20/01/2006 Número de leitores: 798

Especial Los Paralelos ? Literatura Hispano-Americana

Claudinei Vieira Ver Perfil

Por Claudinei Vieira (com colaboração de Marcelo Barbão)








Editorial

 

Foi o pessoal da Amauta, uma pequena editora paulistana dedicada a publicar autores hispano-americanos importantes, mas que nunca foram lançados no Brasil, quem teve a sacada: há um verdadeiro Muro de Tordesilhas que separa o nosso país da Hispano-América. A idéia em si talvez não seja exatamente original, mas a expressão é mais do que uma simples frase de efeito. Retrata uma situação de fato, concreta e óbvia, patente a todos os olhos e ainda faz referência às raízes de explicações, e diferenças, históricas, culturais e políticas. Há muito tempo que o Muro existe e, apesar de tímidas tentativas aqui e ali de desmontá-lo, ele resiste, bravo e forte.
 

Mas, já que falei de obviedades, ninguém morrerá se eu disser mais uma: há muita gente escrevendo por estas américas todas, indo além e independente das sombras dos fodões-maiores, os eternos Garcia Márquez e Llosa & Companhia. Mais do que isso: tal como no Brasil existe uma nova vida literária, um novo fôlego, uma nova prespectiva, gente boa escrevendo bem!

Isso deve parecer um contra-senso para fundamentalistas literários que adoram se ajoelhar em milho e se chicotear enquanto choram ?Guimarães Rosa morreu! Guimarães Rosa morreu!? (a tradução em termos continentais creio que ficaria algo do tipo: ?Borges ha muerto! Borges ha muerto!?...). Paralelos nunca levou a sério estas limitações bestas, e a própria existência de um movimento de articulação de novos e novíssimos autores iniciado na década de 90 e que ganhou corpo com a adesão dos novíssimos nos anos 00 serve para mostrar o vigor, ou teimosia, desta literatura mais recente.
 

Continuando a identificar, publicar e integrar estes autores que estão trabalhando e jorrando sua escrita sem se preocupar com nossos fantasmas históricos, abrimos as portas para nossos hermanos hispano-americanos.

Com o Especial Los Paralelos pretendemos apresentar um pequeno recorte do que está acontecendo hoje em termos de literatura nas terras vizinhas e saber o que eles estão aprontando.

 

ATAHUALPA YUPANQUI e BRUCE LEE

Servirá também para começarmos a entender o por quê, afinal de contas, chegamos a esta situação. Pois devo dizer que esta não foi eternamente fixada por nenhum poder divino, nem inclusive existe há tanto tempo como se pode imaginar.

Lembro, por exemplo,... Sou do tempo em que os cinemas no Brasil eram obrigados a exibir produção brasileira, uma porcentagem em relação a filmes estrangeiros. Tenho a impressão de que essa lei ainda existe (ou estão tentando que volte). Na época, cumpriam. Qualquer coisa, desde que fosse brasileiro. O normal eram programas de noticiário, principalmente sobre futebol, e curtas. Desta forma, acabei assistindo a muitos filmes brasileiros, sem querer. Isso é para explicar porque, em um certo dia da minha adolescência, fui assistir um filme de kung-fu no centro da cidade (é, também sou do tempo que existiam vários cinemas no centro de São Paulo) (e é, adoro filmes de kung-fu, Bruce Lee e etc) e acabei vendo um documentário sobre a América Latina.


Era um curta que exibia o trabalho de um fotógrafo brasileiro que durante muitos anos percorreu as Américas de ponta a ponta. Não havia narração, só uma música. Não precisava narrador, as fotos eram o suficiente. Para mim, foi um impacto, a primeira vez em que tomei consciência real de um mundo fora da minha cidade (eu era pré-adolescente). Pela primeira vez, vi a miséria com outras roupagens, fome em outras línguas. E havia, ao mesmo tempo, um clima de dignidade, de força impressionantes. Aquilo era muito novo para mim, não entendia. E aquela música me tirava do sério. Posso dizer, sem sombra de dúvida, que naquele exato momento me tornei um ser político. Não lembro de nenhuma cena do filme que fui assistir, nem lembro alias qual era. Mas saí do cinema decidido a conhecer e entender melhor o que havia visto. Precisava saber de quem era a música e do que falava.

E conheci.
 

Deixei-me tragar por uma cultura vasta e poderosa, com uma história de revoltas e líderes interessantes, de lutas mortais, de sofrimentos atrozes e belezas inenarráveis. Conheci a história de Jose Martí, de Bolívar, San Martin. Das revoltas indígenas no Peru, dos mineiros da Bolívia, do ditador paraguaio. Li As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano e Bom dia para os defuntos, de Manuel Scorza, e Canto geral, de Neruda, e Siete ensayos de interprepación de la realidad peruana, do Mariátegui, quase que em seguida.

Depois adentrei por Gabriel Garcia Márquez, Ernesto Sabato, Mario Vargas Llosa, e tantos outros. Conheci o cinema do cubano Gutierrez Alea e do argentino Fernando Solanas. Ouvi a voz portentosa de Mercedes Sosa, Violeta Parra, Victor Jara, que derramavam poesia, amor, paixão, e política militante contra suas ditaduras.

Conheci uma outra América Latina quando era pré-adolescente, viciei-me e nunca mais me curei.
 

 

MAS HAVIA UMA EFERVESCÊNCIA GERAL E COMPARTILHADA

Isto é, estava no ar. Havia programas de rádio dedicados à música hispano-americana; programa de TV, na rede Globo!, apresentado por Chico Buarque e Caetano Veloso cantando junto com Mercedes Sosa; e os tais Garcia Márquez e companhia já eram os fodões, sem dúvida, mas ainda não estandardizados como agora.

Então, o que houve? Como o Muro de Tordesilhas pôde ser mantido de tal modo que hoje em dia não se conhece, nem se deseja conhecer, uma crescente produção literária como a dos argentinos, por exemplo?, pela qual seria possível mostrar um especial só deles.

Em uma conversa com Ricardo Lísias (um camarada interessante: com trinta anos, já tem três livros publicados, ?Duas Praças?, ?Cobertor de Estrelas?, ?Dos Nervos?, e está partindo para um pós-doutorado em Literatura Latino-americana, após um mestrado e um doutorado em literatura brasileira!), foi possível vislumbrar um encaminhamento. Sua Pós vai tratar mais especificamente da literatura de repressão chilena, argentina e brasileira. Uma primeira constatação é a desta anterior cumplicidade política da resistência às ditaduras e que foi diluindo à medida que os movimentos sociais se agitavam e terminavam suas respectivas. Enquanto os processos de derrubada das ditaduras seguiram formas muito diferenciadas (na Argentina e Chile mais violentas e objetivas do que no Brasil, mais ?negociada?), a literatura (e a cultura) pós - ditatorial segue igualmente uma maior diferenciação. Isto é, há uma espécie de profunda necessidade para os argentinos e chilenos de repensarem e discutirem e reimaginarem seus países e seus respectivos períodos repressionais e sua relação com a atualidade (veja-se a literatura do jovem argentino Martin Kohan, por exemplo) (veja-se os apuros de um Pinochet que a muito custo está se mantendo a salvo no Chile, outro exemplo) enquanto que no Brasil parece existir uma necessidade contrária e absoluta de se esquecer, de deixar de lado, de não ser ?político?, em trabalhar no lado de experimentação simbólica e de linguagem. Há um verdadeiro horror nas palavras "Política", "Partido", "Ideologia", e uma terrível confusão entre os termos que se confundem com os problemas de governo (que não deixam de ser desestimulantes, por certo).
 

Uma outra obviedade (mais uma!) é o constatar de um absurdo desconhecimento desta América Hispânica. Naquela mesa com Ricardo Lísias nos fizemos um pequeno teste e nos perguntamos qual seria um puta autor da Bolívia. Ficamos nos olhando, refletindo sobre nossa bruta ignorância. Mais tarde, entrando na internet busquei os sites sobre a literatura boliviana e encontrei vários. Nunca duvidei que eles escrevessem; devem existir inclusive escritores extraordinários. Mas naquela noite no computador havia para mim somente nomes e nomes que não me diziam nada.

Pois bem, um dos principais objetivos deste especial é buscar estreitar a distância, acompanhar o movimento, diminuir a ignorância. Minha sim, minha assumida ignorância, e a de tantos outros, nem tão assumida.

Trabalho e projeto que não teriam vingado não fosse o empenho do Marcelo Barbão, da Editora Amauta, que mantém em Paralelos a coluna mensal "Tordesilhas", onde publica textos de autores hispânicos no original em espanhol e traduzidos para o português -- cabe mencionar que Marcelo Barbão foi responsável pela tradução dos textos apresentados nesta edição -- e o incentivo de Augusto Sales e a própria existência de Paralelos e o auxílio de tantos outros como Marcelino Freire (que intermediou alguns contatos), Maria Alzira Brum e dos próprios autores participantes e do pessoal da Amauta que, com sua batalha e suor, plantam semillas de inmensidad e esperanças, proporcionando-nos um belíssimo exemplo.

E assim estaremos contribuindo para a derrubada do Muro. Neste exato instante.

Em tempo: nosso site parceiro Cronópios, estreitando-nos em seu internético abraço cortazariano, divulga e disponibiliza alguns dos textos de "Los Paralelos", Valeu.


- (A música que ouvi naquele dia naquele cinema era Yo tengo tantos hermanos, de Atahualpa Yupanqui. Naquela época, sempre havia quem gritasse: "Toca Raúl" da mesma forma e na proporção de "Toca Gracias a la vida". Fico imaginando quem ainda sabe da existência de uma Mercedes Sosa, de um Victor Jara, ou de um Atahualpa Yupanqui)

Yo tengo tantos hermanos que no los puedo contar.
En el valle, la montaña, en la pampa y en el mar.
Cada cual con sus trabajos, con sus sueños, cada cual
Con la esperanza adelante, con los recuerdos detrás.
Yo tengo tantos hermanos que no los puedo contar.

Gente de mano caliente por eso de la amistad.
Con un lloro pa llorarlo, con un rezo pa rezar.
Con un horizonte abierto que siempre está más allá.
Y esa fuerza pa buscarlo con tesón y voluntad.
Cuando parece más cerca es cuando se aleja más.
Yo tengo tantos hermanos que no los puedo contar.

Y así seguimos andando, curtidos de soledad.
Nos perdemos por el mundo, nos volvemos á encontrar.
Y así nos reconocemos, por el lejano mirar,
Por la copla que mordemos, semilla de inmensidad.
Y así seguimos andando, curtidos de soledad.
Y en nosotros nuestros muertos pa que nadie quede atrás.
Yo tengo tantos hermanos que no los puedo contar,
Y una hermana muy hermosa que se llama Libertad !














ESPECIAL LOS PARALELOS

Especial bilingüe com modernos escritores latino-americanos

 

Organização e seleção: Claudinei Vieira e Marcelo Barbão

Traduções: Marcelo Barbão

 

 

 

autor

Em Português

Em Espanhol

Tipo

País

Mónica Bustos

Calafrio

Repelús

conto

Paraguai

Efraim Medina Reyes

Dillinger nunca teve uma oportunidade

 

Dillinger jamás tuvo una oportunidad

 

conto

Colômbia

Luis Humberto Crosthwaite

Correndo para o fogo

Corriendo hacia el fuego

 

conto

México

Martín Kohan

 

Bolívar e Moreno

Bolívar y Moreno

 

conto

Argentina

Élmer Mendoza

Zona de derrubada

Zona de derrumbres

Conto

México

José Pérez Reyes

O foguete

La bengala

conto

Paraguai

Carlos Oriel Wynter Melo

Chiclete

Chicle

conto

Panamá

Leo Felipe Campos

Gustavo na Janela

Gustavo desde la ventana

conto

Venezuela

Claudinei Vieira

Rock, boxe e poemas

 

Entrevista com Efraim Medina Reyes

 

Claudinei Vieira

 

?Continente em chamas?, Maria Laura Silveira

 

resenha

 

Claudinei Vieira

EDITORIAL

 

 

 

 





Mónica Bustos

 

Nasceu em Assunção, Paraguai, em 16 de março de 1984, filha de um pintor magnânimo, um Rembrandt não reconhecido, e de uma mulher que aprecia a arte como poucos. Foi criada sem outros interesses a não ser os livros e graças ao apoio de seus pais pôde publicar o primeiro, uma novela de ficção de quatrocentas páginas, ?León Muerto?, aos 20 anos, em abril de 2004. E graças à cálida acolhida ao cadáver do rei da selva, por um público desidioso que se animou a ler uma literata nova ? que tinha duas coisas contra si: ser jovem e sem compatriota ? foi possível o lançamento do segundo livro ?Complejo de Bustos? (abril de 2005), onze contos sobre personagens que beiram a loucura e misturam fantasia e realidade. Atualmente trabalha como Diretora da Galeria de Arte no Centro Cultural Porfirio Busto, luta por seu projeto ?Cría Cuervos? (tentativa de criar uma editora independente), co-escreveu um roteiro cinematográfico que será rodado em 2006 pelas mãos do cineasta independente (paraguaio) Jorge Pettengill. Também trabalha em sua próxima novela?

 

 

Carlos Wynter

Nascido na Cidade do Panamá em 7 de agosto de 1971. É Engenheiro Industrial. Publicou 4 livros de contos: El escapista (1999 ? ganhador do prêmio nacional de contos ?José María Sánchez?); Desnudo y otros cuentos (2001); El escapista y demás fugas (2003); Invisible (2005).

 

 

 

­José Pérez Reyes

-Nascido em Assunção (Paraguai) em 1972

- Advogado e professor universitário

-Escritor membro do Pen Club

-Membro da Comissão Diretora da Sociedade de Escritores do Paraguai

-Autor do livro de contos ?Ladrillos del Tiempo? (2002) que recebeu a menção honrosa do prêmio ?Roque Gaona 2003?

- Membro integrante do Fórum de Escritores Jovens do Mercosul

-Escritor representante do Paraguai no III Encontro de Novos Narradores da América Latina e Espanha que ocorreu em Bogotá de 4 a 7 de novembro de 2003.

-Publicação do relatório ?Ese laberinto llamado ciudad? em 2004 na Colômbia integrando a compilação literária do Convénio Andrés Bello

 

 

Élmer Mendoza. Culiacán, México, 1949.

Um dos narradores mais consistentes, lúdicos e provocadores do universo latino-americano. Ultimamente dorme bem.

 

 

Martín Kohan

 

Nasci em Buenos aires em janeiro de 1967. Ensino Teoria Literária na Universidade de Buenos Aires e na Universidade da Patagônia. Publiquei cinco novelas: : La pérdida de Laura (1993), El informe (1997), Los cautivos (2000), Dos veces junio (2002) y Segundos afuera (2005); dois livros de contos: Muero contento (1994) y Una pena extraordinaria (1998); e três livros de ensaio: Imágenes de vida, relatos de muerte. Eva Perón, cuerpo y política (1998) (em colaboração), Zona urbana. Ensayo de lectura sobre Walter Benjamin (2004) y Narrar a San Martín (2005). Duas Vezes Junho foi traduzido para o português e publicdo en 2005 pela Amauta Editorial de São Paulo.

 

 

Luis Humberto Crosthwaite

 

Escritor nascido em Tijuana. Suas histórias refletem distintos aspectos da vida na fronteira México-Estados Unidos. Entre seus livros mais conhecidos estão ?Instrucciones para cruzar la frontera? (Joaquín Mortiz, 2002), ?Idos de la mente? (Joaquín Mortiz, 2001) e ?Estrella de la Calle Sexta? (Tusquets, 2000).

 

 

Efraim Medina Reyes (Cartagena, 1967)

O primeiro que quis ser foi campeão mundial de boxe, realizou 14 combates sem conhecer nenhuma vitória e decidiu tentar a sorte com a música. Com a 7 Torpes Band, fundada junto com dois amigos, gravou dois Cds de garagem e em quatro anos conseguiram vender 9 cópias cada um. Depois estudou medicina por três anos e dois de economia. Em 1986 fundou a multinacional Fracaso Ltda (com o hoje mítico slogan ?Onde se necessite um fracasso aí estaremos?) e escreveu e dirigiu peças de teatro como ?Eso no me infla la banana? (?que teve uma assistência recorde para Cartagena de sete espectadores em seis meses?); também fez filmes em vídeo como ?Tres horas mirando un chimpancé?. Em 1995 ganhou o prêmio nacional de literatura com a obra ?Cinema árbol y otros cuentos?. Mas o êxito internacional chegou em 2001 con a novela ?Erase una vez el amor pero tuve que matarlo? que foi seguida em 2002 por ?Técnicas de masturbación entre Batman y Robin? y em 2003 por ?Sexualidad de la Pantera Rosa?. Em 2005, durante a Feira Internacional do livro de Bogotá, lançou uma coleção de poemas sob o título ?Pistoleros/Putas y Dementes (Greatest Hits)?. Para dezembro anuncia sua novela ?La mejor cosa que nunca tendrás? e um CD de Grandes Fracassos de 7 Torpes Band intitulado ?Canciones aún más mediocres?. Foi jurado do Festival Internacional de Cine de Veneza. Escreve para a revista colombiana Soho (www.soho.com.co) e para a italiana Internazionale (www.internazionale.it).

 

Leo Felipe Campos (Venezuela) é editor da revista literária venezuelana PLÁTANO VERDE

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ROCK, BOXE E POEMAS: UMA ENTREVISTA COM EFRAIM MEDINA REYES

Por Claudinei Vieira

 

 

 

 

 

 

 

 

Esta entrevista brilhante, repleta de perguntas inteligentes e fundamentadas, que revelam um conhecimento profundo da obra e vida de Efraim Medina, e de respostas interessantes, ferinas, muitas vezes polêmicas, surgiu de uma curtíssima conversa no dia do lançamento do livro SIMPLES, de Marcelo Carneiro da Cunha, onde Efraim faz uma ?participação especial?. Eu não havia preparado nada, pois somente soubera do lançamento (e que ele estaria presente) no mesmo dia. Enquanto assistia ao debate entre os autores (mediado por Marcelino Freire com seu afiadíssimo portunhol), fiquei pensando: Porra, estou organizando um especial de literatura latino-americana e conheci um dos autores que participará do dito cujo especial. O mínimo que posso fazer é entrevistá-lo, ora!

Duas coisas me atrapalhavam: não falo nada de espanhol (é impressionante como a língua escrita é absurdamente complicada quando falada ou ouvida...) e o Marcelo Barbão não estava presente. E Efraim iria embora no dia seguinte. Com alguma mímica e ajuda de algumas pessoas ao redor, consegui me apresentar e me fazer reconhecer e perguntei se não poderia lhe mandar umas duas ou três perguntas, algo bem rápido, para não dar muito trabalho.

O cara curtiu muito, recordou-se bastante bem do site e fez vários elogios aos paralelos. Quis ter uma idéia do teor das perguntas, então inventei alguma coisa rápida na hora, prometendo que mandaria um e-mail mais elaborado. Nos separamos amigavelmente e cada um foi beber com suas respectivas turmas. No final das contas, algumas horas depois as respectivas ?turmas? acabaram se encontrando no Bar Mercearia São Pedro. É lógico que às 02:00 ou 03:00 da manhã, ninguém está interessando em entrevistar ou ser entrevistado (embora seja impressionante observar como a língua falada ou ouvida é compreensível em momentos de bebedeiras).

Acabei mandando (depois de passada a ressaca, é óbvio) só três perguntas, sem muita elaboração (acho que, na verdade, eu não tinha certeza de que se lembraria de mim). Bueno, o cara não só se lembrou como respondeu bem rápido.O título do e-mail era Entrevista Corrigida e quando abri o arquivo vi que as minhas três singelas, humildes e curtas perguntas haviam se transformado, por artes medinianas, em mais de vinte, com uma perspicácia e profundidade que nunca soube possuir. Inclusive, (já veio traduzida(!), nem precisaria pedir mais um trabalho para o Marcelo Barbão.

Acho que é uma das melhores entrevistas que já fiz na vida.

 

1- Poderíamos começar falando da Fracasso Editores. É uma editora fictícia (aparece citada, por exemplo, em Técnicas de masturbação...) ou um projeto real?

Cresci num bairro violento de Cartagena de Índias. Na adolescência, registrei nossos esportes num estribilho: caçar gringas na praia e assaltar gringos nas muralhas. Queríamos ter um negócio e como não havia dinheiro fundamos a multinacional Fracasso Ltda. Seu único ativo na época era o lema: Onde for necessário um fracasso lá estaremos. Queríamos fazer música e formamos a 7 Torpes Band (éramos três). Compus canções e gravamos uma fita cassete de garagem com o título Canções medíocres. Vendemos nove fitas e decidimos gravar a segunda. Intitulava-se Canções ainda mais medíocres. Vendemos oito fitas e isso foi tudo. Depois nos dedicamos ao teatro. Nossa primeira obra se chamou Três horas olhando para um chimpanzé e teve o público record para Cartagena de sete espectadores em seis meses. Passamos para o vídeo com o filme Isso não infla a minha banana e, depois, editamos a mão meu livro de poemas Chupa menina mas devagar que por alguma razão foi considerado misógino, e um grupo de feministas comprou a edição (cem exemplares) e a queimou na Praça de San Diego. Assim, comecei esgotando uma edição.

Este ano a idéia é que Fracasso Editores comece a publicar jovens que tenham qualidade literária e por diversas razões (a estupidez dos editores é a mais comum) não tenham tido oportunidade nos grandes selos. Também faremos nosso primeiro filme em formato cinema com nossa produtora Fracasso Filmes.

 

2- Li que você foi boxeador e que teve um grupo de rock. Eram hobbies ou projetos sérios que teve antes de se dedicar à literatura?

A 7 Torpes Band não funcionou, nosso talento musical era escasso, mas nos divertimos. Quanto ao boxe, foi a sério, mas depois de 14 lutas sem nenhuma vitória o treinador sugeriu que eu tentasse outra coisa. Seja como for, farei uma luta este ano para o lançamento do meu romance.

 

3- Atualmente, você se dedica somente a escrever?

Não me ?dedico a escrever?. Não sou escritor profissional nem um imitador da literatura (deixo esse papel para os outros escritores colombianos). Escrever é uma coisa a mais em minha vida. Trabalho com a Fracasso Ltda. em várias frentes: cinema, música (vou produzir um CD com canções minhas para uma banda de rock integrada por jovens da minha cidade). Odeio a figura do escritor dedicado a seu ofício que não liga a mínima para os outros. Gosto de estar com as pessoas, me envolver, continuar lutando por espaços. Treino para a luta de março ou abril, jogo futebol aos sábados com a equipe de Fracasso Ltda.; e, é obvio, inventar um papel higiênico que limpe de verdade a bunda continua sendo o meu principal projeto.

 

4- Li numa entrevista que você falou que na América Latina havia 70 escritores medíocres, entre os que você se incluía. A quê, então, acha que se deve seu sucesso na Colômbia, Itália e outros países?

Todo escritor que conheço neste mundo porco se acha um gênio. A orelha de todo livro novo que sai no mercado diz que é excelente e coisas desse tipo. Nos lançamentos um escritor apresenta o romance de um amigo dizendo que é uma obra-prima. Eu me sinto um escritor médio e vivo num mundo médio, assim, não me surpreende que leitores médios gostem do meu médio talento. Por acaso devo dizer que sou um gênio? Se fosse, teria uma Ferrari e me atracaria com a Juliette Lewis e a Beyoncé numa mesma noite. A humanidade demora cem anos para produzir seis ou sete bons escritores. Como acreditar então que a América Latina tem hoje 70 gênios da literatura? Não vou vender nem engolir essa merda, não sou puta nem  marreteiro. Meus livros têm ira e desenfreio, uma ou outra idéia e um pouco de diversão. Só sou melhor que os meus contemporâneos porque eles são péssimos. Devo então elogiá-los para que me elogiem? Não contem comigo, como disse Morrison: Cancelem minha inscrição para a ressurreição.

 

5- Como surgiu Técnicas de masturbação entre Batman e Robin? Pergunto isso porque acabei de lê-lo e me chamou a atenção o fato de ser um romance "antinarrativo". É uma mescla de gêneros, um quebra-cabeças de idéias, sentimentos, impulsos e cultura pop.

Tinha necessidade de narrar minha precária e vertiginosa vida que não cabia neste ataúde pomposo chamado literatura. Sou feito de fragmentos da mesma forma que meus romances e tento armar o estúpido quebra-cabeças para saber quem raios sou. Não me importa nada se um saco de potoca como a Isabel Allende ou um guru light como o Paulo Coelho vendem milhões. Cada um abranda a mente e o traseiro como mais lhe apraz. No meu primeiro romance escrevi: Tudo pode ser literário menos a literatura.

 

6- Em que projeto está trabalhando agora?

A. Estou construindo uns apartamentos em Cartagena para minha família.

B. Estou treinando para uma luta de boxe.

C. Trabalho num quarteto de novelas sob o título: vende-se artefato para descascar maçã.

D. vou rodar um filme com meu amigo Luis Orjuela.

E. Em 2006 sairão no Brasil Era uma vez o amor mas tive que matá-lo (Planeta), a coleção de poemas Pistoleros/Putas e Dementes (Garamond) e um livro de interação intitulado Os infiéis com os escritores Marcelino Freire, Marcelo Carneiro da Cunha e Fabrício Carpinejar (Record)

 

7- Fala-se já de uma nova geração de narradores colombianos dos quais você é o mais famoso e a quem a crítica situa como o sucessor perverso de García Márquez. Que características definem essa geração?

A. Só os seus editores e amigos falam do talento dessa geração.

B. A reiterada troca de elogios.

C. A torpeza beirando a estupidez da prosa de alguns.

D. A superficialidade, apesar de certa fluidez, de outros.

E. O quanto se levam a sério e o quanto são entediantes em geral.

F. O fato de serem escritores de brinquedo, ocos e covardes. Têm mais paixão por sua imagem do que pelo que escrevem.

G. Dar notícias em formato de romance é coisa que até um macaco pode fazer.

H. A servidão, publicamente reconhecida, de alguns com o García Marketing.

I. O péssimo gosto que têm para se vestir se reflete nos seus textos. Não há vitalidade neles. Uma larva é mais sexy do que 96% desses escritores.

 

8- A quê acha que se deve esse surgimento de narradores colombianos?

Ao fato de que a televisão e as revistas de variedades engoliram o conto de um novo ?boom? orquestrado pelos próprios escritores e alguns editores. Ao fato de que, cedo ou tarde, os medíocres teríamos nossa oportunidade. Ao fato de que as novas gerações de escritores europeus são piores e, pensando bem: se babões como Shakira ou Juanes vendem o lixo que fazem, por que nós não poderíamos fazê-lo?

 

9- Que diferenças há com respeito ao realismo mágico do García Márquez, que continua sendo a Marca registrada da Colômbia?

Seria idiotice não reconhecer a qualidade literária de García Márquez. O fato é que não me identifico com ele porque cresci ouvindo rock e soul e ele cumbia e vallenatos. Quando ele usava guyabera, eu copiava a roupa do The Temptations. Eu jamais beijarei o traseiro de um ditador como Fidel Castro para, duas semanas depois, dançar cumbia com Bill Clinton na Casa Branca (embora o mais imperdoável é que, tendo a oportunidade de ostentar um elegante fraque quando ganhou o Nobel, ele tenha preferido chamar a atenção vestindo-se de cozinheiro). Ele viveu e narrou a partir da sua estética, eu o faço a partir da minha. Qual é a minha? Da mesma forma que os meus amigos, com quem compartilhei a vida, cresci com os anseios do primeiro mundo e sem nenhum dos seus privilégios. Sou mais um filho bastardo do império ianque e não tenho outra solução a não ser usar e assimilar minha origem múltipla para expressar e defender minha possibilidade de ser alguma coisa.

 

10- Dá a impressão de que os autores colombianos não foram os herdeiros do realismo mágico. Isabel Allende ou Luis Sepúlveda são seguidores mais fiéis. Por que acha que isto aconteceu?

Na Colômbia houve tentativas, mas sem dúvida Isabel Allende e Luis Sepúlveda (que anda pela Europa fantasiado de aborígine) copiaram melhor a fórmula e também a estratégia. Isabel Allende já nem sequer escreve, apenas publica. Tudo na medida certa para um europeu em ritmo de férias.

 

11- O que pensa da figura do "escritor comprometido"?

Há quem diga que o dever de um escritor é escrever bem e ponto. Certamente pensam que o dever de um assassino é matar com esmero. Acredito que estar no mundo tem um preço e não bastam alguns livrinhos para sair da confusão. Um país como a Colômbia, que tem hoje mais da metade dos seqüestrados do mundo; um país onde morrem cerca de quarenta mil pessoas de forma violenta por ano e vinte mil meninos e mulheres sofrem amputações por culpa das minas antipessoais; onde 85% da população vivem na pobreza e na miséria mais absoluta enquanto a descomunal riqueza está com apenas 9% de privilegiados que controlam tudo do exterior? Um país assim não pode se dar ao luxo de que seus grandes homens, por melhores escritores que sejam, careçam de compromisso.

12- De que autores atuais (colombianos e estrangeiros) sente-se próximo?

Dos colombianos Sergio Álvarez, Antonio Ungar, Cristian Valencia e Fernando Quiróz. Dos estrangeiros, gosto de Stefano Benni, Martínez de Pisón, Daniel Pennac. Do Brasil, de Marcelino Freire, Marcelo Carneiro da Cunha, Joca Terron?

 

13- Há três anos em Caracas você usou palavras duras contra os prêmios que as editoras, sobretudo espanholas, outorgam todo ano. Por quê?

Os prêmios que essas editoras concedem a seus próprios autores não têm como objetivo a qualidade mas a promoção. Isto porque disparam as vendas, sobretudo em países como a Espanha onde o público parece estar mais interessado nos prêmios do que nos livros. Calculo que, dentro de 20 anos, qualquer espanhol, escreva ou não, estará arriscado a ganhar um prêmio.  Ninguém está livre de que sua editora lhe ofereça um prêmio. Aceitá-lo ou não é responsabilidade de cada um. No meu caso jamais aceitarei um prêmio de minha própria editora e que meus leitores dancem sobre a minha tumba se eu o fizer. Gastar dinheiro enviando manuscritos para esse tipo de prêmios é tempo perdido. Trata-se de um negócio e tudo está controlado.

 

14 ? Mas em sua biografia aparecem vários prêmios, por que participou se considera que estão todos arranjados?

 

Ganhei vários prêmios literários entre os 18 e os 22 anos. Não foram prêmios de editoras, mas de instituições. Depois ganhei prêmios do Ministério de Cultura e então decidi jamais voltar a concursar. Considero que todos os prêmios, inclusive os que eu ganhei, fedem. Acredito que o único prêmio para um escritor deveria ser a crítica positiva ou negativa dos seus leitores. Não dou nenhum valor aos prêmios que ganhei. Considero-os lixo e me sinto marcado por ter feito parte disso.

 

15- Pelo que falamos e pelos seus dados biográficos me dá a idéia de que Técnicas de masturbação entre Batman e Robin tem muito da sua própria vida. Acredita que a melhor forma de resistir à mentira é a auto-ironia? Essa foi a sensação que, pelo menos para mim, deixaram os manuais de Técnicas...

 

O humor é uma tradição da inteligência (por isso a maioria de escritores espanhóis é tão séria). Uso a ironia e até o cinismo como forma de enfrentar a estupidez. Acho que a vida passou a ser puro treinamento. Os mamíferos mastigam lixo quase 24 horas por dia em frente à televisão e depois falam de liberdade, sensibilidade, justiça, amor e tantos outros conceitos que não compreendem.

 

16- Há passagens que beiram a misoginia, uma coisa de que já lhe acusaram as feministas da Colômbia.  O Efraim é assim tão misógino?

 

Eu gosto das mulheres e lhes dou o uso que considero mais apropriado de acordo com os seus atributos. Amei algumas, com outras apenas pratiquei a mecânica popular e algumas foram, e são, amigas queridas. Acredito que somos diferentes e odeio que uma mulher se alegre por ter conseguido alguma coisa que antes só os homens faziam. É como se um rato festejasse ter caído na armadilha.

 

17- Até que ponto criticar García Márquez pode se transformar numa estratégia de marketing, na melhor forma de chamar a atenção dos meios e do público?

 

Se criticar o García Márquez dá publicidade e ajuda a vender meus livros, considerarei como um valor agregado. Parece-me bom que pelo menos sirva para isso. Outros usaram o servilismo hipócrita, o silêncio cúmplice e a adulação gratuita para obter seus favores. Minhas críticas são viscerais porque sinto que ele tinha a oportunidade de ser digno e a desperdiçou babando em qualquer coisa que cheirasse a poder.








Repelús    

Mónica Bustos

 

A todos aquellos que sufren por amor al arte

en algún rincón desconocido y desconocedor.

 

 

 

    Amalito Luna es el trecho maltrecho entre la Ciudad de Don Nadie y el Complejo Urbano de Todopoderoso. Amalito Luna es el recorrido de un currículum vitae hasta la tumba de cuatro cuerpos. En  la cabecera de una mesa se sienta el diablo y brinda por él, y por todos los sudamericanos que de vivir en Ciudad de Don Nadie, pasaron a contemplar el Complejo Urbano de Todopoderoso nada más que desde el umbral (porque de entrar no han entrado, siguen mirando de lejos sabiendo que aquél es un espejismo).

    Amalito se mira al espejo y se dice: ?Soy el monje pícaro oculto en un sex-shop?. Y en ese mismo espejo puede ver el reflejo de un manuscrito ardiendo en su balcón. ?Mil ideas quemándose?, se dice, y se consuela sabiendo que cuando quiera podrá escribir algo mejor. ?El problema es ? agrega - , que nadie sabe que soy un buen escritor. Y sólo por eso me considero que soy de lo peor. Porque aun sabiendo que soy de los buenos nunca podré mostrárselo al mundo- las cenizas del manuscrito vuelan por el cielo gris como si fueran granizo de carbón cayendo de allá- . El mundo; qué problema es ese para el genio destinado a vivir de este lado, acá donde se acaba el mundo?.

   Todos los jueves a las ocho de la noche va al bar muerto de un callejón sin salida en las inmediaciones de la nada, un joven toca el saxo como un verdadero Coleman Hawkins, pero nadie más que él lo escucha, porque sólo hay un público amorfo y caliente, que no entiende ni quiere entender, porque usan y abusan de aquel lugar como un centro de cuerpos perdidos y encontrados, usados y devueltos y vueltos a pedir. Nadie entiende de música, y nadie que entienda va ahí (esos van a ver a los extranjeros). Amalito aplaude, y el joven trata de ver a su único admirador pero sólo ve una silueta oscura que se mueve en la luz azul, y una bocanada de humo que señala su presencia, después de aplaudir, se quita el cigarro de la boca oscura como su destino y dice, siempre dice algo que el artista no logra oír: ?Somos la novia frígida en nuestra luna de miel?.

    En una larga mesa está un puto, uno que aún no se atreve a cenar y mira a todos lados esperando que nadie lo vea, o que le crean, que será mejor, que él no tuvo la culpa, que si está en esa mesa es porque en el Cielo lo discriminaban.

    Amalito guarda la carta suicida de un pintor frustrado, un Marc Chagall nacido en las calles de Asunción y muerto de forma trágica al atravesarse un pincel Nº20 en el cuello, y desangrarse sobre un lienzo pintado de azul. ?Día de los inocentes?, se llamaba la obra, lo decía la carta escrita para su amigo Amalito Luna quien lo encontró en la habitación podrida de los suburbios del infierno suburbial. Y conservó la luctuosa obra, monumento a los genios que se pudren en el tercer mundo rendidos ante la oportunidad que es una escapista de alto nivel y que, como lo escribió en su carta cuanto todavía era suicida en potencia, ya no era una posibilidad, sino que la veía como lo plasmó en su última obra: una broma, una burla, un día de los inocentes. Un cielo azul con una señal roja por todas partes, un prohibido y un no pasar, una franja que marcaba el límite, un cielo azul y la sangre de un suicidio por impotencia. Impotencia de llegar ser.

    Amalito colgó el cuadro detrás de su cama, lo miró desde lejos y lo encuadró con sus manos: ?Somos el torero que colabora con Greenpeace?. Y una lágrima opacó el brillo de su sonrisa sardónica.

    La oportunidad está sentada en una larga mesa, y esconde sus manos por debajo, para que nadie vea que las cadenas en sus muñecas le quedan flojas, para que nadie vea que se ha escapado otra vez. Quiere que crean que no fue su intención, que ella no tiene preferencias.

    Amalito pierde todas sus esperanzas poco a poco, maldice no haber nacido en el norte, maldice en inglés y sonríe diciendo en tono jocoso: ?I`m a whore without legs?, y llora pensando que ni siquiera sabe si lo ha dicho bien. Se sienta a escribir lo último que va a escribir, y se pregunta cómo se escribe algo que no se escribe con el corazón. Se detiene un momento y se dispone a arrugar el papel, vuelve a pensar en la posibilidad de escribir otra novela, pero casi al instante se da cuenta ? el reloj de la pared le ha dicho- que ya no hay tiempo para soñar. Que hay circunstancias, situaciones, momentos, o simplemente personas que no pueden cambiar. Da un vistazo a la carta suicida del pintor frustrado que está junto a una caja de veneno para ratas, y luego vuelve la vista al anuncio de empleo que lo espera expectante dentro de un círculo rojo, uno de esos avisitos que le dice que mejor es intentar otra cosa que morir como rata; y entonces Amalito vuelve a escribir, y piensa sin querer pensarlo: ?Soy la rata muerta por falta de albañal?.

    Un drugs-dealer permanece inmóvil de un lado de la mesa, esperando el momento para ofrecer su mercancía, sin embargo ante las acusaciones hechas aún trata de desmentirlo y advierte que a él lo buscaron, que él no le ofreció.

    Amalito sale del edificio, una lluvia negra producto de literatura incandescente cae desde su departamento barato y se posa sobre su pelo sin que él se dé cuenta. Lleva el historial de vida entre los dedos, sin carpeta y sin documentos, porque se sabe tan buen escritor que cree que ello es bastante requisito para contratarlo de dactilógrafo en aquel lugar que desde sus formas letradas en las hojas de un periódico le impidieron el suicidio. Pero pobre Amalito no imagina que para conseguir trabajo necesita algo más, al menos un amigo. Él no tiene nada, ni siquiera un currículum completo, sólo lleva ojos desesperanzados, y una vaga idea que aún lo acosa: ?Hoy dactilógrafo, mañana periodista y pasado mañana escritor?, se dice parado en la puerta de la empresa. ¡Pero ya no sueñes, Amalito! Cuántas veces más debes renunciar para renunciar de verdad a tus sueños, cuántas veces más debes toparte con las agrias verdades del mundo para saber que ni siquiera esa puerta pasarás.

    De su último empleo lo despidieron. Una patada en su sintaxis, un cheque por sus ochenta palabras por minuto y un portazo a su primera edición de la obra nunca concluida. Amalito soñaba ahora con algo más grande, aquel orgullo de superartista le cegaba su condición de nadie-te-conoce jamás imaginó que aquel  subjefe habría de reírse de su historial de vida y decirle que no era suficiente para él.

     Un profesor mediocre trata de esconderse bajo la mesa, porque no quiere que lo acusen, dice que no es su culpa que la escuela no cumpla con todas las condiciones necesarias para enseñar, y hace un chiste sobre que el sueldo que le pagan no es derecho a que le exijan que produzca hombrecillos exitosos.

     Amalito nunca comprendió la violencia del barrio en el que vivía, nunca comprendió como la gente mataba por robar, él era un hombre honesto y respetuoso a pesar del entorno en el que se había criado, era una de esas rarezas urbanísticas, una de esas mutaciones de corrección en una zona de completa permisividad, era un niño de bien que no comprendía el mal, nunca hubiera siquiera imaginado a unos niños jugando a la pelota, descalzos y abandonados a su suerte sobre un montículo de tierra que en su interior albergaba  a tres hombres muertos y uno vivo. Esas cosas le causaban miedo o repugnancia.

    ?Impotencia de llegar a ser?, recordó Amalito, ?Impotencia de estar seguro de nunca poder serlo?, corrigió enseguida. Y borracho en el bar muerto de aquel callejón sin salida en las inmediaciones de la nada, golpeándose contra la mesa e interrumpiendo al saxofonista fenómeno que no conocía nadie y los que lo conocían no lo comprendían ni podían prometerle nada, gritaba con voz alcohólica y frustrada, asesina y lamentosa: ?Somos el apéndice del apéndice del apéndice, víscera de todo lo inorgánico, materia desleal a su propio cuerpo, somos la furia de un cóctel no sorbido, el tormento del destino que te sabe capaz y no te da la oportunidad, somos el producto con el que el azar se jode a la gente, somos el genio incomprendido que no puede pagar la renta, el que escribe y desescribe, el saxofonista excelente con un saxo prestado, somos la vorágine que ha desencadenado la idea absurda de la superación latinoamericana, el defecto ineludible de nacer bajo la mala estrella?.

    Años más tarde, en una entrevista el idóneo músico iría a recordar palabra por palabra aquel delirium tremens ajeno que lo llevó a soñar con algo más, si no hubiera sido por aquellas palabras habría renunciado en poco tiempo a una carrera tan poco prometedora en su país.

    Amalito Luna vestido sólo con sus calzoncillos blancos quejándose de los cuarenta grados de calor y a la vez recordando cuando escuchaba que decían que los artistas en este país no tienen en donde caer muertos reía sin querer reír de la suerte de su mejor amigo al que estaba enterrando en una fosa en un barrio marginal a orillas del río sin que a nadie le importara; y a la vez recordaba esto cuando abrió nuevamente la misma fosa y observó el espectáculo maravilloso del cuerpo putrefacto con el pincel con sangre seca que nunca se atrevió a extirpar de las carnosidades de su amigo, ahora nada más cavidades gusanoides y negras, pero hermosa y tenebrosa a la vez, como una escultura que sólo él comprendería y valoraría, entonces arrojó el otro cuerpo sobre el de su amigo, uno aún tibio con un cortapapeles atravesándole el cuello ? uno de esos cortapapeles que no soportan que un alma incompetente le diga a otra muy hábil que su currículum no es suficiente, que la historia de su vida no le importa- ¿que si lo vieron salirse con el moribundo a cuesta?, pues sí, que si entendieron lo que sucedía, no. Y al lado de esos dos cuerpos arrojó también el del mariachi boliviano estrangulado con la cuerda de su guitarra. No lo había hecho para eliminar toda evidencia frustrante de aquella última obra maestra, sino para dejar una tercera escultura enterrada en la chacarita, la del inmigrante bohemio en busca del pan, la del hombre que tocaba el banjo de forma exquisita pero tuvo que adecuarse a la guitarra y al disfraz de extranjero para ganarse el pérfido sustento.

    El magistrado gordo y bronceado se ha querido sentar en el medio, pero esta vez se encontró con alguien peor que él, alguien que lo devolvió a su lugar. Desde su asiento le envenena la copa a todos los comensales, mientras murmura que él no tiene la culpa de tener tanta suerte, de llevar de escudo un apellido y de familia a unos amigos que lo tienen todo, que no era su responsabilidad el desarrollo del país.

    Cuando Amalito extendió el cortapapeles a través del cuello de su entrevistador, una silueta sorprendida y una guitarra desafinada sonaron como un intento de Jimi Hendrix detrás de él, un dios boliviano del banjo, oculto tras una guitarra y un sombrero mexicano (nada que a Amalito pudiera engañar, él podía oler a leguas el buen talento) lo sorprendió con el filo en la carne del otro y suplicó por su vida, y lo ayudó a transportar al moribundo a aquellas tierras marginadas de la felicidad, y mientras el inmigrante frustrado y frustrante empujaba el cuerpo tibio del recién fallecido, Amalito arrancó la cuerda de la perversa guitarra y con ella sostuvo por detrás al músico derrochado y le dijo al oído: ?Soy el paladín que acaba con la burocracia, soy el sueño perdido del pibe que quería jugar a la pelota, soy el superhéroe cobarde que ya no puede continuar, soy el que se acaba de una vez con todo aquel que procura sabiendo que no lo va a conseguir, afróntalo hermano, de este lado del mundo se sobrevive o se muere, y la supervivencia no incluye el arte?.

    No había que ser un supergenio para saber que vendrían tras él en contados minutos, por eso se arrojó sobre las tres esculturas: la del artista fracasado con un pincel atravesándole el cuello, la de la víctima de un hombre con intentos de superación que ya había perdido la paciencia, y la de un mariachi boliviano que en lugar de viajar al norte siguió muy al sur en busca de una esperanza y se encontró en un día de mala suerte con un loco desaforado asesino serial de los sueños abandonados.

    Se tiró con la pala y enterró a la inversa, desde el fondo y con la pala arriba, con un currículum vitae sobre su pecho y la tierra que caía lentamente sobre sus ojos. ?Soy el repelús de un día hermoso, la obra que nadie es digno de ver?.

     El currículo dice: ?Soy Amalito Luna, ganador de dos Cervantes, de un Rómulo Gallegos, de un Juan Rulfo y un Nóbel de Literatura nunca entregados. Profesor incorpóreo de la Sorbona, editorialista fantasma de El País. Soy un hombre con toda posibilidad de cambiar la historia, pero me tropecé antes de llegar a Atenas y caí en Sudamérica. Una de tantas criaturas criadas bajo la ignorancia de un pueblo donde no hay oportunidades y las pocas que hay se las llevan las mismas personas, las que no fueron victimas del puto impune que abusa de las personas al igual que otros pervertidos que te implantan el miedo al mundo desde muy joven, también fui víctima de profesores mediocres que no me ayudaron a desarrollar mi talento, también fui presa del dealer que atrapa a los hombres que se creen frustrados por su condición de vecinos de la Ciudad de Don Nadie, y uno de los tantos productos exclusivos de los magistrados que se olvidan que existe alguien más que ellos. Alguien con sueños y con anhelos, pero sin poder para lograrlos. Tengo capacidad suficiente para escribir novelas, guiones, cuentos y poemas, pero antes tengo la prioridad de sobrevivir, y eso implica dejar de escribir, de hacer arte, o de tratar de cambiar la historia, por eso me veo obligado a responder a su anuncio en el periódico y ofrecer mis hábiles manos para que usted disponga de ellas, y las haga trabajar como una naranja mecánica de meras copias dactilográficas?.

    Hay una  mesa tendida en la oscuridad en medio del calor tropical tan típico del infierno. Un violador puto está sentado en un extremo, a su lado la Oportunidad intenta desviar la mirada, a una silla de ella está un dealer tratando de hacer un negocio con el profesor mediocre que está justo a su izquierda, pero éste casi no lo escucha sólo observa con envidia al magistrado gordo que insta a los demás a levantar la copa a la salud del brindis que ofrece el anfitrión. El diablo sentado en el medio mira al frente y espera a que todos levanten su grial envenenado mientras él los felicita por haber logrado que una vez más un gran talento y una gran persona haya sucumbido ante el estigma de la sangre inculta y corrupta, de la aparente mala situación geográfica y económica. Y brindan todos mirando al frente y sonriendo por las esperanzas mutiladas y los sueños esfumados.

    Y mientras beben un sorbo de veneno espumante, una pelota salta por la chacarita de un país remoto, va sobre un montículo de tierra roja y oculta el último espacio libre por el que entraba un haz de luz hasta el fondo de la fosa iluminando la palabra ?Amalito?, y oculta no para siempre pero sí para el olvido: un currículum vitae, tres cadáveres y un hombre que respira por última vez. Tres niños van por la pelota y se detienen a jugar sobre uno de tantos montículos extraños que nadie irá a investigar, y juegan a ser Pelé, Maradona, y un futuro Fulano de Tal (uno más que intentará vencer los obstáculos desde cualquier lugar).

Calafrio

 Mónica Bustos

 

A todos aqueles que sofrem por amor à arte em algum lugar desconhecido e desconhecedor.

 

Amalito Luna é o trecho bombardeado entre a Cidade do Senhor Ninguém e o Complexo Urbano do Todo-Podersos. Amalito Luna é o recorrido de um curriculum vitae até o túmulo de quatro corpos. Na cabeceira de uma mesa, senta-se o diabo e brinda por ele, e por todos os sul americanos que, por viverem na Cidade do Senhor Ninguém, passaram a contemplar o Complexo Urbano do Todo- Poderoso somente a partir do umbral (porque entrar eles não entraram, continuam olhando de longe sabendo que isso é um espelhismo).

Amalito se olha no espelho e diz: ?Sou o monge patife oculto em uma sex-shop?. E nesse mesmo espelho pode ver o reflexo de um manuscrito ardendo em sua sacada. ?Mil idéias queimando-se?, diz e se consola sabendo que quando quiser poderá escrever algo melhor. ?O problema é ? acrescenta ? que ninguém sabe que eu sou um bom escritor. E só por isso considero que sou um dos piores. Porque ainda que eu saiba que sou um dos bons, nunca poderei mostrar isso ao mundo ? as cinzas do manuscrito voam pelo céu cinza como se fossem granizo de carvão caindo de lá. O mundo; que problema é esse para o gênio destinado a viver deste lado, aquí onde se acaba o mundo?. 

Todas as quintas, às oito da noite, ele vai ao bar morto de uma rua sem saída nas imediações do nada, um jovem toca o sax como um verdadeiro Coleman Hawkins, mas ninguém que ele o escuta, porque só existe um público amorfo e quente, que não entende nem quer entender, porque usam e abusam daquele lugar como um centro de corpos perdidos e encontrados, usados e devolvidos e volvidos a pedir. Ninguém entende de música e ninguém que entende vai àquele lugar (esses vão ver os estrangeiros). Amalito aplaude e o jovem tenta ver seu único admirador mas só vê uma silhueta escura que se move na luz azul e uma tragada de fumaça que assinala sua presença, depois de aplaudir, tira o cigarro da boca escura como seu destino e diz, sempre diz algo que o artista não consegue ouvir: ?Somos a namorada frígida na nossa lua de mel?.

Em uma longa mesa está uma bicha, uma que ainda não se atreve a comer e olha para todos os lados esperando que ninguém o veja ou que acreditem nele, o que será melhor, que ele não teve culpa, que se está nessa mesa é porque no Céu ele era discriminado.

Amalito guarda a carta suicida de um pintor frustrado, um Marc Chagall nascido nas ruas de Assunção e morto de forma trágica ao atravessar um pincel n˚ 20 no pescoço e sangrar sobre um lenço pintado de azul. ?Dia dos inocentes?, se chamava a obra, dizia a carta escrita  para seu amigo Amalito Luna quem o encontrou no quarto podre dos subúrbios do inferno suburbano. E conservou a triste obra, monumento aos gênios que apodrecem no terceiro mundo rendidos ante a oportunidade que é uma escapista de alto nível, um dia dos inocentes. Um céu azul com um sinal vermelho por todas as partes, um proibido e um não passar, uma lista que marcava o limite, um céu azul e o sangue de um suicídio por impotência. Impotência de chegar a ser.

Amalito pendurou o quadro atrás de sua cama, olhou-o de longe e o enquadrou com suas mãos: ?Somos o toureiro que colabora com Greenpeace?. E uma lágrima opacou o brilho de seu sorriso sardônico.

A oportunidade está sentada em uma longa mesa, e esconde suas mãos embaixo dela, para que ninguém veja que as algemas em seus pulsos estão frouxas, para que ninguém veja que se escapou outra vez. Quer que acreditem que não foi sua intenção, que ela não tem preferências.

Amalito perde todas suas esperanças pouco a pouco, maldiz não ter nascido no norte, maldiz o inglês e sorri dizendo em tom jocoso: ?I´m a whore without legs?, e chora pensando que nem sequer sabe se falou corretamente. Senta-se para escrever o último que vai escrever e se pregunta como se escreve algo que não se escreve com o coração. Para por um momento e se dispõe a amassar o papel, volta a pensar na possibilidade de escrever outra novela, mas quase no mesmo instante se dá conta ? o relógio da parede diz isso ? que não tem tempo para sonhar. Que há circunstâncias, situações, momentos, ou simplesmente perssoas que não podem mudar. Dá uma olhada na carta suicida do pintor frustrado que está perto de uma caixa de veneno para ratos, e depois volta o olhar para o anúncio de emprego que o espera expectante dentro de um círculo vermelho, um desses avisinhos que afirma que o melhor é tentar outra coisa do que morrer como um rato; e então Amalito volta a escrever e pensa sem querer pensar: ?Sou o rato morto por falta de esgoto?.

Um drugs-dealer permanece imóvel de um lado da mesa, esperando o momento para oferecer sua mercadoria, no entanto, frente às acusações feitas ainda tenta desmentir e adverte que ninguém o procurou, que ele não ofereceu.

Amalito sai do edifício, uma chuva negra produto de literatura incandescente cai do seu apartamento barato e pousa sobre seu cabelo sem que ele se dê conta. Leva o histórico de vida entre os dedos, sem carteira e sem documentos, porque sabe que é tão bom escritor que acredita que isso é requisito suficiente para contratá-lo como datilógrafo naquele lugar que, por suas formas letradas nas folhas de um jornal, o impediram de cometer suicídio. Mas pobre Amalito não imagina que para conseguir emprego precisa de algo mais, ao menos de um amigo. Ele não tem nada, nem sequer um curriculum completo, leva só os seus olhos desesperançados e uma vaga idéia que ainda o acossa: ?Hoje datilógrafo, amanhã jornalista e depois de amanhã escritor?, diz parado na porta da empresa. Mas não sonhe agora, Amalito! Quantas vezes mais você debe renunciar para renunciar de verdade a seus sonhos, quantas vezes mais debe topar com as duras verdades do mundo para saber que nem sequer passará dessa porta.

De seu último emprego foi despedido. Um chute em sua sintaxe, um cheque por suas oitenta palavras por minuto e a porta fechada para sua primeira edição da obra nunca concluída. Amalito sonhava agora com algo maior, aquele orgulho de superartista cegava sua condição de ninguém-me-conhece, jamais imaginou que aquele sub-chefe iria rir do seu histórico de vida e dizer que não era suficiente para ele.   

Um professor medíocre tenta esconder-se sob a mesa, porque não quer que o acusem, diz que não é sua culpa que a escola não cumpra com todas as condições necessárias para ensinar e faz uma piada: que o salário que pagam não dá direito a que exijam que produza homenzinhos de sucesso.

Amalito nunca compreendeu a violência do bairro no qual vivia, nunca compreendeu como as pessoas matavam para roubar, ele era um homem honesto e respeitador a pesar do ambiente que tinha sido criado, era uma dessas raridades urbanísticas, uma dessas mutações de correção em uma zona de completa permissividade, era um menino de bem que não entendia o mal, nunca teria sequer imaginado uns meninos jogando bola, descalços e abandonados a sua própria sorte sobre um monte de terra que em seu interior albergava três homens mortos e um vivo. Essas coisas lhe causavam medo ou repugnância.

?Impotência de chegar a ser?, lembrou Amalito, ?Impotência de ter certeza de nunca poder sê-lo?, corrigiu em seguida. E bêbado no bar morto daquela rua sem saída nas imediações do nada, golpeando-se contra a mesa e interrompendo o saxofonista fenomenal que não conhecia ninguém e os que o conheciam não o compreendiam nem podiam prometer-lhe nada, gritava com voz alcoólica e frustrada, assassina e lamentosa: ?Somos o apêndice do apêndice do apêndice, víscera de todo o inorgânico, matéria desleal a seu próprio corpo, somos a fúria de um coquetel não sorvido, o tormento do destino que sabe que você é capaz enão te dá a oportunidade, somos o produto com o qual o azar fode todo mundo, somos o gênio incompreendido que não pode pagar o aluguel, o que escreve e desescreve, o saxofonista excelente com um sax emprestado, somos a voragem que desencadeou a idéia absurda da superação latino-americana, o defeito ineludível de nascer sob a má estrela?.

Anos mais tarde, em uma entrevista, o idôneo músico iria se lembrar palavra por palavra daquele delirium tremens alheio que o levou a sonhar com algo mais, se não tivessem sido aquelas palavras, ele teria renunciado em pouco tempo a uma carreira tão pouco promissora em seu país.

Amalito Luna vestido só com suas cuecas brancas queixando-se dos quarenta graus de calor e, por sua vez, lembrando-se de quando escutava que diziam que os artistas neste país não tem nem onde cair mortos ria sim querer rir da sorte de seu melhor amigo que estava enterrado em uma fossa em uma bairro marginal na beira do rio sem que ninguém se importasse; e por sua vez lembrava disto quando abriu novamente a mesma fossa e observou o espetáculo maravilhoso do corpo putrefato com o pincel com sangue seca que nunca se atreveu a extirpar das carnosidades de seu amigo, agora nada mais que cavidades de vermes e negras, mas lindas e tenenebrosas por sua vez, como uma escultura que só ele compreenderia e valorizaria, então jogou o outro corpo sobre o de seu amigo, um ainda quente com uma faca de abrir cartas atravessando o pescoço ? uma desses facas de abrir carta que não suportam que uma alma incompetente diga a outra muito hábil que seu curriculum não é suficiente, que a história de sua vida não lhe importa ? se viram ele saindo com o moribundo nas cosas, pois sim, se entenderam o que acontecia, não. E ao lado desses dois corpos jogou também o do mariachi boliviano estrangulado com a corda de sua guitarra. Não tinha feito isso para eliminar toda evidência frustrante daquela última obra prima, mas para deixar uma terceira escultura enterrada na periferia, a do imigrante boêmio em busca do pão, a do homem que tocava o banjo de forma linda mas que teve que adequar-se à guitarra e ao disfarce de estrangeiro para ganhar o pérfido sustento.

O magistrado gordo e bronzeado quis se sentar no meio, mas desta vez se encontrou com alguém pior do que ele, alguém que o devolveu ao seu lugar. De se assento envenena o copo de todos os comensais, enquanto murmura que ele não tem culpa de ter tant sorte, de ter como escudo um sobrenome e de família a uns amigos que tem tudo, que não era sua responsabilidade o desenvolvimento do país.

Quando amalito estendeu a faca de abrir cartas através do pescoço de seu entrevistador, uma silhueta surpreendida e uma guitarra desafinada soaram como uma tentativa de Jimi Hendrix atrás dele, um deus boliviano do banjo, oculto atrás de uma guitarra e um sombreiro mexicano (nada que pudesse enganar Amalito, ele podia sentir o cheiro de um bom talento a léguas de distância) o surpreendeu com a lâmina na carne do outro e suplicou por sua vida, e o ajudou a transportar o moribundo para aquelas terras margeadas da felicidade, e enquanto o imigrante frustrado e frustrante empurrava o corpo tíbio do recém-falecido, Amalito arrancou a corda da perversa guitarra e com ela sustentou por tras o músico esbanjado e lhe disse ao ouvido: ?Sou o paladino que acaba com a burocracia, sou o sonho perdido do menino que queria brincar com a bola, sou o super-herói covarde que agora não pode continuar, sou o que acaba de uma vez com todo aquele que procura sabendo que não vai conseguir, afronte-o irmão, deste lado do mundo se sobrevive ou se morre, e a sobrevivência não inclui a arte?.

Não era preciso ser um supergênio para saber que viriam atrás dele em poucos minutos, por isso se jogou sobre as três esculturas: a do artista fracassado com um pincel atravessado no pescoço, a da vítima de um homem com tentativas de superação que já tinha perdido a paciência e a de uma mariachi boliviano que em lugar de viajar para o norte continuou muito para o sul em busca de uma esperança e se encontrou em um dia de má sorte com um louco desaforado assassino serial dos sonhos abandonados.

Atirou-se a pá e enterrou ao contrário, do fundo e com a pá para cima, com um curriculum vitae sobre seu peito e a terra que caía lentamente sobre seus olhos. ?Sou o calafrio de um dia lindo, a obra que ninguém é digno de ver?.

O currículo diz: ?Sou Amalito Luna, ganhador de dois Cervantes, de um Rómulo Gallegos, de um Juan Rulfo e de um Nobel de Literatura nunca entregues. Professor incorpóreo da Sorbonne, editorialista  fantasma do El País. Sou um homem com toda possibilidade de mudar a história, mas tropecei antes de chegar a Atenas e caí na América do Sul. Uma de tantas criaturas criadas sob a ignorância de um povo onde não há oportunidades e as poucas que existem são tomadas pelas mesmas pessoas, as que não foram vítimas do impune que abusa das pessoas como os outros pervertidos que implantam em você o medo do mundo desde muito jovem, também fui vítima de professores medíocres que não me ajudaram a desenvolver meu talento, também fui presa do dealer que capturam os homens que se acreditam frustrados por sua condição de vizinhos da Cidade do Senhor Ninguém, e um dos tantos produtos exclusivos dos magistrados que se esquecem que existe alguém além deles. Alguém com sonhos e com vontades, mas sem poder para conseguo-los. Tenho capacidade suficiente para escrever novelas, roteiros, contos e poemas, mas antes tenho a prioridade de sobreviver e isso implica deixar de escrever, de fazer arte, ou de tentar mudar a história, por isso me vejo obrigado a responder a seu anúncio no jornal e oferecer minhas hábeis mãos para que o senhor disponha delas, e as faça trabalhar como uma laranja mecânica de meras cópias datilográficas?.

Há uma mesa na obscuridade no meio do calor tropical tão típico do inferno. Um violador bicha está sentado em uma extremidade, a seu lado a Oportunidade tenta desviar o olhar, a uma cadeira de distância dela, está um dealer tentando fazer um negócio com o professor medíocre que está bem à sua esquerda, mas este quase não o escuta só observa com inveja o magistrado gordo que insta os demais a levantar o copo à saúde do brinde que oferece o anfitrião. O diabo sentado no meio olha para frente e espera que todos levantem seu graal envenenado enquanto ele os felcita por ter logrado que uma vez mais um grande talento e uma grande pessoa tenha sucumbido ante o estigma do sangue inculto e corrupto, da aparente má situação geográfica e econômica. E brindam todos olhando para frente e sorrindo pelas esperanças mutiladas e dos sonhos esfumaçados.

E enquanto bebem um sorvo de veneno espumante, uma bola salta pela periferia de um país remoto, vai sobre um montinho de terra vermelha e oculta o último espaço livre pelo qual entrava um feixe de luz até o fundo da fossa iluminando a palavra ?Amalito? e oculta não para sempre mas sim para o esquecimento: um curriculum vitae, três cadáveres e um homem que respira pela última vez. Três crianças correm para a bola e param para brincar sobre um dos tantos montinhos estranhos que ninguém vai investigar e brincam de ser Pelé, Maradona e um futuro Fulano de Tal (um a mais que tentará vencer os obstáculos de qualquer lugar).

 

 

 

 

 

Mónica Bustos

 

Nasceu em Assunção, Paraguai, em 16 de março de 1984, filha de um pintor magnânimo, um Rembrandt não reconhecido, e de uma mulher que aprecia a arte como poucos. Cresceu sem outros interesses a não ser os livros e graças ao apoio de seus pais pôde publicar seu primeiro, uma novela de ficção de quatrocentas páginas, ?León Muerto?, aos 20 anos, em abril de 2004. E graças à cálida acolhida ao cadáver do rei da seilva, por um público descuidado que se animou a ler uma literata nova ? que tinha duas coisas em contra de si: ser jovem e ser compatriota ? foi possível o lançamento do segundo livro ?Complejo de Bustos? (abril de 2005), onze contos sobre personagens que beiram a loucura se misturam na fantasia e realidade. Atualmente trabalha como Diretora da Galeria de Arte no Centro Cultural Porfirio Bustos, luta por seu projeto ?Cría Cuervos? (tentativa de iniciar uma editora independente), co-escreveu um roteiro cinematográfico que será rodado em 2006 pela mão do cineasta independente (paraguaio) Jorge Pettengill. Também trabalha em sua próxima novela?










N.E.: O restante do Especial você encontra no Site Paralelos; http://www.paralelos.org/out03/

Claudinei Vieira