21/08/2007 Número de leitores: 337

Freak Brothers

Leandro Dóro Ver Perfil

Por Leandro Malósi Dóro

 

Palmilhei quadras com minhas botinas Zebu. A lua, igual bola de vôlei, iluminou o céu, ciceroneada por nuvens semelhantes a pequenos morros repletos de arbustos. Encontrei Gustavo em frente à varanda da casa. Das paredes descascadas, vibrava Ângela Ro Ro, cantando Amor, Meu Grande Amor.

- E daí meu? - disse ele, com um sorriso e um cumprimento de mãos. Estávamos sem namoradas. Por isso a festa daquela noite parecia ser ótima oportunidade para nos divertir. Ambos usavam camisa xadrez de manga longa - eu, azul e ele, marrom -, abertas, mostrando nossas camisetas brancas. Filosofamos sobre Gramsci. Estávamos fascinados por aquele pensador italiano ter previsto que comunicadores e artistas eram o setor intermediário de um partido, que permitia a direção e aos militantes se relacionarem. Éramos, eu e Gustavo, comunicadores sem partido.

Minto, palpitávamos pela esquerda. Por isso participávamos daquela festa do PCdoB, porém também gostávamos do PT, do PDT e do PST-U. Todos pareciam querer reduzir a distância entre as classes sociais.

Do toca disco, Djavan cantava Lambada de Serpente. Luana, Augusto, Miguel e vários outros surgiram em turmas, cumprimentando-nos e adentrando o corredor exíguo que dava para o pátio, nos fundos da casa. Fomos para lá, também.
Encontramos mais algumas dezenas de amigo. Onde estava Aline? Pensei que viria a festa. Comprei uma cerveja, armazenada em uma caixa metálica repleta de gelo, ao lado de uma das árvores do gramado. Ouvi uma seleção psicodélica sessentista de Caetano Veloso. O disk jóquei, Juliano, aproveitava para doutrinar politicamente alguns adolescentes. Muitos estariam na tarde do dia seguinte, domingo, em uma reunião do partido.

Clarice, loira e esguia, surgiu, espalhafatosa, com seu vestido policrômico esvoaçante. Flanava com plumas e sorrisos, sabendo ser admirada pelos rapazes e invejada pelas garotas. Ao cumprimentar, oferecia seu braço como se aguardando um beijo-mão. Ríamos.

Subimos a escadaria de cimento rachado. Na casa com, piso de madeira, uma banda arrumava os equipamentos para tocar alguns covers de Barão Vermelho, Roling Stones, Beatles, Red Hot Chili Pepers, Cazuza, Legião e Mutantes.

A fila do banheiro, composta por viciados, indicava o que acontecia ali, enquanto um casal de lésbicas aguardava oportunidade para utilizá-lo de forma mais criativa. O baterista, tocando a introdução de Rock and Roll de Led Zeppelin, tremeu o piso precário. Em minutos, dezenas de pessoas abarrotava as duas salas, a cozinha e a biblioteca do partido, repleta de volumes de Marx e Engels, biografias do Che Guevara e coleções de revistas do partido.

Gargalhávamos com mímicas de meu vizinho, Júlio. Gustavo depositava cerveja em nossos copos. Aline veio, acompanhada de Andressa. Fingiram não me ver? Conversaram com alguns alunos das Artes. Cumprimentei-as erguendo o copo cheio e sorrindo. Aline manteve o olhar por alguns segundos nos meus, como que consentindo o prazer em me ver.
Isso seria verdade?

A bela estava com as bochechas rosadas, provavelmente de beber vinho. Os olhos cintilantes, combinando com os cabelos negros que caíam sobre uma pequena camisa listrada de manga curta, terminada na altura das calças jeans boca de sino que guarneciam nádegas volumosas.

Na próxima vez que me olhasse, iria até ela. Contaria algumas piadas, parecidas com "se você me amasse como eu te amo, a gente se amassava a noite inteira". Diria algumas frases inteligentes, extraídas de algum intelectual qualquer, como "o homem é uma ponte entre o animal e o além-homem", do Nietzsche. Depois a convidaria para dar uma volta no pátio e então a beijaria e a roçaria pelo restante da noite.

Júlio apareceu ao meu lado, eufórico. Mostrou um baseado. Fomos à parte mais escura do pátio, porém Platão, o mais velho da casa, viu-nos e pediu para fumarmos em outro lugar. Demos uma volta na quadra, repleta de casas de alvenaria, com telhados em forma de "v" invertido. Falava de Aline, que queria ficar com ela, a achava linda e a queria desde que a conheci no início do semestre do curso de jornalismo.

Voltamos a festa e ela conversava com Maurício, o diretor de teatro e estudante de Farmácia que, pelos olhares, parecia ser extremamente simpático. Pedi um Hals ao Gustavo e comprei uma Coca-cola. Precisava recuperá-la.

Marcos, um dos comunistas da casa, mostrou-nos a coleção dos Freak Brothers. Nunca havia visto tudo dos três Freak. Lia pequenas histórias em revistas alternativas, nesses anos pré-internet.

Devo ter ficado quase meia hora deleitando-me com um daqueles gibis, rindo do gato freak e das aventuras criadas por Gilbert Shelton. Provavelmente a maconha me impediu de perceber que me prolongava na leitura. Quando percebi, a banda parou de tocar. Levantei-me de um salto e fui ao banheiro lavar o rosto. Tinha olheiras e cabelos desgrenhados.

Retornei ao pátio. Procurei meus amigos, mas não os vi. E Aline? Onde estava? Gal Costa cantava Mamãe, Coragem, do álbum Tropicália. Deus, a música era depressiva e eu estava perdido. Encontrei Gustavo contando histórias do estúdio de rádio onde trabalhava.

- Aí o locutor beijava uma ouvinte na ante-sala do estúdio. A namorada dele bateu a porta da emissora. Desesperado, nos pediu para que disséssemos que ele não estava. Em troca, ganhamos mais meia hora na programação.

Perguntei de Aline, mas ninguém sabia. Corri para a frente da casa e lá estava ela, beijando-se com o diretorzinho de teatro. Droga. Fiquei com raiva. Ia tomar mais uma cerveja, mas meu dinheiro acabou. Vi Júlio, meu vizinho, saindo da festa. Decidi acompanhá-lo. Umas três quadras adiante, passamos pelo prédio de Eduardo, um dos viciados do banheiro. Da janela do terceiro andar, Rafael, seu amigo, gritou três vezes: "ei, vocês". Berrei, em resposta: "o que houve?". Ele respondeu com um dedo sobre a boca: "shhhhhhh, silêncio".Queria rir, mas minhas botinas me levaram para casa.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Leandro Malósi Dóro é jornalista e quadrinhista. E-mail: leandrodoro8@hotmail.com

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