19/12/2007 Número de leitores: 345

O fim do livro de papel?

Paulo Lima Ver Perfil

Ele é silencioso, pesa menos de meio quilo, tem o tamanho de um livro de bolso, e provavelmente passaria despercebido em qualquer vitrine de traquitanas eletrônicas. Mas pode estar provocando uma revolução. Eis o Kindle, a engenhoca leitora de livros digitais lançada recentemente pela Amazon Books, a mais famosa livraria on-line do mundo. A novidade obteve uma resposta imediata do consumidor norte-americano. O produto, vendido inicialmente ao preço de 399 dólares, está temporariamente esgotado. Aqueles que não conseguiram comprar o seu Kindle em tempo terão de entrar numa longa lista de espera. Por causa dessa grande procura, o equipamento não poderá no momento ser vendido para o exterior. Sorry, periferia.


O Kindle não é o primeiro leitor digital existente no mercado. O seu concorrente mais próximo é o Sony Reader, lançado em 2006 e já na sua segunda versão. Mas o Kindle oferece detalhes que o põem na dianteira. Para começar, tem sido anunciado como um recurso capaz de mudar a velha indústria do livro. “Esse é um atalho para uma revolução (já em andamento) que transformará a forma de ler, escrever e publicar”, aposta Steven Levy, da revista Newsweek. Escritores, como Toni Morrison, ganhadora do Nobel, podem ser vistos no site da Amazon Books rendendo-se à praticidade do Kindle. Em termos de tecnologia, trata-se de um divisor de águas, que oferece o que nenhum outro leitor digital foi capaz até agora: conectividade wireless baseada no mesmo serviço oferecido pelas operadoras de celular, permitindo que o Kindle funcione em qualquer lugar, não apenas em espaços delimitados para uso Wi-Fi, como shoppings e aeroportos. O próprio Jeff Bezos, o todo-poderoso da Amazon, acentua a diferença: “Isso não é um equipamento eletrônico, é um serviço”.

Portátil, sem fio, com acesso a mais de 90 mil livros – que podem ser baixados em um minuto diretamente do site da Amazon Books, a um preço de 10 dólares –, blogs, jornais e revistas, e com a capacidade de armazenar até 200 livros em sua memória interna. Aí está a dimensão do tal “serviço”. Gutenberg, que inventou o processo de impressão com caracteres móveis, deve estar dando voltas em seu túmulo. O livro tradicional está ameaçado? Pode parecer ser cedo demais para prognósticos, mas a estratégia da Amazon Books é ampliar consideravelmente seu acervo de livros digitais. Antes mesmo do Kindle, a megastore já proporcionava aos seus leitores um serviço pioneiro, agora copiado por outras livrarias on-line ao redor do mundo: a leitura do primeiro capítulo dos livros. Além disso, o leitor pode contar com a opção search inside the book, permitindo-lhe pesquisar o conteúdo de cada livro. Agora Jeff Bezos está envolvido numa cruzada para convencer os editores a lançar versões digitais de novos livros, algo que já vem acontecendo, apesar do alto custo do processo, cerca de 200 dólares por exemplar. Isso implica que, num tempo não muito distante, a proporção entre as edições paperback (de papel) e seus equivalentes digitais será consideravelmente reduzida. 

O anúncio do fim do livro tradicional é tão antigo quanto o do juízo final. Há sempre um profeta de plantão a apregoar a vitória final da tecnologia sobre todas as coisas. Em 1929, o pensador alemão de origem judaica Walter Benjamim já imaginava o fim do livro, impressionado com os textos verticais que preenchiam os anúncios luminosos nas grandes cidades.

Um editor atilado e experiente como Jason Epstein, ex-diretor editorial da Random House, uma das editoras mais prestigiadas dos Estados Unidos, já alertava no começo do ano 2000 em seu ensaio O negócio do livro, publicado no Brasil pela Record: “Assim como as implicações da tecnologia de Gutenberg não poderiam ter sido previstas em sua própria época, aquelas de nossas próprias novas tecnologias hoje são vagas, mas prometem não ser menos férteis em acontecimentos”. Se você está diretamente ligado à indústria do livro ou depende dela, prepare-se para perder o sono, se é que já não o perdeu há tempos. Com a palavra mais uma vez, Jason Epstein: “A transformação que hoje aguarda os escritores e editores é muito diferente e terá conseqüências bem maiores”.

Mas o Kindle não é apenas para livros, ele atinge também o segmento de assinaturas de jornais, revistas e blogs. A partir do instante em que as edições são atualizadas, ficam disponíveis para o assinante no leitor digital. “É muito mais próximo de um entregador de jornais fazendo a entrega em sua porta do que ler uma matéria de cada vez na internet”, brinca Steven Levy, da Newsweek. Ele toca num ponto que promete tornar o Kindle ainda mais sedutor, especialmente para as novas gerações que já nascem grudadas num artefato tecnológico: a interatividade com o seu objeto, alterando-o ao seu bel-prazer. “Tem um aspecto com o qual sua cópia mãe de  E o vento levounão poderá competir. E-books como o Kindle permite que você altere o tamanho da fonte”. Além disso, argumenta Steven, pode guardar várias estantes de livros não apenas em sua memória interna, mas em cartões”.

Apesar do frenesi tecnológico, nem todos pretendem embarcar nessa onda do Kindle. A escritora e blogueira Felicia Donovan traduz em poucas linhas o sentimento dos leitores que não abrem mão dos seus amigos de papel: “Eu adoro tocar, sentir e cheirar livros. Sinto um ímpeto toda vez que entro numa livraria e vejo todos aqueles títulos empilhados nas estantes, aguardando para serem devorados. Duvido que um dia tenha o mesmo sentimento ao segurar um equipamento eletrônico”. Sua visão, contudo, é equilibrada. “Por outro lado, essa tecnologia pode abrir avenidas de acesso a muitas pessoas que, de outro modo, não lêem”. Mas é o espírito ecológico de Felícia que acrescenta mais tempero à questão. “Essa máquina pode potencialmente salvar um número enorme de árvores e, assim, ter um impacto positivo sobre o meio ambiente”.

Os prós e contras do Kindle não param por aí. Cory Doctorow é um ativista digital, autor de ficção científica e co-editor do blog Boing Boing. Doctorow escreveu recentemente um artigo no jornal britânico Guardian questionando os termos “draconianos” dos serviços oferecidos pela Amazon Books. O primeiro argumento atinge o âmago da questão da socialização do conhecimento. Uma das características do velho e bom livro de papel é sua capacidade de circular de mão em mão. Ele pode ser lido, emprestado e vendido. E assim vai passando de geração em geração, às vezes numa mesma família. “E-books que você compra através do Kindle não podem ser emprestados ou revendidos”, alerta Doctorow, que está na verdade ironizando uma das máximas do próprio Jeff Bezos, que diz: “Quando alguém compra um livro, está também comprando o direito de revender esse livro”.

O admirável mundo novo da tecnologia irá mesmo pôr o livro a nocaute? Ainda não. Conforme nota Nicholas Clee, ex-editor da revista britânica Bookseller, especializada na indústria de livros, em artigo publicado na revista Prospect, o tão propalado fim do livro foi adiado. Isto porque os números mundiais mostram que as vendas mundiais estão aumentando, mesmo com tanta ameaça ao redor.


“O livro resistiu bravamente a tais novidades. As vendas continuam aumentando. Alguns - a série Harry Potter, memórias de celebridades, certas seleções de clubes de livros - estão vendendo em quantidade recorde. Até mesmo a ficção literária, aquele gênero aparentemente fora de moda e elitista, continua encontrando grandes nichos entre os leitores”, escreveu. Segundo Clee, os nossos hábitos ainda resistem às mudanças tecnológicas, mas não a indústria que serve a esses hábitos. Uma prova disso é o aumento das vendas de livros pela internet.  Embora reconheça que os editores enfrentarão tempos difíceis, ele mostra otimismo quanto ao futuro do livro. “A tecnologia não desafiou o livro em si; ela o promoveu. Para o livro, o futuro é brilhante”.


A repercussão nos trópicos 

Quais serão as chance do Kindle no Brasil, um país que lê pouco e com baixo nível de renda? O Balaio de Notícias ouviu alguns jornalistas e escritores, a maior parte autores já publicados, todos eles leitores antenados e atilados.


Claudio Julio Tognolli é um decano do jornalismo investigativo no Brasil. Este ano ele lançou o livro Máfias, mídia e rock ´n´ roll (Editora do Bispo) em que conta os bastidores de grandes reportagens que protagonizou, e desvenda os bastidores da mídia no Brasil. Ele não acredita que o Kindle terá muito espaço por aqui, por causa do custo. “O Kindle aparece quando boa parte do mundo é iletrada e não tem dinheiro nem para comprar um paperback”. Além disso, Tognolli destaca o cenário pouco propício a qualquer ambição em torno do livro e da leitura no Brasil. “Olha o nosso quadro. Temos 2.680 livrarias, inclusive de venda de genéricos, ou seja, não exatamente livrarias especializadas, mas supermercados. Quase 70% do número de livrarias são de pequeno e médio portes, com um faturamento mensal entre R$ 35 mil e R$ 45 mil apenas”. Nessas condições, Tognolli acha que o Kindle “é uma piada”. Ele não trocaria um livro impresso por seu equivalente digital. “Carrego livro debaixo do braço em qualquer lugar”.


Escritor da nova geração, André de Leones conquistou em 2006 o Prêmio SESC de Literatura com o romance Hoje está um dia morto (Editora Record). É um dos integrantes do projeto Amores Expressos. Ele não vê o Kindle como uma ameaça ao livro tradicional. “Penso que o livro tradicional ainda existirá por muito tempo, mesmo que o Kindle ou outra engenhoca similar vingue”. Mas deixa claro, contudo, que não acredita numa melhora cultural com o advento desse leitor digital. “É apenas uma engenhoca”, disse. “Para que mais pessoas se interessem por literatura, especificamente, é preciso uma política séria de fomento à leitura e uma série de outras coisas. O suporte não tem muito a ver com isso, não”. Se tivesse de escolher, não trocaria seus livros de papel pela versão digital. “Tenho enorme afeição pelo objeto livro. Gosto do cheiro, de admirar uma capa bonita, de manusear, de sublinhar coisas enquanto leio, de escrever nas margens etc.“


Marcelo Moutinho é jornalista e escritor. Tem alguns livros publicados, sendo o mais recente a coletânea de contos Somos iguais nesta noite (Editora Rocco). Ele é um dos que não se sentem empolgados a abandonar seus livros de papel pelo digital. “A companhia do objeto livro me apraz muito. Trata-se de algo à beira do fetiche que, acredito, é bastante comum entre leitores vorazes”. Moutinho não crê que o Kindle seja uma ameaça ao livro tradicional. “Acho que esse discurso de que um suporte mata o outro meio apocalíptico. A tendência é que convivam sem maiores problemas”. O Kindle também não deve influenciar num aumento do interesse pela leitura. “Por mais que se fale num suposto alto preço do livro, o problema da falta de leitor no Brasil se dá muito mais por conta do nosso flagrante problema educacional. É claro que o acesso maior ao conteúdo das obras pode ajudar, mas não creio que seja o fundamental”.


Jornalista carioca veterano, ex-integrante da geração de ouro do JB, com um livro de contos no prelo, Romildo Guerrante se mostrou otimista quanto ao Kindle. “Acho que ele pode incentivar a leitura, porque é uma tecnologia que fala às novas gerações, mais habituadas à tela que emite luz (nós, mais velhos, somos das telas que recebem luz, como o cinema, dizia McLuhan). Se o Kindle acabar com as bibliotecas convencionais, nós apenas teremos mudado a forma de absorção da cultura, mas não a teremos destruído. É uma nova mídia que vem somar informação, agregando leitores num segmento que estaria, talvez, condenado a receber informação apenas via televisão”. Apesar disso, ele não trocaria o papel pela tela. “Sou de uma geração vencida”.


Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor. Lançou recentemente o livro de crônicas A face oculta de Nova York (Global Editora), resultado de uma temporada na Big Apple. Para ele, leitores digitais como o Kindle e o Sony Reader não têm como objetivo acabar com o livro tradicional. “Isso vai acontecer, se é que vai acontecer, de uma maneira bastante natural, a partir do momento em que o e-book reader se tornar popular”. Polzonoff adotaria o Kindle em alguns casos. “Livros policiais eu leria no Kindle sem dúvida - desde que houvesse algum tipo de garantia de que o aparelho não falharia nas páginas finais. Já ficção clássica, teatro e obras de referência eu prefiro lê-las no livro tradicional. Mas isso só porque eu sou um homem do século passado”. Se o Kindle vai aumentar ou não os índices de leitura no Brasil é um assunto que não atrai Polzonoff. “Não serão os livros que salvarão a Humanidade e muito menos o Brasil, embora, claro, eu ache que, em teoria, quem lê tem mais educação”.


Editor do Todo Prosa, um dos blogs sobre literatura mais populares do Brasil, o jornalista Sérgio Rodrigues lançou este ano seu primeiro romance, As sementes de Flowerville (Editora Objetiva). Ele vê pontos positivos no Kindle. “Carregar uma biblioteca inteira num volume de menos de meio quilo é uma maravilha. Fazer pesquisas por palavras-chave dentro do texto também”. A velocidade também o impressiona. “Comprar um livro de qualquer parte do mundo e tê-lo à sua disposição em poucos segundos, nem se fala”. Ele não acha que novas mídias substituam totalmente as anteriores. “Em geral, as pessoas se assustam porque pensam em termos de exclusividade, livro eletrônico ou livro de papel. Ocorre que a experiência nos ensina algo bem diferente. A televisão não acabou com o cinema nem com o rádio. Os meios tendem a conviver. O livro eletrônico leva algumas vantagens espetaculares sobre o de papel, embora tenha desvantagens também”. Para ele, Kindle não vai se transformar num instrumento de leitura. “O que pode aumentar o número de leitores no Brasil é, em primeiro lugar, uma educação de qualidade”.


A escritora Ana Maria Gonçalves lançou ano passado um dos livros mais caudalosos da literatura brasileira. Um defeito de cor (Editora Record) é um alentado romance de 900 páginas. Ela não vê qualquer ameaça no Kindle. "Muito pelo contrário. É aquela velha história: quando surgiu o rádio, diziam que ele acabaria com a ópera. Quando surgiu a TV, diziam que ela acabaria com o rádio, e por aí vai. E aqui estamos nós, na era da internet, ainda ouvindo rádio, e com a opção de ir à ópera ou de assisti-la no computador ou no iPod... Acredito que o livro em papel e as outras tecnologias que o suportem podem ter uma excelente coexistência".


Sobre se trocaria seus livros por suas versões digitais, ela admite um fetiche típico dos leitores que amam seus livros: "Gosto de tocar, dobrar, rabiscar, anotar, sublinhar... Só leio com lápis na mão. Mas o Kindle é um dos meus objetos de desejo, estou só esperando o preço cair um pouco e a oferta de livros eletrônicos ficar maior. Facilitaria demais a minha vida. Estou atualmente nos Estados Unidos e mais de 90% da minha biblioteca continua no Brasil. Seria maravilhoso poder sabê-la em algum lugar, à minha disposição, mas também ter acesso a ela de qualquer lugar do mundo."


Ana Maria se mostra otimista em relação à capacidade do Kindle para criar novos leitores, embora reconheça que o preço pode ser um impeditivo. "Diziam que, principalmente depois da internet, a era da imagem colocaria em risco a palavra.  Mas também nunca se leu ou se escreveu tanto quanto hoje em dia, em revistas e jornais eletrônicos (vindos da mídia tradicional ou nascidos na internet), blogs, e-mails etc... Há crianças se auto-alfabetizando na internet, aprendendo a ler ou a reconhecer palavras para acessar joguinhos ou páginas infantis. Está se formando uma geração muito interessante, acostumada a não ter limites quando o assunto é acesso à informação e a ferramentas de formação, e que sabe que a leitura é a chave de acesso a tudo isso. E que vai ler, ou vai gostar de ler, em qualquer que seja a ferramenta, tradicional, digital ou qualquer outra que venha a surgir nos próximos anos. Eu fico fascinada, por exemplo, com as novas possibilidades que se abrem junto com o livro digital, como a agregação de dicionários, léxicos, sons, cheiros, imagens... Tudo isso seria chamativo para um leitor em formação. E depois de formado, ele já está perdido, emaranhado no mundo das letras...".


O escritor e jornalista José Castello produziu ao longo dos últimos anos importantes perfis e biografias de autores brasileiros, além de ensaios sobre literatura, como o recente A literatura na poltrona (Editora Record). Sobre Vinícius de Moraes escreveu Vinícius de Moraes - O poeta da paixão(Companhia das Letras). Em O homem sem alma & Diário de tudo (Betrand Brasil) explorou o universo do poeta João Cabral de Melo Neto. E escreveu também sobre Rubem Braga e Pelé. Atualmente Castello comanda oficinas e maratonas de literatura, e pode ser lido semanalmente no suplemento literário Prosa & Verso do jornal O Globo e na revista Rascunho, de Curitiba.


Castello não considera o Kindle uma ameaça. Ele faz uma defesa apaixonada do livro tradicional. "É uma das mais incríveis invenções do homem moderno. Ele é prático, bonito, fácil de manejar, sedutor, íntimo. Creio que ainda vai demorar muito tempo para que se invente algo que ameace a existência do livro". Leitor criterioso e voraz (lê no mínimo quatro ou cinco livros por mês), ele é enfático: não trocaria o livro de papel por nada.


Contudo, Castello vê o Kindle como uma ferramenta positiva para a conquista de novos leitores. "Sem dúvida pode ajudar muito, é claro". Seu argumento é que a internet, apesar das críticas absurdas, acendeu interesses. "Muitos jovens voltaram a escrever regularmente (ainda que em internetês) e também a ler todo dia". A tecnologia imprimiu, segundo Castello, um ritmo inexorável, sem possibilidade de retorno. "Como ser contra isso? Vinicius foi contra o cinema falado, chegou a fazer campanha. E depois viu a grande bobagem que fez. Ninguém pode ser contra o presente. Sim, pode até ser: mas é absolutamente inútil".

 

 

Paulo Lima