15/03/2008 Número de leitores: 760

Machados e Fados

Claudinei Vieira Ver Perfil

Por Claudinei Vieira

 

Nunca entendi muito bem por que nunca perguntaram ao próprio autor do Dom Casmurro se, afinal de contas, Capitu tinha traído ou não. Isto é, chegar no cara e perguntar: "E aí, meu, ela furunfou ou não furunfou da farinha alheia?" Sei lá, parece-me que isso é um pouco a criação de um mito cultural do qual os sábios literatos se valem para aquecer a discussão. A não ser que (e, nesse caso, perdoem-me a ignorância) a pergunta tenha sido feita sim e o Machado tenha dado somente uma risadinha de escárnio como resposta, sendo então o autêntico criador do mito. Na verdade, pouco importa saber a solução: quer ela tenha traído, quer não, isso em nada modifica (ao contrário, só acentua) as intenções e a mestria do autor em lidar com as palavras e em sondar os mistérios dos complexos humanos e como isso modifica sua visão da realidade. Para sempre, seremos assombrados pelos fantasmas do ponto-de-vista do Bentinho.

Isso sempre me vem a mente quando lembro de uma aula que assisti na Faculdade de Letras na Usp. O professor, em certo momento, saiu do tema da aula em si e começou a falar sobre sua pesquisa particular: ele estava escrevendo um ensaio (ou uma matéria ou uma tese) sobre as letras das músicas do Chico Buarque e havia se deparado com uma espécie de mistério: na música "Fado Tropical", do musical "Calabar", (?ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal?...)  há a declamação de um poema que se mistura com o resto da melodia e tudo. Pois bem, o tal professor há anos estava pesquisando a procedência daquele poema e, mistério dos mistérios!, não conseguia encontrar uma única referência. Na época eu era calouro e, como todo calouro besta e bobo, não tive coragem de levantar a mão e perguntar se aquilo chegara a ser indagado ao próprio Chico. Isto é, por que, afinal de contas, aquilo não teria sido escrito pelo próprio? Mas, e o medo de falar bobagem em público e o professor me fulminar com um olho de desprezo? Arrependo-me de ter ficado calado. Hoje em dia, eu não ficaria quieto. Poderia até levar uma gelada, mas a consciência ficaria tranqüila. Fico imaginando se, no entanto, o professor não teria afinal interpelado o chicão e este respondido com um... sorrisinho de escárnio.

voltando ao Machado... Em noites de insônias já pensei em escrever um conto mexendo no mito da Capitu. No conto, que nunca escrevi e não faço idéia se algum dia o farei, um professor de português de uma cidadezinha do interior acordaria certa manhã com a resposta na cabeça. E a resposta era tão simples, tão óbvia e clara que sua simples enunciação traria uma nova época na crítica literária brasileira. O mundo da cultura nacional teria um novo marco: A.P.P.C.I. e D.P.P.C.I. (Antes e Depois de um Professor de Português de uma Cidadezinha do Interior). Mas, ele guardaria segredo por algum tempo para escrever um artigo e, assim, se tornar famoso. Ele não conseguiria guardar o segredo muito bem e no final das contas, estaria todo mundo ansioso pela publicação do tal artigo. No dia da divulgação, no entanto, ele é encontrado morto, uma faca no coração e todos os seus papéis queimados. E, desta forma, estaria descoberta a grande conspiração mundial para a manutenção do segredo de Capitu. Nunca ficaria claro se o Machado teria sido criador deste enigmático grupo secreto ou somente mais uma vítima, obrigado a ficar calado para sempre.

Ou, então, não haveria conspiração nenhuma. O tal professor escreveria, sim, o tal artigo, surpreenderia o mundo inteiro com sua perspicácia, inteligência e simplicidade, e todo o sucesso aconteceria. Anos depois, consagrado mundialmente, morre depois de receber um prêmio Nobel concebido especialmente para ele. Lá no Céu, depois de vagar uma eternidade entre as nuvens ele trombaria de frente com o próprio Machado e, entusiasmado, começa a falar sobre o que havia feito na Terra. E o Machado, com a mesma simplicidade e inteligência, e cheio de pena, provaria para ele o quanto estava equivocado e o quanto errara em suas conclusões!

Uma outra versão do finalzinho poderia ser: O Machado escuta com toda a atenção e quando a explicação acaba, dá um tapa na testa e exclama "Mas, como eu não pensei nisso antes?!" Ou, então ainda: O professor tinha acertado mesmo e o Machado confirma, mas o escritor nunca quis que os leitores soubessem da verdade e fica tão zangado com o professor que transforma sua vida no Céu em um verdadeiro inferno.

Lembrei agora por que nunca escrevi o tal conto: Quanta bobagem!

 

Lembram disso?

 

?Meu coração tem um sereno jeito
E as minhas mãos o golpe duro e presto
De tal maneira que, depois de feito
Desencontrado, eu mesmo me contesto

Se trago as mãos distantes do meu peito
É que há distância entre intencão e gesto
E se o meu coração nas mãos estreito
Me assombra a súbita impressão de incesto

Quando me encontro no calor da luta
Ostento a aguda empunhadura à proa
Mas o meu peito se desabotoa

E se a sentença se anuncia bruta
Mais que depressa a mão cega executa
Pois que senão o coração perdoa?

 

 

 

 

 

 



 

Claudinei Vieira é escritor, cinéfilo e editor do site Desconcertos (www.desconcertos.com.br )
E-mail: vierapan@gmail.com  

Claudinei Vieira