06/05/2012 Número de leitores: 621

Área Q

Alfredo Suppia Ver Perfil

Hangar 18, Área 51, Arquivo X, Distrito 9. Esses termos misteriosos são bem conhecidos dos fãs de ficção científica na TV e no cinema. Até pouco tempo atrás esses eles costumavam designar locais em Utah, Nevada, Nova York, Washington - Johannesburg para surpresa de alguns em Distrito 9 (dir. Neill Blomkamp, 2009). Lugares em que se falava o inglês. Mas agora nós temos nosso próprio “local misterioso” - e, quem diria, na região de Quixadá e Quixeramobim, no Ceará. Área Q, filme dirigido por Gérson Sanginitto, abriu o 2º Festival de Cinema Transcendental em Brasília e estreou em circuito nacional no dia 13/04/2012.

Área Q foi produzido por Luis Eduardo Girão, o mesmo produtor do sucesso de público Chico Xavier (2010), dirigido por Daniel Filho. O interesse de Girão pelos “filmes espíritas” começou com Bezerra de Menezes: O Diário de um Espírito(2008), de Gláuber Filho e Joel Pimentel. Sem fazer muito alarde no lançamento, o filme arrecadou R$ 3,5 milhões. Em 2011 dois filmes produzidos por Girão - As Mães de Chico Xavier, dirigido por Gláuber Filho e Halder Gomes, e O Filme dos Espíritos, dirigido por André Marouço e Michel Dubret - foram alguns dos títulos mais vistos no ano, e juntos arrecadaram R$ 7,8 milhões.

Em Área Q, o filme espírita produzido por Girão ganha elementos de ficção científica, algo já observado anteriormente no longa Nosso Lar (2010). Dirigido por Wagner de Assis, Nosso Lar acena com uma possível tendência para as manifestações da ficção científica no cinema brasileiro: a combinatória com o filme espírita, nesse caso a matriz genérica dominante. Baseado na obra do médium brasileiro Chico Xavier, Nosso Lar relata as experiências de André Luiz (Renato Prieto) após sua morte, quando seu espírito vaga pelo umbral (espécie de purgatório) mas acaba resgatado, vindo a conhecer a cidade espiritual que dá nome ao filme, uma espécie de comunidade de recuperação de espíritos no qual estes são preparados para a reencarnação. Em Nosso Lar, André faz amizades importantes, revê parentes e amigos e repensa suas crenças e valores, reeducando-se para uma nova vida. Nosso Lar é sem dúvida alguma um filme espírita. Sua temática e modo de enunciação visam a comunidade espírita brasileira, principalmente, mas também um público mais amplo. Vale dizer que o espiritismo ocupa lugar de expressão no cenário religioso brasileiro. Dentre os eventuais elementos de ficção científica presentes nesse filme espiritualista, poderíamos apontar pelo menos dois: o design da cidade espírita (Nosso Lar) e a narração em voice over, que recorre a uma impostação científica, algo proveniente da própria origem do Espiritismo enquanto doutrina. Amplamente baseada em efeitos de computação gráfica digital [1] Nosso Lar é uma cidade supra temporal que paira sobre a Terra, mas exibe ícones/índices de futurismo nas linhas de sua arquitetura e em alguns equipamentos, como podemos verificar na enfermaria para onde André Luiz é primeiramente atendido, na sala de comunicação com os vivos ou na sequência do “aerobus”, espécie de “metrô aéreo” que levita cruzando os céus da cidade. A arquitetura de Oscar Niemeyer e Santiago Calatrava inspirou desde o princípio a diretora de arte Lia Renha em sua tarefa de criar, junto ao cenógrafo Marcus Ranzani e equipe, uma cidade que encarnasse os conceitos de leveza, fluidez e simplicidade.

Ao que parece, o público brasileiro pode ter resistência a um cinema de ficção científica nacional, porém se mostra receptivo quando esse gênero tradicionalmente associado à (pseudo)ciência e (pseudo)tecnologia aparece nutrido de alguma doutrina espírita. Desde Nosso Lar tenho acreditado que o cinema brasileiro espírita com elementos de ficção científica pode se desenvolver muito mais nos próximos anos.

Vale lembrar que a associação entre Espiritismo e ficção científica não é tão absurda quanto possa parecer, dado o próprio cientificismo da doutrina kardecista, por exemplo, e a obra (tanto científica quanto de ficção) de autores como Camille Flammarion (1842-1925), que fora amigo de Allan Kardec. Se o realismo sempre pareceu tão influente nas letras e no cinema brasileiro, o fantástico parece encontrar uma via de entrada ou ser mais bem aceito pelo público espectador justamente nas narrativas espíritas, de filmes de comédia (O Jovem Tataravô) e horror (Excitação) a adaptações mais contemporâneas, com amplo recurso à computação gráfica e a elementos pontuais do imaginário científico e tecnológico.

 



Por sua vez, Área Q começa em 1979, com um caso de abdução no sertão do Ceará, entre Quixeramobim e Quixadá. De lá saltamos para os EUA contemporâneos. O filme se costura sobre avanços e recuos no tempo, com foco especialmente centrado no personagem Thomas Matthews (Isaiah Washington), jornalista americano que vem ao Brasil nos anos 2000 investigar casos de abdução na “área Q”. Esse é o primeiro trabalho de reportagem assumido por Thomas depois do desaparecimento de seu filho pequeno, supostamente raptado por um pedófilo. O jornalista passa tempos de depressão e angústia à espera de notícias do filho, e acaba por viajar ao Brasil meio a contragosto. Mal sabia o “gringo” que, uma vez no sertão do Ceará, sua vida nunca mais seria a mesma...

Extremamente irregular, Área Q “sucumbe” em diversos momentos. E isso nada tem a ver com a qualidade de seus efeitos especiais. Efeitos visuais não são o menor problema nos dias de hoje, nem para o cinema de ficção científica, nem para os cineastas independentes – lembremos do curta Ataque de Pánico! (2009), do uruguaio Federico Álvarez. Área Q tem sua dose de efeitos visuais de praxe – simplórios talvez, porém bem-acabados. Num aspecto o filme acerta com algum louvor: nenhum extraterrestre é de fato explicitado. Mas o fato é que, muito embora aposte na sugestão, o filme nada oferece de novo e criativo em termos de ficção científica. Na verdade, sua associação com o gênero talvez seja puramente circunstancial ou oportunista. As repetidas citações a Rachel de Queiroz - autora de O Quinze, mas também do notável conto de ficção científica “Ma-Hôre” (1960) -, não salvam Área Q do lugar comum. “Ma-Hôre” foi republicado recentemente na coletânea de contos Páginas do Futuro, organizada pelo crítico, roteirista e escritor Bráulio Tavares (Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2011). Segundo Luiz Zanin Oricchio

De fato, como imaginar que a autora de um clássico do romance regionalista como O Quinze poderia escrever um conto de ficção científica como "Ma-Hôre", tão intenso e enxuto que bem poderia ser filmado por um grande estúdio norte-americano? (…) O fato é que, surpresas à parte, com "Ma-Hôre", Rachel de Queiroz assina um dos melhores contos do volume. O título seria o nome de um homúnculo de aparência benigna, embarcado involuntariamente em uma nave pilotada por humanos e que o leva à Terra, para longe do seu planeta natal. Rachel trabalha com habilidade o tema do "estranho entre nós" e prepara um desfecho surpreendente para o leitor. Ao ler esse conto, impossível não pensar que a autora deveria ter se dedicado um pouco mais ao gênero. (http://tribunadonorte.com.br/noticia/ficcao-cientifica-a-moda-brasileira/207811)

Ma-Hôre, o homúnculo alienígena que dá nome ao conto, parece uma espécie de “Macunaíma do espaço”, e sua presença na espaçonave terráquea não deixa de lembrar remota e sutilmente o conto “The Black Destroyer”, de A. E. Van Vogt (The Voyage of the Space Beagle, 1950), o qual teria inspirado a série cinematográfica Alien. As qualidades do conto de Queiroz, porém, não parecem reverberar significativamente no longa de Sanginitto – a rigor o filme não tem nada que ver com o conto. Rodado com tecnologia de cinema digital, Área Qparece mais um telefilme ou, melhor dizendo, o piloto de uma série, uma estória curta “esticada” para preencher um longa-metragem. O filme apresenta uma fotografia que também lembra as telenovelas brasileiras – e mesmo algumas americanas. A própria atuação dos personagens e a mise-en-scène também reforçam essa impressão. Representativa da panaceia de clichês e lugares-comuns que o filme oferece é a sequência em que Thomas encontra o (espírito do?) fazendeiro João Batista (Murilo Rosa) pela segunda vez, e este explica ao estrangeiro alguns “segredos” do universo e de sua missão na Terra. Apesar dos efeitos visuais, em momentos como esse o que haveria de ficção científica no filme sucumbe de vez ao poder do cinema de frases feitas e “enquadramento centralizado”. Problemas de matiz cultural também incomodam, como a fala segundo a qual a cor negra do visitante estrangeiro causaria espanto aos moradores locais.

A Pedra da Galinha Choca (antiga Pedra da Arara), famoso monólito em Quixadá, aparece como cenário ao fundo de uma sequencia em que Thomas e Valquíria (Tânia Khalil) conversam. A paisagem é exuberante, mas para cinéfilos mais atentos remete também ao longa O Cangaceiro Trapalhão (1983), de Daniel Filho. Um intertexto interessante, mas que também sugere uma certa comicidade contida no filme de Sanginitto.

O fato de Gérson Sanginitto ser absolutamente refratário a classificações genéricas como “filme espírita” ou “filme de ficção científica” talvez seja mais um problema do que uma solução para Área Q. Nesse sentido, o filme parece a meio caminho de qualquer coisa. Em outras palavras, Área Q fracassa ao ambicionar um status supra genérico e absolutamente “universal”. Em entrevista ao G1 durante mesa-redonda promovida em hotel paulistano, Sanginitto deixou claro sua impaciência com o suposto rótulo de “filme espírita”:

É completamente errada [a associação], me irrita profundamente, porque nunca foi a intenção (…). Este filme não é espírita, não é religioso, a gente não fala de religião, não é doutrinário. Não é nem ficção científica, [rótulo] que eu acho que até diminui um pouco o filme. (…) Esses elementos de ficção, essa abordagem sutil espiritualista, na verdade é um pano de fundo para o drama desse pai que está à procura do filho que desapareceu.” (http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2012/04/diretor-de-area-q-diz-que-se-irrita-profundamente-com-rotulo-espirita.html)

Sanginitto nega a vinculação de Área Q ao “cinema espírita”, a despeito do envolvimento da produtora Estação da Luz, de Luis Eduardo Girão. Uma pena que os elementos espíritas e de ficção científica tenham servido apenas como pano de fundo para “o drama desse pai que está à procura do filho que desapareceu.” Minha impressão foi justamente o contrário: o drama do pai é que me pareceu o pano de fundo. A hesitação talvez tenha sido a maior fraqueza do filme. Talvez um investimento mais assumido no filme de “rótulo” pudesse trazer resultados mais interessantes – desde que, no caso da ficção científica, houvesse razoável familiaridade dos realizadores com a complexidade do gênero.

A indefinição narrativa e de gênero ecoa no plano da identidade cultural. Ainda segundo Sanginitto, Área Q “É um filme em inglês, isso já quebrou muitas barreiras. Era uma intenção, fazer um filme internacional. Tem umas pessoas aí dizendo que é um filme brasileiro com cara de americano. Eu adorei [ouvir] isso.” (http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2012/04/diretor-de-area-q-diz-que-se-irrita-profundamente-com-rotulo-espirita.html)

Conforme se suspeita a partir da fala do diretor, Área Q contribui muito pouco em termos de um cinema de ficção científica genuinamente nacional. Uma pena. Vale como esforço e experiência, porém.


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[1] Os efeitos visuais de Nosso Lar ficaram a cargo da empresa Intelligent Creatures (http://www.intelligentcreatures.com/#Home), baseada em Toronto, Canadá.

Alfredo Suppia