26/06/2006 Número de leitores: 434

A Dança da Serpente

Jussara Salazar Ver Perfil

Por Jussara Salazar

 

 

[A poética ondulante de Eduardo Jorge]

 

 

Sobre a prática poética do espaço na arte ? entendam-se aqui a imagem e a palavra ? caberia uma questão: se não seria necessário, ao contrário do que se pensa, fazer desaparecer, construir ausências, retirar, escavar e resgatar a partir do que existe e está presente, fazer ver. Talvez recolher a matéria, retirá-la dos lugares comuns ? capinar sem medo do joio nem do trigo.

 

Decupagem e intuição. Pois toda matéria da criação está posta nesse mundo a nossa volta, e nada virá sem que antes já esteja ali e tenha existido. A criação seria assim o exercício de conferir novas ordens, novas disposições para um entorno que nos é familiar, enquanto imagina-se na maioria das vezes que o estado sensível das idéias carece de invencionismos, de abarrotar e preencher um espaço que hipoteticamente encontra-se vazio e despovoado.

 

 

Por isso, ao escrever um poema, às vezes precisamos rasgar e emendar supostos papéis, redizer palavras que nunca escrevemos e que pronunciamos todo tempo, necessitamos de uma prática do muito humano. Não somos divinos mas tudo é mágico e infinito, no sentido de onde iniciam-se essas novas dimensões do sagrado que atualizam-se e nos cercam. O que fazer do paradoxo desses estranhos ritos para onde a criação nos conduz?

 

Essas e muitas outras questões inquietam quem começa a escrever poesia, e observam-se algumas refutações que surgem advindas dos velhos e sábios, bem como dos novos e jovens poetas que escrevem hoje.

 

O poeta Eduardo Jorge escreve como quem faz do desejo essa dimensão do tempo onde movimenta-se, cria e respira numa ?dança?, como ele próprio define. E se tivesse de pensá-lo com sua novíssima poesia, diria da matéria insistente de sua fala ? cabelos, dentes e unhas, um pássaro que sobrevoa um mar de látex ? fragmentos que sobrevivem desfeitos como ex-relíquias, posto que ali há um corpo que não mais existe porque não se faz mais necessário.

 

São escombros, fragmentos, lacunas com novos dizeres. Sobre essa ótica é possível discutir a circularidade dessa inexistência que costumamos ordenar e definir como tempo, o que passa e se esvai e onde, existência e permanência passam a se inteirar em apenas uma dimensão, um intervalo entre dois infinitos, entre a virtude e a força mítica dessa nova prática poética de entre-espaços e vãos em avalanches de palavras. 

 

 

Eduardo Jorge movimenta-se em todas as direções indistintamente, e a partir de um momento quando o poeta, que mora em Fortaleza, decidiu mudar-se para o São Pedro ? um velho prédio abandonado que depois veio a ser ocupado por uma comunidade de pessoas, alguns, estrangeiros e artistas ? iniciou uma experiência estética de intensa significação, e passou a viver o espaço como parte inerente e inseparável de sua vida. Refazendo seu modo de olhar o mundo de dentro para fora para novamente retornar ao interior de um espaço vital, sua própria casa, seu ir e vir.

 

Dessa experiência surgiu uma plaquete com nome semelhante: San Pedro. Silencioso, o pequeno livro com apenas 50 exemplares, circulou por poucas mãos. Instigado pela convivência com o antigo prédio, Eduardo desdobrou a experiência e realizou vídeos, coreografias, fotografias e inúmeros projetos coletivos, criando um corpo matriz, cuja anatomia era aos poucos desvelada pela natureza desconstruída e misteriosa do velho edifício, localizado a poucos metros do mar, e que deixa uma pergunta aos passantes ? Seria um quarter habanero?

Entre portas, janelões, escadas, grades e o antigo elevador, o São Pedro inquieta esses que circulam de passagem e os que ficam, por sua natureza de obra acabada mas em estado de impermanência, pela sua arquitetura refeita por modos e sensibilidades diferentes. Tudo é antigo, tudo permanece aberto a um novo olhar, estrangeiro e íntimo.

 

Ao mesmo tempo, durante a travessia por essa casa-corpo, o poeta foi tomado por uma profunda consciência desse estar-em-si, que é dele e do outro, registrando o mito da passagem do humano, da matéria transitória da qual somos feitos, registrando cada textura de seu próprio corpo, da casa, de seus afetos, fazendo de tudo que encontrava seu suporte, sua escritura, afinal como formulou enigmaticamente Joseph Beuys: ?como explicar arte para uma lebre morta?? Pois existe uma dimensão, um vazio, entre a possibilidade e a impossibilidade de existir, que é na arte, apenas na arte, como instância criativa e produtiva diante dos mecanismos paralisantes da sociedade de consumo, onde consegue-se alguma mínima satisfação ou salvação ?, é quando nos encontramos diante desse inexorável humano e demasiadamente humano, quando deparamo-nos com a finitude daquilo que ainda resiste natureza em nosso mundo sensível ? a vida e a morte das coisas.

 

A poesia de Eduardo Jorge lança esses dados alquímicos naquilo que ele define como Espaçaria, seu novo livro, ainda inédito. Espaços dentro de espaços, a serpente como mandala de um ritual da palavra, pois sua geografia no mundo é esse ponto onde ele inicia e ordena-se para elaborar seu trabalho.

 

 

A serpente é o velho deus que fertiliza a terra, a imago-mundi que circulariza, eterniza esses espaços, e ora transforma-se em cabelos ? a mítica medusa ? ora transmuta-se em animal celestial.

 

No poema de abertura do livro, Batistério, o poeta reafirma esse caráter mítico de sua própria realidade: ( na sua barriga./ o branco insiste na falta de umbigo.), e parece tomar o mundo como seu centro de ocupação e de resistência: ( o maior incômodo, o nome, em nome de. / e desapareceu quando o batizei de adeus.).

 

Ou no poema ?Lava- pés?, em que o poeta filosofa sobre a condição humana diante da natureza e do tempo: (dias de poeira engrossam/os calcanhares andarilhos,/as rachaduras maiores de/todos os corações secos:/água: o fundo do poço da/caminhada sem destino ?/ na beira da estrada uma/mulher, seus anos de água/na bacia em espera, sem/uma provação específica:).

 

O livro serpenteia em chamas, mergulha às vezes nesse mundo dos elementos líquidos e da matéria: ( o vértice em profanação ao céu do barro seco ? / estátuas crestadas e imunes (alimentando o fogo). Porque a poesia de Eduardo Jorge quer ser uma fotografia, uma dança, uma onda sonora, ou quem sabe, ser apenas o que o poeta define como uma ?cegueira essencial?.

 

Ainda inédito, o jovem poeta desperta um intenso sentimento de amor ao ofício criativo naqueles que se aproximam de seu trabalho. Cria em torno de si um movimento de constante produção e inquietação, e faz da sua Fortaleza sua casa de poesia, ex-cêntrica porque preserva a pureza do círculo quando percorre a longa via das muitas línguas da criação, e ainda por viver, ele, fora do tão decantado eixo de acontecimentos literários e culturais do país.

 

 

 

 

 

 

 

Créditos fotográficos: Arquivo de Eduardo Jorge

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jussara Salazar é poeta e designer gráfica. Natural de Pernambuco, vive e trabalha em Curitiba desde 1986. Tradutora e colaboradora de periódicos e revistas no Brasil e no exterior, publicou de sua autoria em 1999, "Inscritos da casa de Alice" (Tipografia do Fundo de Ouro Preto), "Baobá", poemas de "Leticia Volpi", em 2002 e "Natália" em 2004. Trabalha há alguns anos como editora e com o selo Tigre do Espelho produz livros e publicações. E-mail: jussara_salazar@yahoo.com.br

Jussara Salazar