29/06/2006 Número de leitores: 626

Crônicas da Copa

Sabine Kiefer Ver Perfil

Por Sabine Kiefer

 

O titã manso

 

Nestes dias de Copa, ele não faz um papel decisivo para o jogo da seleção alemã. Mas sem dúvida nenhuma, ele é o suplente mais interessante. Quando Alemanha jogava contra Costa Rica, a câmera o mostrou às vezes: Oliver Kahn, o goleiro que perdeu o lugar para Jens Lehmann. Captou imagens lindas. Kahn, o brincalhão! Todos no barzinho estavam rindo, quando ele era mostrado.

 

Que imagem diferente! Quatro anos atrás, depois do final da Copa, o Kahn se recostou à trave e olhou perdidamente. O titã foi derrotado. Alguns jogadores se aproximaram dele para consolá-lo. Deu para sentir que ninguém conseguiria aliviá-lo da dor, exceto ele mesmo.

 

Eu estava muito feliz pelo Brasil. Que sucesso! Chorei com Ronaldo. Os dois gols foram a salvação do trauma, sofrido em 1998. Mas senti pena com o Kahn, nem tanto pela perda da seleção alemã, mas sim pelo seu fracasso pessoal. Muitos o acham arrogante, não gostam dele, mas confesso que o admiro pela sua força mental e pela sua obsessão de ser um bom goleiro.

 

Meu primo, goleiro também num clube na região, onde ele mora, me convenceu que o Lehmann se adaptou melhor ao sistema de futebol preferido pelo técnico Klinsmann. Seja como for, senti com o Kahn. Mais uma vez, ele teve de se despedir de um grande sonho: jogar a Copa na própria terra.

 

Será que uma personalidade forte como ele se integraria no time?  Foi a  questão mais discutida, depois do anúncio da vontade de participar da Copa, feito por ele mesmo dias depois de ser colocado na reserva.

 

A atuação do Kahn fora dos gramados durante a Copa apenas permite um forte `sim` a esta pergunta. Nestes dias, o capitão do time, Ballack, confirmou esta impressão falando da importância do Kahn como ídolo pelo time. 

 

Um grande esportista e um homem maduro, o Kahn é.

 

 

 

 

 

 

O show do Brasil!

 

Nunca vou esquecer esta situação, na terça-feira passada. A cidade de Colônia estava ocupada! 60 mil ingleses e 25 mil suecos assistiram ao jogo das suas selecões, ou no estádio ou num dos telões colocados no centro. A cidade estava dividida. No centro os ingleses. No oeste, os suecos. Mesas carregadíssimas de chopes, ingleses apenas vestidos com uma calça e uma bandeira inglesa no pescoço, cantando sem parar um forte `God save the Queen`. E uma presença forte de policiais.

 

A Copa é uma grande festa de confraternização, adquirindo o tom das nacões jogando. O inglês um pouco `cru`, mas tumultos maiores, não houve, Graças a Deus! Dois dias mais tardes: uma doçura! Já deu para ver no primeiro jogo da seleção brasileira, assisti a festa de torcedores.  Os croatas, antes do jogo tinham balançado ao ritmo de samba ? um grupo animou. Logo depois do apito inicial formaram um grupo definido num canto da festa.

Os brasileiros não. Misturam-se logo, fazem amizades. Se eu tivesse de dizer porque viajo ao Brasil, há vinte anos, uma razão seria a minha admiração por essa leveza de fazer amizades. E não só eu! Se fizer uma pesquisa, para quem os alemães torcem (obviamente exceto à própria seleção), o resultado seria bem claro: Para os brasileiros.

 

Assim não foi muito surpreendente achar muitos alemães no barzinho brasileiro assistindo o jogo contra Japão. Depois do apito final apenas o som aumentou. A festa já começou a rolar depois do primeiro gol do Ronaldo. No caminho para casa, ainda curiosa, dei uma olhada na festa de torcedores no Centro da Cidade.

 

- Soccer é legal, soccer é legal ? brasileiros e australianos, duma maneira geral uma multidão bem amarela, estavam cantando, e no meio, um kanguru de plástico balançando.

 

Mas há pelo menos uma pessoa triste nestes dias, minha irmã Alice. Ela tem amigos de coração no Japão, assim como eu tenho em Blumenau.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sabine Kiefer é antropóloga e reside em Colônia, Alemanha. E-mail: sakie@online.de

Sabine Kiefer