04/09/2007 Número de leitores: 480

Assim, também, podemos falar da poesia

Abreu Paxe Ver Perfil

Por Abreu Paxe

 

A poesia é este mar de inquietações e inconformismos e até de incompreensões, no qual o indefinível se constitui no cardápio do dia. Isto acentua a sua ficcionalidade. Talvez seja esta a razão do desagrado de alguns, não preparados para a contemplar e embarcar nos desafios que ela nos coloca, confinando-a em matizes reducionistas e preconceituosas.

 

Vimos, a propósito, falar de um poeta que nos causou inquietação, de um poeta que nos inconformou pela forma como apresenta suas peças poéticas. Estas revestidas de um aparente realismo foram tecidas com uma mestria que os singulariza, embora não se anulem os pontos de contactos com outros poetas do nosso panorama literário como vamos ter a oportunidade de demonstrar ao longo deste trabalho. Vamos aqui  tentar discutir como é que a poesia de António Azzevas (AA) se tece.


 

Em Nu Clima de Mangas, textos de AA, poeta que vamos neste texto apresentar, mais lá para o fim, leva-nos a fazer um inventário de aproximação do rigor estético de que é revestida a poesia que vem sendo elaborada desde a década de oitenta. Fase, que pensamos, essencial na literatura angolana. Fase da separação das águas: por um lado, o brigadismo engajado, apresentando textos com o grito panfletário ancorado em pressupostos assentes em normas puramente ideológicas e sem compromisso com a arte, como forma de expressar os problemas e conflitos sociais, por outro, a liberdade de espírito conscientemente assumida na elevada vontade de construção de uma estética exigida e regulada nos valores universais da arte, na qual também se inscrevem muitos que militaram nas brigadas. Nesta liberdade, alargam-se horizontes, afastando-nos do falso pretexto de concebermos a poesia num defeituoso labirinto estabelecido na junção previsível dos signos, convertidos em imagens convencionais e imutáveis do mundo que observamos. Um mundo que veneramos sem o adulterar.

 

Talvez seja por esta causa que o poeta anunciava: «as mangas (...) nasciam podres // Duros anos duras sementes» p.18. Este clima de mangas criado, o clima do texto novo, actualiza imprecisões que colocam no mesmo topos formas diferentes de entendermos a poesia, talhada entre os estudos culturais e a estética numa fusão assente na diacronia e na sincronia para dar dimensão e medida a esta osmose. A manga em AA transfigura-se, por um lado, como objecto erótico, estabelecendo pontos de contactos com Poetas como: Paula Tavares, José Luís Mendonça e João Melo, e, por outro, como símbolo de identidade como em Tomás Jorge e José Luís Mendonça. Fizemos esta nomeação apenas como indicação primária dum tema que pretendemos abordar mais amplamente em outra ocasião. Dizíamos que na sua estratégia de construção, pode-se detectar as seguintes características, que oscilam entre: a) O coloquialismo/ hibridismo linguístico, verificado em «me busca vem» p.55, «Bom amigo de sunguilar (?) // As kilumbas trocam olhares (?) /  E os makotas lançam um infindável sabhu // (?) Em anos de thâmbis vários e pouca chuva (?) // (?) E o ímpeto jovem dos mizangalas (?)» p.51. É   claro que AA ao percorrer este caminho não nos surpreendeu muito pelo facto das faíscas deste coloquialismo / hibridismo, que não é apenas a característica da sua poesia, já estalavam com vivacidade em poetas como Agostinho Neto com o texto «mussunda amingo», em Viriato da Cruz com o texto «Makézu» entre outros poetas deste período e que se estende ainda nos nossos dias em poetas, apenas para citar alguns, como Lopito Feijóo, Fernando Cafukeno, Kudijimbe, John Bella entre outros, embora entre eles uns tenham melhores resultados que outros. Talvez, a partir daí, compreendamos os traços herdados, ou seja, as contaminações entre os poetas que vão compondo nosso panorama poético; b) É outra característica, as alegrias e as tristezas de celebrar e cantar o seu lugar como se pode verificar em « (?) João xinguila ai mamãe (?) // (?) Deuses bazam lhe entregam o azar (?) //(?) Reza xinga / Faz falecer a mutimba no duro das rochas / Esmigalhada // Me abandonaram (?)» p.43, « Nas curvas do beco/Te acaçei minina!/Nem eco nem lua/ Te acaçei minina // (?) Foi mil vezes o berço / Nosso leito para amar» p.19 ; C) O proverbial «ana a mbwíji // adila xinde dimoxi» p.18. Apenas para citar estas. AA com estas características devolve-nos uma visão de integração e expansão e abre, de certeza, um espaço para a nossa poesia.

 

E assim se pode confirmar um poeta que em nosso tempo (re) começa antigos rabiscos de pátria, visto que esta se transformava num sol de vergonha, numa estranha lenha do tempo aquecendo na memória incríveis figuras num acumular de ossadas. Aqui o poeta, ludibriando o realismo, constrói o labirinto que nos remete na condição de espectadores que ao olharmos para a sua poesia ela convida-nos a vigiar as várias possibilidades de ver a arte e sermos capturados pelos limites provisórios da sua contemplação. É visível na sua estratégia de criação a multiplicidade inerente a coisa que nomeia, indicando o malogro de qualquer tentativa de a circunscrever e a limitar numa simples e talvez ingénua observação do imutável como em ?Canção para a Minga?pp.20/21; ?Mumwíla doce?p.22. Nestes textos e em quase todo seu poemário o poeta actualiza espaços, contextos, pretextos, linhagens, perplexidade, fragmentando o que aparentemente podia ser observável, ficando apenas vivas impressões de uma imagem incompleta e de construção frustada, dada a multiplicação das imagens que convoca. Assim vem confirmar o conceito de que a poesia se situa em torno duma arte que está sempre em movimento, porém, anuncia-se a vida, isto significa estar em transfiguração constante, na qual essa transformação procede a destruição do objecto, da matéria ? prima, para a partir daí se reconstruir, não o mesmo - como é óbvio ?, mas objectos novos. Assim em alguns, senão em todos os poemas do autor, verificamos que ele em simultâneo monta imagens para convocar o ditum e destrói estas imagens que aparentemente monta para convocar o modus ditum. Tal sucede, com evidência, nos poemas supra.

 

O poeta já nos situa no esforço de nos afastarmos dos lugares comuns na abordagem da nossa poesia e adequarmos nossas reflexões em torno duma poética que nos coloca enormes desafios, despidos de uniformidades e de modismos, sem que para tal dispensemos e nos unamos ao esforço da actualização e não do resgate, como às vezes lemos, da identidade, da angolanidade. Como se pode bem demonstrar, e não será aqui neste espaço, pois claro, ela (a angolanidade) constrói-se pela memória e pela actualização porque assim é a cultura, assim é a vida, e assim é a poesia de AA que, nos seus referentes textuais, é nítido reconhecer-se os traços daquilo que muitos proclamam como a angolanidade. Mas não é só desta forma que se legitima aquilo a que chamaríamos de angolanidade ou de poesia angolana.           

 

A poesia deste poeta está revestida de simbologias que permitem a compreensão das épocas passadas e da actual. Ele mimetiza de forma crítica o mundo no qual o poeta vive, na urgência de não deixar escapar nada, de se colocar na divisória entre a poesia e a vida. Mostra-nos a inquietude de um poeta que deixa transparecer as impurezas. A ferida parece estar sempre aberta «Da avaria das torneiras (...) // (?) Em redor do repetir dos baldes (...) // (?) Carnes suores carnes nuas minúcias (...) // Trazem por nós água, ouro / A lama de jazigos interditos (?)» p.17. Ele alarga a sua voz e não há outra maneira senão deixar tudo exposto, porque esse é um modo de estar no mundo sem aparar as arrestas. Dizíamos, ele alarga a sua voz e espalha-a nas cerimónias de culto no ?Tempo das Canções?.

 

Este tempo que nos faz recordar a canção eleita como o fulcro de condensação de forças e sentidos « (...) Te acaçei minina!/Nem eco nem lua(..)//(?)Foi mil vezes o berço/Nosso leito para amar.//(...) Pariu famas e estórias no areal/São estórias de n´gombiris/De cafrikes e gamanços/Das percas de virgindande/Dos baptismos de makonha/Dos kalundus da maiombola/E das estórias de jinguelés/(...)/ E originou confusão/Cabeçadas kapanga e bassula n?areia.»p.19. Esta condensação de forças e sentidos é dirigida à magia da vida, como cavernas muitas vezes de difícil acesso, fazendo-nos recordar o ? Ciclo de Ossos?.

 

Este ?Ciclo de Ossos? privilegia o tratamento ficcional da sociedade actual, numa perspectiva ousada e construtivamente crítica «Demolida a terra tens/A profusão de metais (...)//Esmagado o chão(...)//Claudicam sombras na margem de/ um tempo estranho/A arder/Ausência de luz.»p.39, aqui o poeta reforça os laços indissolúveis entre os vivos e os mortos, marcados desde logo, pela intencionalidade, como um lugar de promoção das jovens preocupações estéticas e culturais.   Este ciclo de ossos é tecido de uma configuração estilística urdida naquilo que para nós seria a representação e expressão do real social, histórico, emocional, numa linguagem depurada e vigilante a tecer jardins áridos que marcam, com certeza, uma evolução estética que dialoga com o ?(N)o Chão de Exílio?.

 

O chão de exílio foi o lugar marcado para retemperar as forças.

«Refazerem-se lares em climas d?além (?)/longe a sorte de assistir ao/Arremeter da ripa no lombo do próprio chão de nascer» p.63. Assim, o poeta dava expressão artística às suas emoções e ideias por meio de uma poesia extraordinária.

 

Poeta confirmado, António Azzevas, nasceu em Malanje em 1958. Iniciou-se nas lides literárias em 1972, altura em que obteve o prémio de poesia dos Jogos Florais no liceu daquela cidade (ex-Adriano Moreira) onde estudava e concluiu com distinção o antigo 7º ano, antecâmara para ingresso na Universidade de Angola, onde, devido à sua vocação para as Ciências Médicas, se matriculou na Faculdade de Medicina. Nessa altura revelou em círculos restritos (colegas, amigos, familiares) a sua paixão e veia poética, sem se dar a conhecer ao grande público, por entender que se impunha amadurecer a veia e suar mais a camisola, (1975/1980). No limiar dos anos 80, funda com outros confrades amantes e executantes de literatura, música, pintura, artesanato, teatro, dança e pesquisa da angolanidade ( na senda das ideias do mítico movimento ?Vamos Descobrir Angola?1940/1950), o Movimento Cívico  Cultural Kiximbula. O ?Kiximbula? marca de forma indelével a cultura angolana, com os seguintes desempenhos: a) Arte Dramática: através do grupo de Teatro da Faculdade de Medicina que arrasou com a peça ?Um Homem Alfredo? de que AZZEVAS escreve o guião, as músicas, sem esquecer que foi o proponente do título. b) Literatura: é um ilustre activista cultural com a criação da revista ARCHOTE. Em 1992, AA e outros lideres do clube Kiximbula saem de Angola por razões diversas: estudos, deserção, trabalho, opção livre, família etc. Foi no auge do reacender da guerra fratricida após as eleições.

 

Este poeta vem, sim, ocupar um lugar de destaque na poesia contemporânea angolana uma vez que a qualidade de seus textos assim reivindicam. Poesia adulta e exemplar, na qual todos cabemos cada um a experimentar seu voo nas palavras que nos faltam nestes vivos dias.

 

O rigor que Azzevas imprime neste poemário leva-nos a pedir que se busque reconhecer o valor deste poemário e abrir-se espaços, que ele certamente conquistará, de divulgação e actuação. É uma matéria válida. Assim, também, podemos falar de poesia.                   

 

 

 

 

 

 

 

Abreu Paxe nasceu em 1969 no vale do Loge, município do Bembe. Licenciou-se no Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED), em Luanda, na especialidade de Língua Portuguesa. É docente de Literatura Angolana nesta mesma instituição e membro da União dos Escritores Angolanos (UEA), onde é secretário para as atividades culturais. Publicou A chave no repouso da porta (2003), obra vencedora do Prêmio Literário António Jacinto. No Brasil, foi publicado nas revistas Dimensão (MG), Et Cetera (PR), Comunità Italiana (RJ), nas eletrônicas Zunai e Cronópios, e em Portugal, na antologia Os Rumos do Vento, (Câmara Municipal de Fundão). 
E-mail: pjairo8@hotmail.com
 

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