemas de que falei, Prêmio Banco Capital, em 2004.  Assina, ainda, a Coluna Eros Errante na revista virtual www.verbo21.com.br.

E-mail: marvin-r@uol.com.br


 

 



PAZ

Por José Inácio Vieira de Melo

 

 

Eu,

que venho de tempestades,

anuncio a calmaria.

 

A violência

que existia em mim

rasguei na bala.



(Poema do livro ?A Terceira Romaria? (2005).)

 

 

José Inácio Vieira de Melo nasceu em Olho d?Água do Pai Mané, povoado do município de Dois Riachos, Alagoas, em 16 de abril de 1968. Passou a infância e a adolescência entre as cidades de Palmeira dos Índios, Arapiraca e Maceió. Em 1988, Muda-se para o município de Maracás, Bahia, onde mora por 10 anos, em uma fazenda ? Cerca de Pedra. A partir de 1998, passa a residir em Salvador. É jornalista e co-editor da revista de arte, crítica e literatura Iararana e colunista da revista Cronópios. Atualmente coordena o projeto Poesia na Boca da Noite. Publicou os livros Códigos do Silêncio (2000), Decifração de Abismos (2002) e A Terceira Romaria (2005) que recebeu o Prêmio Capital Nacional 2005 de Literatura, do jornal O Capital, de Aracaju, Sergipe. Publicou também o livrete Luzeiro (2003) e organizou Concerto lírico a quinze vozes ? Uma coletânea de novos poetas da Bahia (2004). Participou das antologias Pórtico Antologia Poética I (2003) e Sete Cantares de Amigos (2003). E-mail: jivm.inacio@ig.com.br

 

 

 

 

A FÉ DO RACIONALISMO
Por Lima Trindade

  

            Lionel era um bom menino que não gostava de gatinhos. Seria engenheiro, professava a mãe. Chaninho fugia mal despontava o bico do quichute. Por causa da mãe, cresceu sem deus e sem diabo. Do pai não tinha birra: conservava sua foto de morto na ditadura.

            Passadas as tempestades e já homem grande, foi no estádio de futebol pela primeira vez, atendendo ao convite de Pepe, um amigo de copos. Simpatizou pelo time mais fraco. Tanto, que comemorou a derrota sofrida.

            Na segunda vez, o time ganhou. Lionel reparou que havia sentado do lado oposto da arquibancada.

            Surpreendentemente, na terceira partida, sentando no mesmo lugar, tornou a vencer.

E assim se repetiu por três outros finais de semana.

Porém, na seguinte, o time fracassou. Lionel não compreendeu. Foi aí que atentou para um detalhe antes desapercebido. Nas outras vezes, Pepe se sentara à direita e, nesta última, à esquerda.

            A cada novo jogo que advinha, desse vitória ou derrota, Lionel descobria novas causas para. Até o momento em que comprava o bilhete de ingresso, a boca do guichê escolhida, o horário do primeiro gole de cerveja, o lado do campo e a posse da bola em cada tempo poderiam influir.

            O ritual foi atingindo tal grau de complexidade que Lionel não mais assistia às partidas de futebol. Comparecia a todos os jogos do time pelo qual se apaixonara, dançando um estranho balé.

 

 

Lima Trindade é autor dos livros de contos Todo Sol mais o Espírito Santo (no prelo) e Corações Blue & Serpentinas, da novela Supermercado da Solidão  (também no prelo), publicou contos e ensaios em diversos periódicos (no Brasil e no exterior), é editor da revista eletrônica Verbo21 (http://www.verbo21.com.br/) e mestrando de Letras na UFBA. Nascido em Brasília sob o signo de capricórnio, lua em touro e ascendente em gêmeos, tem 38 anos e vive entre sua cidade natal e Salvador, Bahia.





 

 

 

 

O ensaio

Por Adelice Souza



Que homem é esse que pede para que eu fique nua e me diz calma? É um fotógrafo. Que está ao meu lado e, juntos, estamos a caminho do seu estúdio. Ele diz que preciso relaxar, pois só assim invadirá a minha alma. Quer invadir a minha alma, mas se esconderá atrás de suas lentes. É mesmo um fotógrafo. Essas suas lentes nos fragmentos do meu corpo, seu olho azul na minha alma: o que é mais inacessível?

E chegamos no estúdio. Eu vou tirando a roupa enquanto lembro que, na semana passada, o fotógrafo era apenas um estranho. Ele viu minha imagem scanneada no computador de um amigo e desejou tirar outras fotografias de mim. Telefonou-me e a sua voz ia dissecando os meus trejeitos revelados na tal fotografia. Perguntou-me por que eu me deixava transparecer tão segura na imagem quando, na verdade, a sonoridade da minha voz ao telefone surgia confirmando o contrário, demonstrando ares de hesitação. Eu precisava tomar mais cuidado, até um estranho agora já percebia as minhas artimanhas. A verdade é que fiquei atônita diante da sua percepção tão lúcida. E por isso aceitei o convite. Mas eu sabia que eu não era a pessoa perfeita para preencher os requisitos do fotógrafo. E depois de todas as suas impressões, eu também tinha dúvidas se o que ele buscava era realmente uma interpretação conceitual do clássico nu.

         E marcamos. Pareceu-me inusitado que alguém pudesse ter interesse em me fotografar nua. Porém dizem que se fotografa apenas aquilo que se deseja obter e eu gostei da possibilidade de um homem desejar me possuir através da posse do meu retrato. Eu também queria ver até onde todos os fragmentos do meu corpo seriam fisgados, ou se algo seria deixado apenas como lembrança para a memória do fotógrafo.

         Acabo, então, de me despir e ele limpa suas objetivas. Percebo que hoje o fotógrafo ainda é um estranho.  E sem se dar conta de que esta estranheza denota outros signos além da foto, sem compreender que é o elemento oculto que conduz à curiosidade e nos faz querer ser algo mais do que aquilo que já somos ? no nosso caso, fotógrafo e modelo ? ele me diz que começaremos pelo pé.   Ninguém disse a este fotógrafo que o pé é o ponto mais difícil? Meus pés magros e duros, herança paterna.  Tão feios os meus pés quando estão nus, que hoje vesti as minhas unhas de vermelho. Esmaltes rubros com intenção de enfeitar e proteger.  Ele foca as minhas unhas do pé.  E encrava nelas o seu flash. Meus dedos se contraem, mas não se denunciam ainda.  Para isso vesti minhas unhas de vermelho.  Atrás desse pé, habito. Com a dor dos calos e o deleite das andanças. E crio uma barreira vermelha para que o fotógrafo não me penetre pelos dedos. Sei que nos pés moram as veias que levam sangue direto ao coração. E ele quer somente fotografar o meu corpo. As lentes da máquina olham para os dedos, mas o olho azul do fotógrafo caminha por minhas pernas e sobe. Minhas pernas magras, elegantemente magras. Imediatamente, imagino que o fotógrafo lembra dos gravetos do sertão árido, o trabalho encomendado no mês passado: o fotógrafo precisa se concentrar. E bebe uma dose de whisky. Mas as minhas pernas são ágeis, cruzam-se nos ares, definidas. E sei que ele deve estar pensando: quem é essa mulher que, num simples movimento, me enlaça como uma aranha quando tece sua teia? E assim, imbuídos nas lentes, o fotógrafo e minhas pernas se deixam fotografar. A revelação e os negativos virão depois. 

Suas lentes agora olham para a minha cicatriz no joelho. Queda de bicicleta. E pelo tempo que ele se detém nesta minha pequena marca deixada no tecido fibroso, penso que ela o agrada, que esta diminuta estrutura de pele recomposta lhe traz mais do que a possibilidade de um instante fotográfico. Ele se perde na cicatriz, enquanto eu observo suas mãos inquietas buscando o zoom perfeito e querendo tocar este meu corpo que, embora ainda superficialmente, demonstra que já viveu. Brinco, rio. Foi queda de bicicleta, me espatifei no chão. Afinal, o fotógrafo precisa se concentrar na foto. Ele me olha através da lente e sorri: ruborizo. Confirma uma suspeita dizendo que gosta das imperfeições femininas. Mas será que devo aceitar esta sua hipótese? Aceitá-la seria querer negar a minha beleza diante deste homem. Negar a minha vontade de que estou aqui, também, com o intuito de despertá-lo para o que em mim é mais atrativo. Se eu aceitar esta hipótese de que ele gosta realmente das minhas imperfeições, posso querer deixá-las expostas somente para agradá-lo.  Deveria eu deixar o fotógrafo adentrar-se no que é menos virtuoso em mim?

Eu pensando e ele já caminha para as minhas coxas. Tento algum diálogo, pois imagino ser a saída para o silêncio que ameaça se estabelecer. E com o silêncio tudo é mais difícil pra mim. Para o fotógrafo, não. Com a fotografia, ele cobre o desejo do verbo. E se eu deixar, se eu me mantiver em silêncio aceitando sua posse, ele vai me excluir do meu corpo e transformar-me em coisa. Pode até fazer com que o meu corpo deixe de ser o meu corpo e passe a ser apenas a sua fotografia. Preciso ser perspicaz. Minhas pernas, percebendo esta necessidade, abrem-se lentamente. Faz-se o delírio. O corpo apresenta pra mim as suas próprias inteligências. Instaura no fotógrafo um momento de tensão que se percebe numa leve sobrancelha que treme e num franzir de testas. Seu doce olho azul em meu sexo e eu tendo certeza de que, a partir dali, seria azul a cor do açúcar.  O que pensa agora o fotógrafo: a cicatriz causada pela queda de bicicleta; o sensor autofoco com matriz em cruz ampla de cinco zonas sensíveis; o meu corpo espatifado no chão; o exposímetro exclusivo de medição central com controle personalizado; o seu trabalho com os gravetos do sertão ou os quatro modos de avanço do filme? Ele pede desculpas, pede licença, pede, pede. E sai.

Aproveito sua ausência para arrumar o cabelo com os dedos. Preparo-me assim para outro detalhe. Ele falou que queria o detalhe, foi também por isso que aceitei. Disse-me que ia me fotografar por partes, e ele, somente ele, iria me ver totalmente nua. E agora ele volta com outro whisky, destilando-se em profissionalismos.  E vou me deliciando ao ser olhada por este homem que sabe olhar: vira a coxa direita um pouco pra esquerda, um pouquinho mais, assim, pronto, ótimo.

         E a câmera, parecendo um ser autômato, já anda quase sozinha pelo meu quadril. O quadril. Meu quadril largo que insinua, mais do que qualquer outra coisa em meu corpo, toda a minha feminilidade. Meu quadril que se perde nas minhas laterais e termina marcando o começo da região das minhas nádegas redondas e firmes. Este lugar de onde eu parto sempre que quero manter em exercício as minhas seduções. E vejo como isso funciona no olho do fotógrafo, que faz um círculo pequeno em volta do próprio eixo, acompanhando as ondulações do meu quadril, numa tentativa de absorver toda a inteireza do meu movimento. Assim, o fotógrafo precisará de mais outro whisky. Para fotografar aquilo que pretende obter. O sexo. O fotógrafo, ainda sem a quantidade de bebida suficiente, diz que pulará o sexo. Que colocará o sexo pro final. 

         Para evitar um certo constrangimento que já se estabelece, o visor de titânio da máquina começa a observar a minha barriga. O visor, corpo maciço de fundição injetada de combinação de alumínio, invade este pedaço extenso da minha pele e vai esfriando tudo o que está por dentro. Abuso de um charme nos meus seios e sexo para que o fotógrafo se desprenda desta imagem da minha barriga. Quero que ele não perceba que ela é o monstro que todo dia diz à minha vaidade: existo para que você não se esqueça de ser triste. Fico nervosa com aquele olhar insistente e minha respiração ofega. O meu diafragma e o da máquina do fotógrafo operam um desconforto que sempre me acompanhou quando alguém olha pra minha barriga.  E incomodada pela insistência do fotógrafo, que dispõe minutos e minutos a esta minha parte odiosa, tento reverter o brilho, o contraste e as cores da cena para o meu pescoço. Prendo os cabelos longos no alto do crânio e, enquanto levanto os braços para deixar o pescoço nu, os seios proclamam verdades. Os dois olhos azuis do fotógrafo miram os meus dois labirintos róseos e adaptam automaticamente a zona de medição pontual à zona de focagem selecionada: os róseos vão se desfazendo e os vermelhos aparecem em todo o corpo, por fora e por dentro.

Este fotógrafo já está deixando de ser um estranho: sua comunicação comigo, mesmo com a ausência de palavras, atinge dimensões que nem o meu próprio entendimento suporta. Não me calo. O meu corpo quer gritar e minhas mãos, no intuito de me proteger, abraçam os meus seios. São os vinte e sete ossos cobertos de carne que, formando os cinco dedos da minha mão, querem falar mais do que a palavra, do que a feição. Depois dos olhos, é pela mão que falo mais. Intuindo, o fotógrafo me questiona, com muita delicadeza no tom da voz, questiona se sinto pudor. Pudor? Jamais.

Mas já não é necessário mentir: o meu corpo vai se revelando diante de sua câmera. Atrás destas nossas superfícies, existe algum mistério que facilmente se deixa aparecer. Em algum lugar, esse mistério nos une, talvez num desejo do fotógrafo em ver e num desejo meu em ser vista. As imagens que estamos construindo agora já estão preenchidas com vestígios das nossas estórias. E o mistério faz com que ele perceba que estamos nos distanciando do nosso objetivo. Quem deflagra o momento são minhas mãos que cobrem os meus seios e os medos se denunciam. O fotógrafo rapidamente compreende os meus mecanismos e quer fazer uma devastação. Diz que a partir de agora será rápido, me pede muitas poses e começa compulsivamente a me direcionar luz de todos os lados. As gelatinas dos refletores se rendem ao desejo do fotógrafo. Uma luz âmbar vai desnudando a minha face branca, quase amarela de tanto medo. Um roxo suave desenha os contornos em sombra das minhas pálpebras, quase fechadas de tanto medo. E o fotógrafo pede que eu abra as pernas. Atendo. E fecho os olhos, enquanto uma música, vinda não se sabe de onde, domina os meus sentidos e me dá coragem de fazer mais.  De olhos bem fechados, sinto que o fotógrafo tomba no tripé. De repente, são suas mãos que já exploram tudo aquilo que agora há pouco fora explorado pelas lentes. Não ouso abrir os olhos, sei que posso me deparar com toda a minha devassidão e não tenho ainda a razão precisa para dominá-la. Tudo o que as lentes possuíram em detalhe agora se desfaz em gozo misturado com o desejo acumulado nos negativos do filme do fotógrafo. Depois de um longo grito, os meus olhos repentinamente se abrem e uns azuis, os azuis da Prússia ou dos olhos do fotógrafo, não sei, finalmente se encontram com os meus. E ambos pressentem que o ensaio fotográfico acabou. Ou que talvez nunca tenha existido.


O conto O ENSAIO integra o livro ?Caramujos Zumbis? e foi finalista no Concurso de Contos em Leopoldina(MA) em 2003.



Adelice Souza(Castro Alves, 1973) ? Mora em Salvador. É diretora teatral, dramaturga e arte-educadora. Publicou dois livros de contos: As camas e os cães, pela Fundação Casa de Jorge Amado, em 2001(Prêmio Braskem de Literatura e Prêmio da UBE 2002) e Caramujos Zumbis, EPP Editora, em 2003(Prêmio do Banco Capital).





CASULO

Por João de Moraes Filho


Arranque a coragem do medo,
erga-a gargalhando ares de segredo.

Dê um dedo de esperança ao medo,
mesmo sem beleza e unhas feitas.

Merecemos a vitória do silêncio
invadido por todos os mares.

Deixemos gritar nossa alegria
sorrindo a leveza da flor

que deixou seu espinho cheiroso
na garganta metamorfoseada

da borboleta arreganhada,
com suas duas asas pousadas,

batendo-se calmamente.
Estala a fina vida e segue.





João de Moraes Filho, poeta do recôncavo baiano, Cachoeira. Publicou Pedra Retorcida, pela Fundação Casa de Jorge Amado. www.escrevistas.com.br










DIANTE DO FAROL

Por Carlos Ribeiro

 

Sentado numa pedra, diante do mar e do farol de Itapuã, remôo velhas cismas, quase eu mesmo uma pedra, uma dessas rochas milenares sobre a qual, desde tempos imemoriais, o mar lambe e lava em seu vaivém incessante, acrescentando-lhe memórias ancestrais. Memórias ancestrais... De repente aflora-me à mente acontecimentos e imagens que pensava ter esquecido: a face de minha mãe quando me tomou nos braços pela primeira vez, a atmosfera mágica da casa em que vivi, nos anos 60, meu primeiro sonho, o corredor que parecia não ter fim, o silêncio no quarto quando brincava no final da tarde, o cheiro dos sargaços, o cheiro das mangabas, o cheiro dos cajus e do mato molhado pelo sereno, uma lavadeira que cantava, o estranho e misterioso som das palavras, a espantosa descoberta da dor, a surpresa de estar alegre, a mesa do café, a família sentada à mesa, o despertador tocando na madrugada quando meu irmão mais velho saía para o serviço militar, em 1970, quando Lamarca aterrorizava os quartéis, o meu desejo de também servir o exército e que, depois (felizmente), perdi, a vizinha que me amava, os carros passando nas ruas e nos viadutos, o cheiro do óleo numa oficina mecânica em Nova Brasília, minha bicicleta, meu primeiro livro, meu primeiro carro, meu filho. Caminho com ele de mãos dadas pelo meu passado e de repente vejo que a criança sou eu mesmo.

Salvador, a cidade, a cidade ensolarada, que tanto aprendi a amar, dera-me o privilégio de andar de mãos dadas com a criança que fui. Mas, do que adianta lembrar do que não é mais? Prefiro sair sozinho, caminhando, com as mãos nos bolsos, pelas ruas molhadas e voltar para casa e dormir. E sonhar com um homem que todos os dias percorre o mesmo caminho para nunca chegar a lugar algum. Mas eu posso chegar a algum lugar! Veja esta casa, é a casa do meu avô, a mesma que conheci quando meu pai me levou pela primeira vez ao interior da Bahia, em Conceição do Jacuípe, com seu DKW branco, que logo mais se tornaria um monte de ferros retorcidos, com marcas de sangue e gritos, gritos que nunca ouvi, porque eu não estava lá, naquele dia fatídico do ano de 1973, no momento exato em que uma camioneta em alta velocidade saiu da estrada e acertou em cheio o carro, no qual estavam meu pai, minha irmã, de 11 anos, e meu irmão, de 3, numa curva de Amélia Rodrigues. Ele só teve tempo de dizer: ?Nossa Senhora!? e se foi, e acho que seu último pensamento foi este: Nossa Senhora... e se lhe dessem tempo, pensaria também: ?Isto não pode acontecer. Os meus filhos... Os meus filhos...? e o silêncio seguido de passos e de vozes das pessoas que se aglomeravam em volta do carro. Alguém fez massagens no coração, mas era tarde demais, e levaram as crianças para o hospital de Feira de Santana. E eu estou sentado na varanda da casa antiga do meu avô Tranqüilino ? um sertanejo duro e espigado nos seus metro e oitenta, na sua careca e bigode alvos, na sua bondosa rispidez, na mão aleijada (por uma bomba de São João), que segurava o charuto sempre aceso, no jeito de olhar pela janela, vistoriando o tempo, no câncer que lhe destruiu a boca e a laringe, naquela ausência...

- Meu avô ? digo eu na cozinha da casa rústica, olhando o reflexo bruxuleante do candeeiro nas paredes da casa. ? Então eu sou obrigado a lhe dar essa notícia, que o seu filho, que o meu pai, que ele...

Mas o avô não espera que eu fale. Ele entra no recesso escuro da casa, lá onde fica a escuridão mais escura, e em toda a casa larga e extensa, em toda a casa com suas profundidades, em toda casa com suas memórias, em toda a casa com o seu obscuro passado, só há esse candeeiro que ilumina essa parede próxima a mim, e nada mais se mexe na casa além de uma lagartixa branca, quase transparente que salta sobre uma das inúmeras formigas de asa que pululam incessantemente na parede ? e tudo o mais é tão quieto e silencioso...

Veja: o carro ainda está lá, monte de ferros retorcidos, as frutas (jacas, mangas, laranjas, limas, limões) esparramadas no asfalto, e o carro ? meu avô, meu avô, digo para o quarto escuro, mas ninguém responde ?, e eu me lembro da alegria que tivemos quando meu pai chegou com o carro, pela primeira vez, morávamos ainda naquele apartamento apertado e infinito do Taboão, num tempo em que Salvador tinha aquele colorido suave de tons pastel, que saveiros e baleias passavam no horizonte calmo, que papa-figos aterrorizavam criancinhas, que a cidade mergulhava a nós, seus filhos, em sua doce quietude.

Caminho para a varanda e vejo a lua branca cheia iluminando as roças de milho e os pés de lima e aquela jaqueira que ficava bem defronte à casa do meu avô. É tudo tão passado, penso. E, então, eu dormi, numa noite remota, na casa em Itapuã, dentro do carro, na caminha improvisada por minha mãe com cobertores grossos e travesseiros e lençóis, na garagem, e a minha mãe dizendo: ?Deixe o vidro aberto para entrar ar?. E dormi, como Jonas na baleia, ali no ventre daquela estranha máquina que passaria, com o tempo, a fazer parte da família, juntamente com os passarinhos do meu pai, o gato, o cachorro, o cágado e a coleção de revistas em quadrinhos do meu irmão...

Eu não sabia ainda que eles não eram eternos.



 

 

Carlos Ribeiro (Salvador, 1958) é jornalista, professor e escritor. É co-editor da revista Iararana e autor de sete livros, dentre os quais se destacam O chamado da noite (romance, Sette Letras, 1997), O visitante noturno (contos, Fundação Cultural da Bahia, 2000), Caçador de ventos e melancolias: um estudo da lírica nas crônicas de Rubem Braga (ensaio, Edufba, 2001) e Abismo (romance, Geração Editorial, 2004). Participa das antologias Geração 90: manuscritos de computador (Boitempo, 2001) e Contos cruéis (Geração Editorial, 2005), entre outras.




Marcapasso
Por
Állex Leilla

Para Marquinho e sua eternidade cinza.

 

Falar sobre os lados escuros e claros da minha vida quando pingam tua morte, da minha morte, quando recebe pingos de tua vida, vidas e mortes que nos repetem e perpetuam, eu mal sei escolher os verbos, hora em que um principia de pé, de bruços, no batente, na penumbra, outro já me monta os ombros, escorrega, olhos sozinhos diante do mar. Mas tinha que lhe mostrar alguma coisa, se mudar os pronomes, se mudar quem sabe o entrave deles, fugir dos erros da 2ª pessoa do singular, que nenhuma pessoa, nem eu nem tu nem ele/ela são mesmo retas, nem é caso de se ser, nós vós eles/elas somos/sois/são tudo derrotado, pra gente não sobra sequer umazinha palavra fora de regrinhas manda-chuva pra concisão sair bem certinha, antes que o infinitivo do vá-tomar-no-cu peça conjugação.

 

Te falo: estou quase no limite. Me dê um cigarro, por favor. Os farelos marcam no ar a formalidade, doce doce formalidade, com que nos velam os primitivos verbos. É um filete de saliva, brasa de tua boca, fumaça minha, Lili Marlene se repetindo, isqueiro, tosse, não, não é o meu preferido de Fassbinder, cinzas, tosse, tosse, café. Vê que universo desvaira a língua? Você falaria de controle, abandono, câncer, vírus, uns fins que nos empobreceriam. Eu ensaiaria uma vida, horas de sombras e prenúncios, como agora, perspicando - não foi você quem me disse gostar desse verbo? Então: perspicando, perspicando... Que nada seja dito pois, poesia ou merda, as velhas palavras escorrem, poesia ou merda, nos mesmos sóis que agora te abarcam, que, noutra hora qualquer, te ignoram. Putrificadas, nas bocas e nas ordens das bocas, elas estão vestidas à tradição, à moda da casa, e fedem, caem da minha ignorância e de tradução em tradução, vêm ao calor da imagem. Se forem tela: Juliete-Binoche-esferas. Sim, é um dos meus preferidos de Kiéslowski... Uma nova palavra que não me toca, mas me espia em cima desses parapeitos alheios. Vê, ela vê como ando rasgada dela. Vê obscura e me dá as costas, seu flerte arredondado, perdido, azul-metálico, seu escurecer surdo: Binoche na retina de Kiéslowski, assim me vem ela, a palavra, numa liberdade que se aflora em não ter cor. Como nascer? Um, dois, três, novamente: oh, baby, baby, já me esqueci... Não sei como, mexendo estreita nos sentidos, estou, estás, que se fodam os sentidos, os mortos das palavras - esses poetas que me nascem dedos dentro, dedos fora - poetas ou merdas, carnificinas das palavras, que se fornifiquem os poetas, e deus, assim mesmo, com letra minúscula, e eu, e tu, toda a desgraça que é nossa vida, beba de volta sua linguagem, que nada seja escrito então, chega, por favor, socorro, um minuto:

 

Você está completamente equivocado. Isso não existe. Eu não espero que me amem. Por piedade, identificação, reconhecimento. Não, não espero nada de ninguém. E sentir assim em relação a tudo é como desafogar os rios e as pessoas, vento & cascata de folhas no chão. A impureza impede-nos e, líquida, eu mormaço dentro do tempo que a todo instante se desfaz. Vamos estar de novo entre nuvens de não-sei-se-espero, não-espero-pois-sei, navios aqui, navios cortando as linhas da mão. Porque nada sei quando inicio a travessia a nado, sem fôlego, sem preparo, fumante, sozinha. A travessia sem barco, só o corpo entre alegrias e amarguras que querem ser estrelas e querem ser facas. Nada sei quando te escrevo, só mesmo seu nome, e o que quero é um branco largo, branco iluminado de Brasil nunca vivido, esse branco Glauber sempre em transe, estraçalhando, rindo de mim, de ti. Se tivessem claros a minha necessidade, o desejo, a pulsação, eu não escreveria outonos & invernos pra que você, munido de Freud e mais sei lá o quê, tentasse decodificar.

 

Apenas amor, memória entrecortada, lápides com seu nome encravado, fluxos de sangue morno, e novas cascatas, só que agora: no ar. Apenas amor, e ausente o outro, a verdade troncha da construção. Só, só, invariavelmente sozinha, arame farpado, lentidão, bicadas no pão dos pássaros que nunca é meu.

 

Porém, agora: saia. Tua beleza incurável não vai me engolir o infinito das cores. Saia, meu mundo é todo tão negro, meu bem, que nem o branco é capaz de nos alargar. O branco só sustenta nossos olhos, O amor é mais frio que a morte, ou quem sabe Não amarás, desses caras você pode trazer tudo, aqui sempre vai caber.

 

Por delicadeza, não espero que retorne e me ame, me acalmando os ventos, me explicando as constelações. Porque, arame farpado, eu reconheço: o cinza tomar-me-ia pela frente, o cinza junto ao teu nome e ao meu está sempre te levando. Foi num acidente de ônibus, volta o cinza a me dizer, só ele morreu.

 

Não acredito, acho, mais uma vez, que o cinza é a cor da mentira, essa cor e minha vida andam o tempo inteiro fazendo traça de mim. Porque você me ensina aos poucos, e lento, e fugidio, me ensina a marcar os passos quando é tempo de ir avançando sem terreno, sem visão. Você me ensina que escrever é um ato que começa e encerra por si mesmo, em si mesmo, pra ninguém. Historinhas de busca, de falta, de espelho e do outro ficam bem em quartos fechados, em vidas ganhas, em salas com divãs. Escrever é marcapasso pra quem, como eu hoje, como você ontem, está em sobrevida desde que nasceu.

 

 

 

Állex Leilla nasceu em 1971 em Bom Jesus da Lapa (BA). É graduada em Letras pela UFBA, onde também fez Mestrado, em 2001, em Letras e Lingüística, trabalhando com os temas da loucura e homossexualidade nos contos do escritor Caio Fernando Abreu. Atualmente, é doutoranda em Literatura Comparada na UFMG. Publicou os livros Urbanos (contos, premiado em 1997 pela COPENE e Fundação Casa de Jorge Amado), Obscuros (contos, 1999, editora Oiti) e Henrique (romance, 2001, ed. Domínio Público). Com o conto Um elefante, integra a antologia 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira, organizada por Luiz Ruffato e publicada pela editora Record, em 2004. Assina, mensalmente, a coluna Giz, na revista de cultura e literatura www.verbo21.com.br    Vive em Salvador (BA), onde é professora de Teoria da Literatura (UNIFACS) e Oficina da Comunicação Escrita (FTC). O texto Marcapasso faz parte do livro Escritos do outono, ainda inédito.

Adrienne Myrtes