19/03/2007 Número de leitores: 633

Entrevista com o Artista Plástico Masongi Afonso

Abreu Paxe Ver Perfil

Por Abreu Paxe







 


Masongi Afonso é um artista que projecta a sua visão de mundo nas suas propostas artísticas. Em conversa, garimpa a actualidade da arte em Angola, na relação, por um lado, entre suas disciplinas e estas com as instituições. Por outro, a relação entre o tradicional escultor africano e o escultor ligado às escolas ocidentais, sem complexo mostra, nesta entrevista, como fazer arte sem estar preso a uma única concepção do mundo e sem a propor tal como o cosmos regula o mundo ou o ordena.      




 

  

 

  1. Masongi Afonso ou simplesmente Afó conhece/viveu duas realidades territoriais que eram colónias: uma da Bélgica e outra de Portugal. Conheceram a luta para a sua emancipação destes países como colonizadores, num esforço para a construção do imaginário Africano reflectido nas suas independências. Como estes factos marca(ra)m a sua actividade artística, uma vez que estudou no Congo Democrático e exerce a sua actividade artística e vive em Angola, sua terra natal?

 

A existência dum homem só é possível quando pertence a um espaço geográfico definido. Neste caso eu pertenço primeiro a um espaço que se chamou Reino do Congo e o senhor sabe muito bem que tenho uma obra que ganhou o primeiro prémio de escultura ENSARTE no ano 2000, que tem como título ?makukua matato malambela e mpata (mulher) muna Congo?, as três pedras da lareira. Com isto gostaria de dizer o seguinte: Angola (RA), Congo Kinshasa (RDC) e Congo Brazzavile (RC) faziam parte do antigo reino do Congo. E direi mais ainda: eu pertenço a um povo, a um espaço, a um espaço geográfico que se chama bantu. Indo directamente ao assunto, posso-lhe dizer o seguinte: as viagens podem marcar uma época, mas não podem mudar o seu cosmos, a sua linhagem (luvila) a sua maneira de viver em suma a sua cultura. Fiz uma viagem de longa data para um dia voltar à Angola, minha terra natal, terra dos meus avós, terra dos meus pais. No Congo democrático uma coisa chamou-me a atenção: é característico nesse povo a presença cultural, esse povo canta de uma maneira própria, neste país pulsa a cultura com identidade própria de moldes africanos. Como é óbvio, estudar nesse país é uma mais valia para a construção do imaginário Africano. Depois do meu regresso ao país, mais propriamente em Mbanza Tadi, em Maquela do Zombo, em 1987, fui enviado para Luanda. A partir daí começo a trabalhar, questionando determinados factos: a guerra (entre irmões), a formação de quadros, o desenvolvimento do país de uma maneira geral e fui encontrando à medida do possível muitas soluções que concorrem naquilo que é hoje o meu ego, a minha produção artística.      

               

 

  1. Como foi o início da sua carreira como artista plástico?

 

Tudo começou na UNAP, nos ateliers da UNAP (minha moradia, porque vivia lá dentro) a trabalhar e a vender peças  de artes desde as máscaras e pequenas figuras humanas, na galeria da UNAP, hoje galeria de Maio. E lá conheci profissionais como o mais-velho Matondo Afonso, Tomas Vista, o meu colega de escola, o Arquitecto Seluyeki Emanuel e vários jovens artistas da comissão dinamizadora da UNAP no Ano de Formação de Quadros. Depois comecei a trabalhar no departamento de artes plásticas do Secretariado de estado da cultura onde conheci o consagrado artista plástico Victor Manuel Teixeira ?Viteix?. Com ele e o grupo dos mais velhos e juntando também o Jovem gravador António Feliciano Dias dos Santos ?Kidá?, antigo da classe dos Jovens artistas. Através da Cultura fui viajando em missões de serviço participando em eventos nacionais e internacionais para ganhar experiências. Depois participei num curso de cor e forma aqui em Luanda orientado por professores Suecos, e só mais tarde começo a juntar obras para uma exposição individual em Luanda, a primeira da minha vida profissional que aconteceu em 1988 na UNAP cujo texto de apresentação foi do Viteix. Daí até hoje o artista escultor Masongi Afonso (AFÓ) está em constante transformação.               

 

  1. Nas chamadas artes tradicionais africanas, segundo estudos, as máscaras esculpidas não são concebidas para serem contempladas como forma de arte, mas sim para serem utilizadas por ocasião de cerimónias ritualistas, sociais e religiosas. As suas peças de escultura (máscaras em madeira) movem-se num sentido contrário da elaboração da arte do tradicional escultor Africano para o artista, de práticas abstractas, ligado às escolas ocidentais. Como foi a sua formação artística?

 

A visão da arte no mundo é única; quer nas artes ditas tradicionais como nas artes ditas puras a essência é a mesma do ponto de vista da sua elaboração. A diferença só reside no factor do desenvolvimento das tecnologias e naquela que nós chamamos de prática profissional. Dum lado, quando, por exemplo, o artista tradicional ao marcar a sua época, visando o sobrenatural, porque na altura fabricava os objectos com o objectivo de facilitar a organização da vida das sociedades antigas quer do ponto de vista da constituição: da autoridade, da religião, do espiritualismo e quer também do ponto de vista da educação. Do outro lado, a arte pura veio disciplinar as regras de construção formal e de elaboração estética e começou- se a estudar a arte em todas as suas dimensões e especialidades. Tudo isso para dizer o seguinte: a arte do passado pode ser considerada como arte de hoje e a arte de hoje ser admirada como arte da passado e vice versa. Na realidade, a minha formação foi em primeiro lugar de um grande admirador do rico património cultural e artístico deixado pelos nossos antepassados, a magia da arte tradicional africana em geral e angolana em particular impressionou-me bastante e ainda continua a impressionar e gerou um gosto fascinante que pouco a pouco se tornou sonho. Daí pensei em entrar numa escola e fui automaticamente enquadrado na escola de artes (Academia de Belas Artes) fiz quatro anos dos estudos médios artísticos na Academia de belas artes de Kinshasa antes de regressar a angola e 3 anos do nível superior depois em 1975-1999 na especialidade de escultura e posteriormente um estágio de formação de dois meses na especialidade de escultura em pedra, no Atelier do mestre Kamanda em Kinshasa no mesmo período de formação, fins de 1999.               

 

  1. A máscara (escultura) consiste em sugerir e em provar a presença do sobrenatural. Revê-se nesta condição como artista?

 

A arte tradicional Africana em geral e angolana em particular é rica  em simbologia desde as máscaras e figurinos de madeira. A questão que se coloca relaciona-se com o mundo envolvente e a cosmogonia. Não há dissociação, mas ao contrário há sempre interligação; é o traço umbilical e está no nosso subconsciente. O sobrenatural é a força e o poder que nos anima como seres vivos, como seres existenciais e é também o leitmotiv da criatividade. Para elucidar tudo isso, um adágio africano diz o seguinte: para ser um bom escultor tem que copiar uma estatueta ou uma máscara tradicional e daí a passagem do testemunho.           

 

  1. Como é que as máscaras podem ser distribuídas em Angola, ou seja, quais são os grupos étnicos que as produzem?

 

As máscaras em Angola podem ser distribuídas em 3 grupos étnicos: 1º do Norte ? Oeste  que engloba Cabinda (Máscaras: Jingunga);  Uíje: (Máscara: Zombo); Zaíre (Máscara: Solongo); 2º do Norte ? Este que engloba Lunda Norte e Lunda Sul (Máscara: Muana Mpuó, etc..); 3º entre Noroeste e Nordeste Malanje (Máscaras: Yaka).         

 

  1. Masongi Afonso opera uma experiência a que se assemelha a de Baudelaire no modernismo. Embora um seja escultor e outro poeta, ambos buscam noutras disciplinas artísticas (poesia/artes plásticas), as razões: Masongi para esculpir e Baudelaire para escrever poesia. Fale-nos desta sua experiência em relação à poesia de Maimona que consta do livro Idade das Palavras?

 

A realidade que nós observamos quer venha da natureza ou realizada pelo homem, tudo não deixa de ser símbolo. Ora vejamos: se alguém, ou seja, se um poeta escrever e ler ?dois? em qualquer língua existente no mundo, esse exercício é uma abstracção, é código e é simbologia. E mais ainda se eu posso escrever o número 2 ?dois? assim, por exemplo, também é abstracto, é código e é simbologia. Hoje o mundo existe à base de formulações, sem a qual não há criação (criatividade). Experimentamos um exercício da base do símbolo: número 2 ?dois?, vamos obter uma imagem de um pato ou de uma galinha. A razão nas duas disciplinas está no lirismo, que é a expressão do seu interior para o objecto (obras de arte).            

 

  1. É característica da sua obra escultura e até a pintura evocarem um fino exercício de inteligência na sua contemplação. Este aspecto estará na origem das linhas e formas que estas obras tomam e a vibração que elas proporcionam, com pontos de contacto com o surrealismo e as vezes com o barroco. Quais foram os artistas que chamaram a sua atenção para as artes plásticas?

 

Eu observo, penso muito e sou um grande observador de factos aqui não pretendo falar do surrealismo, nem tão pouco do barroco e nem se quer falar dos artistas que me chamaram atenção para as artes em geral e as artes plásticas em particular. Simplesmente quero dizer-lhe o seguinte: como observador, o que me chamou a atenção foi a magia que envolve o ser humano de realizar coisas (objectos) que reflectem sua personalidade própria, esse poder de que é detentor: de inventar e de criar que só deus tem. E foram reflexões, longos pensamentos e investigação para a criação do meu imaginário criativo. E pronto, estou eu a fazer as minhas pesquisas, e acho que o caminho é longo e está desenhado para todos marcharem nele, manifestar algo ou um desejo que contribuísse no enquadramento da nossa Cultura Nacional e, quiçá, no desenvolvimento dos povos, ou seja, da humanidade.           

 

  1. No ?Falar das Máscaras? Exposição de Poesia Maimona e Escultura Afó realizada em Luanda, em Abril de 2000, na galeria da Aliança Francesa, este proporciona um diálogo entre a poesia e a escultura. O artista, pensamos, não procurou copiar os poemas, mas é nos poemas onde descobre a natureza e a ela foi buscar os motivos que empreenderam na sua criação formas tão intrigantes e desafiadoras que suas peças revelam. De que lado é que esteve o artista? Ou esteve dos dois?

 

Procuraremos primeiro entender ou aprender qual seria o significado verdadeiro da palavra copiar. Será que copiar significaria, ilustrar, interpretar ou é um exercício de recriação das imagens escritas para imagens em objectos estáticos que podem ser inanimados ou animados. Para isso nomeio, aqui como medida de reflexão, o trabalho feito pela coreógrafa Ana Clara Guerra Marques aquando da minha exposição no Cine Alfa com o título genérico ?Recriando Horizontes?; é um exemplo válido. Em segundo lugar e respondendo propriamente à pergunta, diria o seguinte: o que aconteceu em ?O falar das máscaras? foi uma ideia de fazer um trabalho de compenetração de diálogo e, quiçá, de interpretação da obra do poeta João Maimona com o título ?Idade das Palavras?, o que me cativou no exercício de leitura dos poemas foi a vibração que é característica e domínio desse poeta de Quibocolo. Notei ao longo do exercício da leitura palavras e versos esquisitos que muito me chamou a atenção e penso que o esquisitismo é a base da criatividade e pronto comecei a formular os códigos e símbolos com base nas linhas e fui construindo as formas e daí resultaram as máscaras de que faz referência. Termino dizendo o seguinte: o poeta João Maimona é tão mascarado que tive de usar também as minhas máscaras para daí resultar,  julgo eu, essa belíssima experiência entre nós os dois Masongi Afonso (escultor) e João Maimona (poeta).                 

      

  1. Qual tem sido a repercussão das suas obras no mundo, uma vez que leva na bagagem exposições individuais, várias exposições colectivas, em Angola  e no Estrangeiro e  vários prémios, incluindo o ?Prémio Nacional de Cultura e Artes??

 

Toda a carreira profissional e as suas possíveis repercussões e consagrações no mundo só é possível quando elas partem de dentro para fora (mundo fora). Enquanto ainda vivo e há ecos das actividades que estão sendo feitas (realizadas) em termos de criatividade e produção, quer seja duma forma silenciosa ou como Marketing, o mais importante para um artista verdadeiro é estar sempre em actividade e marcar as épocas em termos de produtividade, ser sempre criativo e inovador. A repercussão das minhas obras tem sido silenciosa, firme e é finalizada com passos reais na actualidade nacional e internacional.      

 

  1. Fale-nos do ambiente das artes plásticas em Angola desde a criação da Unap até aos nossos dias, incluindo a trienal de Luanda. Como é que elas se têm manifestado?

 

Penso que os objectivos da criação duma associação como a UNAP não difere muito das outras a título de exemplo, os da criação da UEA e da UNAC. Ela é a segunda a ser criada logo após a proclamação da independência de Angola em 8 de Outubro de 1978. Começou a funcionar primeiro como uma instituição dinamizadora e de massas na luta pela emancipação do homem novo, partindo do pressuposto de que a partir da arte os artistas plásticos poderem contribuir no desenvolvimento do país recém-nascido. Pelo significado, a UNAP quer dizer a União Nacional dos Artistas Plásticos; logo, a ideia primeiríssima era congregar no seu seio de uma forma organizada, enfim, e em grupo poder manifestar os seus sentimentos e trabalhar no sentido de dignificar e valorizar a nossa cultura de Cabinda ao Cunene e além-fronteiras. Continuou assim durante uma década de vida, depois no decorrer do tempo e devido as transformações da própria vida do homem; surge a necessidade da criação da Brigada Jovem dos Artistas Plásticos (BJAP) por constatar que  uma boa parte dos jovens tinha interesses na aprendizagem da profissão no ramo das artes plásticas e posteriormente essa necessidade crescente de aprender deu origem à criação do Instituto  de Formação Artística e Cultural (INFAC), uma instituição com vocação de formar jovens através das escolas  de artes cujos primeiros frutos, ou seja, a primeira formação no ramo das artes plásticas começa a partir de 1994. Com a evolução das coisas e porque já se notava qualidade e conquista de prémio a nível internacional pelos artistas angolanos mais velhos e jovens, surge uma iniciativa entre artistas angolanos (pintores) e a Empresa de Seguros de Angola, ENSA e criou-se o prémio ENSARTE em 1991. Hoje a UNAP encontra-se num período de reorganização, fruto da própria dinâmica da vida, dos artistas e da arte. As coisas mudaram significativamente e a realidade é outra. Estamos confrontados com vários problemas que têm os seus efeitos negativos e positivos. Negativos porque estamos todos embrulhados num mesmo saco, mais velhos e jovens; não se sabe quem é quem; isto é prejudicial. E também a nível da UNAP  nota-se ainda um certo atraso no acompanhamento das velocidades dos passos já dados pelos artistas na conquista dos seus espaços. Positivos porque se nota que qualquer coisa está sendo realizada na classe juvenil fruto da formação recebida na Escola Nacional de Artes Plásticas e de outras: formação de atelier de mestres já com certo nome. Nota-se realmente uma revolução na maneira de realizar as obras em termo de criatividade e de apresentação como produto acabado. E a trienal vem em certa medida justificar o esforço demostrado durante esses longos anos de dificuldade, conquista e progresso. A trienal entrou bem e é bem vinda, mas falhou no princípio em termos organizativos porque até hoje não se sabe nada sobre o timing que pode durar um encontro dessa dimensão com responsabilidade incalculável (multi-sectorial). Trienal não significa três anos de actividade, mas sim de três em três anos e com duração de três meses no máximo.                    

 

  1. Acha que em Angola é salutar, ou seja, será que existe o diálogo entre as várias disciplinas artísticas, uma experiência de que é pioneiro no Angola pós- independência pensamos no músico Rui Mingas ao Cantar poemas de nossos poetas?

 

Essa experiências ou esse exercício já existiu de facto a título de exemplo em Angola temos escritores que são artistas plásticos ou músicos, mas não é por aí que eu quero chegar, a resposta clara seria de ver dois artistas do ramo  diferente trabalharem juntos. Por exemplo, um músico que não é compositor fazer só interpretação das letras musicais de um escritor e um dramaturgo realizar uma peça teatral com base no romance dum escritor. Olha, vou dizer-lhe uma coisa: existe no mundo cantor-intérprete famoso que nunca esteve numa escola de música nem sequer faz composições. Eu próprio já trabalhei com a coreógrafa Ana Clara Guerra Marques no projecto ?Recriando Horizontes? e também com o poeta João Maimona de Quibocolo com ? O Falar das Máscaras?, viu como é salutar. Para finalizar, digo-lhe esse diálogo sempre existiu, mas hoje há ainda muito caminho a percorrer devido à própria dinâmica da vida, porque não tem havido boa compreensão ainda em termos de valorização mútua, porque ambas ganham na mesma.

 

 

 

 

 





 

Abreu Paxe nasceu em 1969 no vale do Loge, município do Bembe. Licenciou-se no Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED), em Luanda, na especialidade de Língua Portuguesa. É docente de Literatura Angolana nesta mesma instituição e membro da União dos Escritores Angolanos (UEA), onde é secretário para as atividades culturais. Publicou A chave no repouso da porta (2003), obra vencedora do Prêmio Literário António Jacinto. No Brasil, foi publicado nas revistas Dimensão (MG), Et Cetera (PR), Comunità Italiana (RJ), nas eletrônicas Zunai e Cronópios, e em Portugal, na antologia Os Rumos do Vento, (Câmara Municipal de Fundão). 
E-mail: pjairo8@hotmail.com

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