01/05/2008 Número de leitores: 823

Sem essa de expulsar o poeta da capital da república

Ricardo Silvestrin Ver Perfil

Por Ricardo Silvestrin




As cidades se constroem pelo improviso. Como a vida. Começam num lugar, normalmente por motivos econômicos. Perto do rio, perto do mar. Junto a uma mina. E vão crescendo, vivas, construídas dia a dia por aqueles que vão morrendo ao longo de anos e anos. Não foi assim com Brasília. A capital do Brasil nasceu de uma idéia, de um plano. Ao contrário de Nero, que teve o poder de destruir uma cidade, Oscar Niemeyer recebeu o privilégio de pensar uma cidade do zero. Algo totalmente anti-histórico. O lugar do poder. Como se o poder no Brasil pudesse ficar num lugar com uma história própria, alheia, longe da muvuca, da gentalha, de quem paga a conta. No fundo, uma idéia de reino encantado. Ali, tudo seria perfeito. Seria, se não aparecesse um poeta. Nicolas Behr, o poeta marginal de Brasília. Chegou na cidade aos dez anos. Nasceu em Cuiabá. Na capital federal, lançou diversos livros, todos publicados de forma independente. Alguns títulos já revelam o tom da conversa: Chá com porrada, Parto do dia, Brasiléia desvairada. Se Niemeyer e Lúcio Costa construíram Brasília, Nicolas Behr vem desconstruindo-a durante esses anos todos. Um exemplo: ?bem, o sr. já nos mostrou/os blocos, as quadras,/os eixos, os palácios/ será que dava pro sr./nos mostrar a cidade/propriamente dita??.

 

Outro: ?enfim, era preciso saber/quanto cimento será gasto/numa ponte por onde ninguém/passará de mãos dadas?. Da pedra, à pedrada na política: ?os três poderes/são um só:/o deles?. Os primeiros poemas de Nicolas Behr que ouvi foram da boca de outro poeta que também publicou livro independente, Mario Pirata. Na Roda de Poesia, nos anos oitenta, aqui em Porto Alegre, Mario falava vários hits poéticos da época, extraídos dos livros de Nicolas Behr: ?senhores turistas/eu gostaria de frisar/mais uma vez/que nestes blocos de apartamentos/moram inclusive pessoas normais?. Agora, parte dessa produção de poemas que levou inclusive Nicolas Behr para a cadeia em 1978, preso pelo DOPS por ?porte de material pornográfico?, está reunida no livro Laranja Seleta, edição da Língua Geral. Poemas curtos, longos, recitáveis, outros para serem lidos em silêncio. Irônicos, sérios, críticos, bem-humorados, também mal-humorados. Mas sempre com o gingado, a inteligência e o pique dessa geração de poetas, como Chacal, Francisco Alvim, Leminski, entre outros, que tem, antes de mais nada, um grande mérito: ser proibido fazer poesia chata. Não espere do livro do Nicolas Behr o papo furado, as imagens bem comportadas, a dor literária, o ar de profundo. Abra e deixe que o livro se inaugure em você, como neste poema: ?quando será inaugurada em mim/esta cidade??. 

 

 

 

 

 

 










 

Ricardo Silvestrin é autor de O menos vendido, ex-Peri,mental, Palavra mágica, Quase eu, Bashô um santo em mim e Viagem dos olhos, além dos infantis O baú do Gogó, Pequenas observações sobre a vida em outros planetas, É tudo invenção e Mmmmonstro!. Lançou, também, o livro de contos Play, pela Record. Integra o grupo musical os poETs. É editor da ameopoema. Assina uma coluna no Segundo Caderno do jornal Zero Hora. Site: www.ricardosilvestrin.com.br
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