10/02/2008 Número de leitores: 714

Do Oiapoque até aqui

Ricardo Silvestrin Ver Perfil

Por Ricardo Silvestrin




Um p, de pássaro, passeia ao longo do verso: ?pousa na palma parada?. O p pousa, o p na palma, o p e a palma parados. Agora, o haicai todo: ?Andorinha só/pousa na palma parada ?/não é verão ainda.? Anibal Beça nos envia essas Folhas da Selva, um ótimo livro com trezentas e sessenta páginas de haicai, lá do Amazonas. Foi publicado numa bonita edição pela editora Valer, de Manaus. O haicai, poema que é visão, olhar, mas também palavra: ?Sol quente na areia - /o caracol sai da casa/pra se acasalar?. Sim, para se acasalar, é preciso, paradoxalmente, sair da casa, mesmo que dentro da palavra acasalar tenha a palavra casa. Daí o ditado: quem casa quer casa. Mas Anibal mostra que para casar é preciso sair primeiro da casa, a casa dos pais quem sabe, sair da casca. É preciso sair de si, como o caracol e suas caraminholas. De repente, uma situação inusitada: ?Sobe a montanha/com uma pedra na mão/e desce com ela?. A pedra pulando, brincando na mão, volta companheira da árdua viagem. Aliás, de montanha, a pedra entende. Que melhor companhia do que ela? Ou o galo que leva brisa às folhas: ?Galo-da-campina -/traz no vento de suas asas/leve brisa às folhas?. Então, o haicai é mais do que palavra e olhar. É ver numa cena uma coisa interessante. Como quem aponta para um amigo e mostra, olha só: ?Nas vestes rasgadas/já não espanta os pássaros -/ninho no espantalho.? E não apenas olha só, mas escuta só: ?Seis horas da tarde -/sons das cigarras prolongam/os sinos do templo.? Ou ainda, sente só o cheiro: ?Manhã de domingo -/cheirando mais que o café/a baunilha em flor.? E pode ainda, depois de passar pela visão, pela audição, pelo olfato, chegar ao paladar: ?Goiaba madura/de polpa carnuda e rubra -/banquete de pássaros.? E até ao tato, como esse inadvertido macaco velho que meteu a mão em cumbuca: ?Lição esquecida ?/ mico-leão mete a mão/no ouriço da castanha.? Estar aqui e agora, com os cinco sentidos ligados e, partir daí, encontrar um sexto sentido: o haicai. Essa experiência é que faz do haicai um tipo especial de poesia. Não é uma poesia para dentro, para as idéias de quem está escrevendo. Mas uma poesia para fora, para captar o que vem de fora. Claro, filtrado e lido por quem está dentro. Isso não é também uma realização exclusiva do haicai. É possível captar instantes e realizá-los em outra forma que não a desse pequeno poema de três versos exportado pelos japoneses. É possível ainda imaginar tudo. Afinal, quem vai provar que o poema não nasceu de uma experiência? Do ponto de vista do leitor, tanto faz. Mas quem quiser se dedicar ao haicai pode encontrar no entorno instantes semi-prontos e transportá-los para o mundo das palavras. Como o fotógrafo que olha o que todo mundo vê, mas acha um ângulo que só encontramos na fotografia que ele tirou. Anibal Beça é um desses poetas-fotógrafos. E como poeta que é, fotografa para além da imagem: ?Trilhos de grafite/riscando por ruas tortas-/o bonde e a minha vida?.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 










 

 

 

 

 

Ricardo Silvestrin é autor de O menos vendido, ex-Peri,mental, Palavra mágica, Quase eu, Bashô um santo em mim e Viagem dos olhos, além dos infantis O baú do Gogó, Pequenas observações sobre a vida em outros planetas, É tudo invenção e Mmmmonstro!. Integra o grupo musical os poETs. É editor da ameopoema. Assina uma coluna no Segundo Caderno do jornal Zero Hora. Site: www.ricardosilvestrin.com.br E-mail: silvestrin@uol.com.br

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