05/03/2008 Número de leitores: 1303

Um escritor para jovens de qualquer idade

Cláudio Fragata Ver Perfil


David Almond é um dos maiores autores infanto-juvenis da atualidade na Grã-Bretanha. Nasceu em Newcastle e cresceu numa família católica sempre sonhando em ser escritor, embora não revelasse isso a ninguém. Enquanto escreveu para adultos, sua carreira seguiu de forma regular e sem grande entusiasmo por parte da crítica e dos cadernos literários. Tudo mudou com a publicação de Skellig, em 1998. O livro transformou-se num sucesso imediato e arrebanhou prêmios importantes, entre eles o Carnegie Medal, um dos mais prestigiados da Inglaterra para a literatura infanto-juvenil. Depois de encantar os leitores ingleses, Skellig chegou às livrarias do mundo todo. Publicado no Brasil pela Editora Martins Fontes — que já se prepara para lançar outro título do autor, My dad´s birdman, ainda sem tradução para o português —, o livro conta as aventuras do garoto Michael a partir do encontro com um estranho ser alado na garagem de sua nova casa. Um anjo, um vagabundo, um louco? Nem Almond sabe responder. Em entrevista exclusiva ao Cronópios, ele revela seu espanto com o sucesso de Skellig, “um livro que praticamente se escreveu sozinho”.


O senhor já disse em entrevistas que desde muito pequeno sabia que seria escritor. Em que momento teve certeza disso?


Sempre quis ser escritor e cresci sem abandonar essa idéia, embora fosse um segredo que não revelava a ninguém. Penso que tive mesmo certeza de que isso seria possível quando, aos 20 anos, comecei a trabalhar como professor. Em minhas primeiras férias, enquanto meus colegas se divertiam, eu me trancava no quarto diante da máquina de escrever. Eles me chamavam para que me juntasse à turma, mas tudo o que eu queria era ficar ali escrevendo e criando histórias.


Além de professor, o senhor foi também carteiro e vendedor de escovas porta a porta. Em que medida esses “atalhos” profissionais ajudam o escritor? Ou só adiam a carreira?


No meu caso, não atrapalhou em nada. Ao contrário, esses trabalhos fizeram com que eu tivesse outras visões do mundo, o que só me enriqueceu como escritor. Não vivi apenas no mundo encastelado das letras. Hoje sei que fiz parte do mundo real das pessoas

Com que idade publicou seu primeiro livro e qual foi?


Comecei escrevendo histórias curtas para algumas revistas e programas de rádio. Aos 32 anos, publiquei Noites Insones, uma coletânea de contos para adultos. Depois escrevi uma novela chamada Seances, que foi recusada por todos os editores do país. Tudo mudou com a publicação de Skellig, em 1998, meu primeiro livro para jovens.

Há muita diferença entre escrever para adultos e jovens?

Para mim, tudo é literatura. Considero meus livros dedicados às crianças como os mais profundos que já escrevi. Não acredito nessa separação. O que existe é a boa e a má literatura.

 

Ao citar versos de William Blake em Skellig o senhor parece mostrar que não há barreiras entre as chamadas literaturas adulta e infantil. Nem que existam faixas etárias rígidas para os leitores. Fale um pouco sobre isso.

 

Penso que uma boa história é uma boa história. Uma boa linguagem é uma boa linguagem. Limitar a leitura por faixa etária é bobagem, pois leitores da mesma idade podem ter uma compreensão muito diferente do mundo. Os versos de William Blake são simples, embora escondam muita estranheza e profundidade. Mas isso possibilita que sejam entendidos por pessoas de qualquer idade, desde que o leitor esteja preparado para isso.

 

A que atribui o sucesso de Skellig?

 

Acho que tem algo no livro que toca as pessoas do mundo inteiro. Não sei explicar exatamente o porquê. No fundo, Skellig tem pouco a ver comigo, foi um livro que aconteceu na minha vida. Foi uma experiência incrível escrevê-lo, pois às vezes tinha a impressão de que o livro se escrevia por si.. No entanto, a história repercute nas pessoas, elas descobrem, lendo o livro, que as coisas podem dar certo, que há espaço para o sonho.  

 

Então o senhor não colocaria Skellig entre os preferidos que já escreveu?

Gosto de Skellig, mas não diria que é o meu melhor livro. Como escritor, prefiro outros, que considero mais elaborados. Skellig foi fácil de escrever e é muito fácil de ser lido. Sempre me surpreendo, não sei como consegui realizar essa proeza. Mas é o meu novo o que está me deixando mais entusiasmado no momento. É um trabalho sofisticado, de texto e imagem muito juntos, estou trabalhando com um grande ilustrador. Como autor, gosto de olhar para trás e ficar satisfeito com o que fiz, mas sempre querendo produzir algo diferente no futuro.

 

Quem é exatamente Skellig? Um anjo, um vagabundo ou o quê?
 

Não saberia dizer o que ou quem ele é. Não sei de onde veio e nem como foi parar na garagem de Michael. Para mim, Skellig é um ser misterioso, um mistério como muitos que existem na vida.

 

Histórias na primeira pessoa levam os leitores a confundir o narrador com o autor. Até que ponto Michael se parece com Almond?

 

Enquanto escrevia o livro, não tinha a intenção de falar sobre mim. Depois do livro pronto, percebi que havia muito de mim ali, naqueles personagens. Também tive uma irmã bebê que ficou doente, uma garagem lotada de tralhas e várias outras semelhanças.

 

A escola forma leitores?

É possível, desde que haja um comprometimento da escola com a cultura, um envolvimento de todos, dos professores aos bibliotecários, mas a leitura não pode ser vista como algo tão especial que não possa fazer parte do dia a dia. Ela pode e deve acontecer a qualquer momento, em qualquer lugar.

 

Em Skellig o senhor faz uma crítica às escolas como únicas difusoras do conhecimento. Elas precisam ser renovadas?

Não sei como são as escolas brasileiras, mas na Grã-Bretanha a tendência é achar que a única forma de se adquirir conhecimento é na escola. Isso não é verdade. É uma loucura pensar assim. O conhecimento está em toda parte. Quando era professor, me preocupava muito com isso. Nos anos 60 e 70, havia movimentos a favor do fim das escolas, acusadas então de desinformar os alunos, e me engajei em algumas dessas correntes. Como eu mesmo tive professores muito ruins, achei que havia alguma verdade nessas idéias e reivindicações.

 

Concorda com William Blake quando ele pergunta se toda sabedoria cabe numa vara de prata (Can Wisdom be put in a silver rod?)?

 

Não afirmo que todo conhecimento cabe em algo pequeno, mas certamente as coisas pequenas podem ter grandes significados e relevância universal, principalmente sob a ótica da literatura e da arte.

 

A Grã Bretanha tem uma longa tradição em matéria de literatura infanto-juvenil: Lewis Carroll, Roald Dahl, J. M. Berrie, Edward Lear, sem falar no fenômeno J. K. Rowling. Há uma razão para isso?

Penso que isso tem a ver com o fato de a Inglaterra ser uma ilha, de estar fisicamente separada do continente. Acredito que esse fato influencie a imaginação dos ingleses e faça com que ela seja diferente da dos demais povos da Europa. É um país pequeno e, ao mesmo tempo, repleto de complexidade.

 

Tatiana Belinky, uma das maiores escritoras infanto-juvenis brasileiras, diz que o humor é fundamental na literatura infanto-juvenil. O humour inglês é um clássico universal. Isso ajuda na hora de escrever para esse público?

 

Isso é realmente verdade e ajuda muito. Nós, ingleses, somos assim, temos esse modo de olhar o mundo. Mesmo diante das coisas mais sérias, nós... ho, ho, ho...

 

O que acha do fenômeno Harry Potter? É literatura ou apenas um best-seller escrito com essa finalidade de ser um best-seller?

 

Não acredito que tenha sido escrito para ser um best-seller. As crianças descobriram o livro antes do marketing e dos interesses das livrarias e editoras. Foi a partir disso que se criou todo um trabalho comercial sobre a série. Fiquei feliz vendo as próprias crianças lendo e recomendando o livro umas às outras.

O senhor parece gostar de gatos. Eles aparecem com freqüência em seus livros. O senhor convive com eles ou é só o retrato de uma mania inglesa?

(Risos) Não tenho gatos, mas eles fazem mesmo parte da cultura inglesa. Enquanto escrevia Skellig, senti várias vezes algo roçando em minhas pernas como se fosse um gato. Era minha imaginação, outra das muitas sensações que fizeram parte da magia de escrever esse livro. Entretanto, isso ficou registrado nas aparições do gato Cochicho em várias cenas.

 

 

Cláudio Fragata